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9 coisas que todos os idosos fizeram em crianças e que já não ensinamos aos netos

Idosos fecham envelope numa mesa com moedas, comprimidos e pão; bicicleta e panela ao fundo.

O outro dia, num almoço de família, o meu pai pegou numa batata com as mãos, virou-a como se fosse um pequeno projecto de engenharia e disse, meio divertido: “Nós costumávamos plantar destas depois da escola.” O meu filho adolescente olhou para ele como se tivesse acabado de dizer que cresceu em Marte. A ideia de uma criança saber plantar comida, arranjar uma corrente de bicicleta e acender uma fogueira sem YouTube parecia quase… estranha.

Observei os dois, separados por duas gerações, ambos a fazer scroll nos telemóveis entre garfadas.

Havia um intervalo silencioso ali mesmo à mesa.

Um intervalo cheio de coisas que os nossos idosos faziam em miúdos e que os nossos netos talvez nunca cheguem sequer a tocar.

1. Andar longas distâncias sozinho - e saber realmente o caminho

Pergunte a qualquer pessoa com mais de 70 anos e ela dir-lhe-á: andavam. Para a escola, para a mercearia, para a casa de um amigo a quilómetros de distância, com sapatos nem sempre confortáveis e um tempo nem sempre amigo. Conheciam todos os atalhos, todas as cercas tortas, todos os cães que ladravam por detrás de cada portão.

Hoje, muitas crianças nem conseguem descrever as duas ruas seguintes para lá de casa sem abrir uma app de mapas. Os nossos idosos carregam mapas na cabeça. Os nossos netos carregam-nos no bolso.

A minha vizinha, com 82 anos, ainda aponta com a bengala e descreve percursos inteiros de memória: “Vira à esquerda onde era a padaria antiga, aquela que ardeu em 63, e depois à direita junto ao castanheiro.” Ela caminhava três quilómetros para a escola, duas vezes por dia, com a irmã mais nova atrás.

Sem telefone. Sem um adulto a pairar. Apenas um ritmo de passos, estações e histórias.

Compare isso com a típica ida à escola hoje: portas de carro, trânsito, mochilas, e miúdos presos no banco de trás, quase sem olhar para fora.

Quando as crianças não praticam orientar-se sozinhas no espaço, o seu mapa mental fica pequeno. As ruas tornam-se linhas anónimas num GPS em vez de caminhos vividos.

Gostamos de falar de “liberdade” para as crianças, mas a liberdade também vem de saber levar-se a si próprio do ponto A ao ponto B pelos seus próprios pés. Isto não é nostalgia do perigo. É apenas um lembrete de que a confiança muitas vezes começa com uma frase simples: Eu sei como voltar para casa a partir daqui.

2. Usar as mãos: remendar, fazer, reparar

Muitos idosos aprenderam a coser um botão antes de serem suficientemente altos para chegar à bancada da cozinha. A roupa era preciosa, os brinquedos eram arranjados, não substituídos. Um parafuso solto, uma cadeira a abanar, uma bainha rasgada: mãos pequenas eram convidadas a ver e depois a tentar.

Agora, muitos netos crescem num mundo de entregas rápidas e substituições imediatas. Quando algo avaria, o primeiro impulso é deitar fora, não abrir para ver.

Um mecânico reformado contou-me que passava as tardes na oficina do pai, a desmontar rádios só para ver “que canção vivia lá dentro”. Estragou alguns, aprendeu muito, e saiu da infância a acreditar que quase tudo pode ser desmontado e compreendido.

Muitas crianças hoje nunca usaram sequer uma chave de fendas a sério. Ferramentas de plástico de brinquedo não contam.

Sejamos honestos: ninguém desenrosca a traseira de uma torradeira avariada com os filhos numa noite de semana. Parece mais fácil deitar fora e seguir em frente.

No entanto, quando saltamos estes pequenos rituais de reparação, saltamos também o ensino da paciência, da curiosidade e da responsabilidade. Há um orgulho silencioso em apertar os travões da própria bicicleta ou cerzir a camisola preferida.

Não precisamos de transformar todas as crianças em mini-carpinteiros. Mas dar-lhes uma tarefa real, um objecto real para reparar, ancora-as na realidade. Diz-lhes, sem palavras, que são capazes de mais do que tocar num ecrã.

3. Brincar ao ar livre com liberdade, sem guião de adulto

Pergunte a idosos sobre os jogos de infância e os olhos iluminam-se. Havia terrenos baldios, quintais, campos, escadas de prédios. Uma bola e um pedaço de giz davam para uma tarde inteira. As crianças inventavam as regras, negociavam as discussões, decidiam quando “só mais uma” era mesmo só mais uma.

Os netos de hoje têm muitas vezes horários que parecem mini currículos: aulas de natação, línguas, encontros de brincadeira supervisionados. Há tempo cá fora, sim - mas geralmente embrulhado em estrutura e vigilância adulta.

Uma avó descreveu verões inteiros passados a construir “fortes” com tudo o que conseguissem arrastar ou empilhar. “Chegávamos a casa imundos, com joelhos esfolados e histórias”, disse ela a rir. Ninguém curava a sua infância. Acontecia - desarrumada e sem guião.

Compare isso com o parque infantil vedado, onde os adultos pairam nos bancos, a olhar para o telemóvel, enquanto as crianças brincam em equipamentos desenhados, testados e certificados. Há segurança, sim. Também há menos espaço para invenção selvagem.

Quando as crianças não têm tempo não estruturado, perdem a oportunidade de aprender a negociar, liderar, seguir e recuperar do tédio. O tédio, essa palavra terrível, foi em tempos a porta de entrada para os melhores jogos.

A moldura emocional é simples e um pouco crua: todos já passámos por isso, o momento em que o seu filho diz “estou aborrecido” e a sua mão vai instintivamente para um ecrã para resolver o problema. Aos idosos não lhes davam soluções. Davam-lhes um quintal e uma tarde longa.

4. Cozinhar de raiz e alimentar uma família com pouco

Muitos idosos aprenderam cedo que a cozinha não era apenas onde se comia. Era onde a sobrevivência acontecia. Descascar batatas, debulhar ervilhas, mexer sopas que duravam vários dias. As receitas não eram medidas tanto em gramas, mas em “um bocadinho disto” e “até ficar com bom aspecto”.

Muitas crianças modernas sabem usar uma app de entregas mais depressa do que conseguem partir um ovo sem espalhar cascas por todo o lado.

Uma mulher na casa dos setenta contou-me que fazia o jantar para seis aos 12 anos quando a mãe trabalhava por turnos até tarde. “Tínhamos farinha, cebolas e o que quer que cultivássemos”, disse. “Aprendia-se a transformar quase nada em alguma coisa.”

E essa “alguma coisa” era muitas vezes um tacho ao lume do qual todos comiam. Sem refeições separadas, sem menus exigentes. A comida tinha uma história, uma estação, um custo.

Quando as crianças ajudam a cozinhar refeições a sério, aprendem mais do que uma receita. Absorvem matemática, tempo, planeamento e a verdade silenciosa de que a comida não aparece magicamente em embalagens.

Não precisamos de culpar ninguém por uma pizza congelada. A vida é agitada. Mas ensinar uma criança a fazer uma sopa simples ou a cozer pão básico transmite uma competência antiga que continua poderosa: alimentar-se a si e aos outros, mesmo quando as circunstâncias apertam.

5. Gerir dinheiro em moedas, notas e pequenos sacrifícios

Antes da banca online e dos pagamentos por aproximação, o dinheiro era peso no bolso e números num livro de contas em papel. Muitos idosos ganharam as primeiras moedas com pequenos trabalhos: distribuir jornais, tomar conta de crianças, trabalhar em campos ou lojas. Tinham de o contar, senti-lo, decidir se o gastavam num mimo ou se poupavam para algo maior.

Hoje, muitas crianças vêem o dinheiro como um número invisível num ecrã ligado a um cartão de plástico que parece nunca acabar.

Um carteiro reformado contou-me que o pai uma vez pôs três montes de moedas em cima da mesa: “Isto é para a renda, isto é para a comida, isto é o que sobra.” Em criança, viu como o monte do “que sobra” encolhia depressa. Essa lição de cozinha acompanhou-o a vida inteira.

Compare isso com muitos netos a comprarem créditos de jogos ou skins online com um só toque, sem nunca verem a nota por detrás desse clique.

Quando as crianças não lidam com dinheiro físico, perdem a sensação visceral de “isto é tudo o que tenho”. Fazer um orçamento torna-se um exercício abstracto da escola em vez de uma experiência vivida.

Há aqui uma frase de verdade nua: os números batem de forma diferente quando é você que tem de entregar a última nota amarrotada. Ensinar às crianças o valor de pequenas poupanças, compras adiadas e comparações simples (isto ou aquilo, não os dois) é uma herança silenciosa que não aparece em nenhum testamento.

6. Escrever cartas a sério e esperar por uma resposta

Muitos idosos cresceram num mundo em que distância significava selos, não mensagens instantâneas. Escreviam a primos, amigos por correspondência, namorados. Escolhiam as palavras, riscavam erros, decoravam margens. Depois esperavam - dias, às vezes semanas - por essa resposta.

Os nossos netos vivem num tempo em que as mensagens aparecem e desaparecem em segundos, muitas vezes sem pontuação, muitas vezes sem verdadeira atenção.

Um homem idoso guarda uma caixa de sapatos cheia de cartas da juventude. Tinta desbotada, folhas dobradas, envelopes antigos com carimbos da época da guerra. “Isto são os meus anos de adolescência”, disse, batendo na tampa. “A vossa geração tem os dela espalhados por telemóveis perdidos e contas encerradas.”

Uma carta exigia esforço e intenção. Sentava-se num sítio sossegado. Pensava-se na outra pessoa. Dava-se um pedaço do seu tempo que podia ser segurado na mão.

Ensinar uma criança a escrever uma carta verdadeira - um bilhete de aniversário para um avô, um cartão de agradecimento, um postal de uma viagem - abranda a mente de forma suave. E ensina que algumas conversas valem a pena guardar.

Nem tudo na vida precisa de ser arquivado. Ainda assim, algumas palavras merecem mais do que uma bolha passageira num ecrã. Passar este hábito não significa rejeitar a tecnologia. Significa dar à memória uma prateleira extra, tangível, onde pousar.

7. Aceitar pequenos riscos e aprender primeiros socorros básicos

Subir a árvores, cair de bicicletas, pequenas queimaduras por curiosidade a mais perto do fogão - muitos idosos lembram-se disto como capítulos normais da infância. Com as nódoas negras vinha o saber básico: como lavar uma escoriação, quando pôr um penso, quando sacudir a terra e seguir.

Hoje, muitas crianças crescem em ambientes cuidadosamente almofadados. Menos riscos, menos arranhões e, por vezes, menos instinto sobre o que fazer quando algo corre mesmo mal.

Uma enfermeira reformada contou-me que, em criança, sabia exactamente onde a família guardava o desinfectante e os panos limpos. Viu a mãe tratar dos irmãos e depois começou, em silêncio, a fazê-lo também. “Quando tinha 14 anos, conseguia acalmar um primo a chorar e tratar de um joelho sem chamar um adulto”, disse.

Muitas crianças modernas, quando lhes perguntam o que fazer perante uma hemorragia nasal ou um corte, respondem logo: “Chamar alguém.”

Isto não é romantizar ferimentos evitáveis. É reconhecer que a coragem física e os primeiros socorros básicos fizeram parte de crescer. Uma pequena lição em casa - onde está o kit, como limpar uma ferida, quando pedir ajuda - pode devolver alguma dessa competência perdida.

Às vezes, a frase mais tranquilizadora que uma criança pode dizer é: “Eu sei o que fazer primeiro, antes de o adulto chegar.”

8. Partilhar responsabilidades em casa, não apenas actividades

A maioria dos idosos não recebia dinheiro por ajudar em casa. Era simplesmente o que se fazia. Alimentar animais, estender roupa, levar irmãos mais novos à escola, varrer o chão, descascar legumes. As tarefas não eram quadros no frigorífico; eram peças da sobrevivência do dia-a-dia.

Os nossos netos têm muitas vezes as suas “tarefas”, mas por vezes são apresentadas como extras opcionais ou ligadas a recompensas, não como parte de um esforço partilhado.

Um avô de cinco lembra-se de chegar da escola e, automaticamente, encher baldes de carvão para o fogo da noite. “Ninguém me dizia”, diz ele. “Tinha de ser feito.” Quando os netos o visitam, nota que ajudam depressa com a sobremesa, mas raramente tocam no lava-loiça ou na vassoura sem que alguém peça.

A diferença é subtil mas real: de “ajudo quando me mandam” para “reparo e ajudo”.

Quando as crianças sentem que o seu contributo importa mesmo, a autoestima vem de mais do que notas ou troféus. Vêem-se como parte de algo maior do que o seu próprio horário.

Não precisamos de recriar a dureza de décadas passadas. Podemos, ainda assim, convidar as crianças a assumir pequenas responsabilidades reais - pôr a mesa todos os dias, ir connosco ver um vizinho idoso, regar plantas. Estes pequenos actos sussurram uma mensagem: tu pertences, e o que tu fazes muda as coisas.

9. Falar com os mais velhos - e ouvir respostas longas

Muitos dos idosos de hoje cresceram em casas multigeracionais ou bairros apertados onde havia pessoas mais velhas por todo o lado: nas escadas, nos bancos, às mesas do jantar. As crianças aprendiam a ouvir histórias longas, mesmo quando estavam um pouco aborrecidas. Apanhavam história de família, mexericos locais e algo mais difícil de descrever: um sentido de tempo que se estende para lá delas próprias.

Os nossos netos vivem muitas vezes em círculos mais rápidos e fragmentados. Visitas curtas, videochamadas rápidas, conversa de circunstância com adultos espremida entre notificações.

Uma mulher na casa dos oitenta disse-me que os seus momentos preferidos de infância eram as noites em que o avô fumava o cachimbo e “contava as mesmas histórias outra vez”. Na altura revirava os olhos, mas agora essas histórias são o único arquivo do passado da família.

Ela pergunta-se quem vai ouvir as suas próprias repetições. Quem vai saber, daqui a 40 anos, que músicas tocavam no seu casamento ou como cheirava a casa velha depois da chuva.

Quando as crianças aprendem a fazer perguntas reais aos mais velhos - “Do que tinhas medo na minha idade?” “Com o que sonhavas?” - abrem uma porta que nenhum algoritmo substitui. As conversas alongam-se. Os silêncios também.

Um dia, esses netos serão os idosos. O que receberam - ou não receberam - das pessoas mais velhas à sua volta moldará a forma como contarão as suas próprias histórias. E quais das competências do quotidiano de hoje soarão como ficção científica para os seus próprios netos, sentados numa mesa futura, a fazer scroll.

O que perdemos em silêncio quando estas 9 coisas desaparecem

Tomadas uma a uma, estas mudanças podem parecer pequenas. As crianças não andam tanto, não remendam tanto, não escrevem tantas cartas. A vida é mais segura de algumas formas, mais fácil de outras. Há razões por detrás de cada mudança: trânsito, pais ocupados, tecnologia, novos medos.

Mas, quando as juntamos, surge um padrão: menos autonomia, menos responsabilidades reais, menos tempo naquele meio-termo confuso onde se aprende a fazer, falhar e tentar outra vez.

Não se trata de culpar os pais ou glorificar “os bons velhos tempos”, que muitas vezes foram duros, injustos e exaustivos. Trata-se de fazer uma pergunta mais suave: que partes dessa infância antiga ainda valem a pena contrabandear para a vida dos nossos netos?

Talvez seja um regresso a casa a pé sem GPS. Uma carta verdadeira. Uma receita de família aprendida de cor. Uma pequena reparação feita em conjunto em vez de encomendar algo novo.

Isto não são grandes projectos educativos. São pequenos actos teimosos de transmissão. Maneiras de dizer aos nossos netos: “Tu vens de pessoas que sabiam desenrascar-se com pouco, que voltavam para casa sem mapa, que conseguiam ficar com uma história até ao fim.”

Algures entre o passado e o futuro, há espaço para uma nova infância que leve as duas coisas: ferramentas modernas e raízes antigas. E essa pergunta fica à espera de cada um de nós, da próxima vez que um idoso começar uma frase com: “No meu tempo…”

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Competências do quotidiano perdidas Andar sozinho, remendar, cozinhar, primeiros socorros básicos, cartas verdadeiras Ajuda os leitores a identificar práticas simples que vale a pena recuperar em casa
Mudança na responsabilidade De tarefas essenciais para ajudas opcionais baseadas em recompensas Oferece uma lente para repensar como as crianças participam na vida familiar
Ligação intergeracional Histórias e hábitos transmitidos (ou não) entre idosos e crianças Incentiva conversas mais profundas e actividades partilhadas entre idades

FAQ:

  • Pergunta 1 Estas competências “antigas” são mesmo úteis para crianças que crescem com tecnologia?
  • Pergunta 2 Como é que pais ocupados podem recuperar alguns destes hábitos sem se sentirem sobrecarregados?
  • Pergunta 3 A infância não é hoje mais segura do que era para os idosos actuais?
  • Pergunta 4 Qual é uma coisa simples que os avós podem começar a fazer de forma diferente já esta semana?
  • Pergunta 5 Como envolver uma criança relutante que prefere ecrãs a estas actividades?

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