No quadro de avisos do pequeno posto dos correios, a folha de papel parece quase inofensiva. «A partir de 8 de fevereiro, as pensões vão aumentar… mediante apresentação de certificado em falta.» As pessoas aproximam-se, semicerram os olhos, ajustam os óculos. Depois surge a mesma frase, sussurrada vezes sem conta na entrada apertada: «Que certificado agora?»
Lá dentro, um homem na casa dos setenta tira uma senha e senta-se com esforço. A pensão mal chega para a renda e o aquecimento. A ideia de mais alguns euros soa a milagre, até o funcionário explicar que o procedimento é apenas online. Ele abana a cabeça e solta uma gargalhada amarga.
Sai a murmurar a frase que se ouve por todo o lado nestes dias.
«Eles sabem que nós não temos acesso à internet.»
A partir de 8 de fevereiro, um aumento… mas só para os reformados “ligados”?
Visto de fora, o anúncio parece positivo: a partir de 8 de fevereiro, as pensões vão aumentar, finalmente acompanhando um pouco as contas da energia e o carrinho do supermercado. Para muitos reformados, essa data está assinalada a vermelho no calendário, ao lado de consultas médicas e aniversários dos netos.
Depois vem o pormenor que muda tudo. O aumento só será aplicado automaticamente a quem tiver o processo “completo”. Os restantes têm de enviar um certificado em falta, muitas vezes pela internet. Essa frase minúscula no fim da carta passa, de repente, a soar como uma armadilha. Não é um aumento para todos, mas um aumento para quem consegue orientar-se no labirinto digital.
Por todo o país, repete-se a mesma pequena cena. Uma viúva numa aldeia abre o envelope, lê a carta três vezes e continua sem perceber o que lhe pedem. O filho vive a 200 km e trabalha à noite. A junta de freguesia já não trata destes formulários.
Acaba por ir à biblioteca, onde um voluntário ajuda as pessoas “com a internet”. A sala está cheia. Um homem esqueceu-se da palavra-passe. Outro não tem endereço de e-mail. Uma mulher trouxe o documento de identificação errado. Os minutos transformam-se em horas. Quando as portas fecham, alguns saem descansados; outros saem com o papel ainda na mão, por enviar. O aumento parece mais uma corrida de obstáculos.
Por trás desta confusão está um mecanismo muito simples: os pagamentos automáticos só funcionam se a caixa de pensões tiver a certeza de que a pessoa está viva, na morada certa, com o estatuto certo. O famoso “certificado em falta” é muitas vezes uma prova de vida, um documento fiscal ou um comprovativo de residência que nunca foi carregado no processo digital.
Em teoria, o sistema é lógico. Na vida real, falha ao primeiro contacto com um computador com 15 anos, um telemóvel sem dados móveis ou uma visão fraca. A digitalização promete poupança e eficiência, mas cria silenciosamente um fosso entre quem está ligado e os outros. O aumento de 8 de fevereiro brilha como um farol. Muitos continuarão presos no escuro.
Como entregar o certificado em falta quando não se “nasceu com um smartphone na mão”
A primeira tábua de salvação é surpreendentemente simples: não ficar sozinho com a carta. Leia-a uma vez e depois leia-a em voz alta com alguém de confiança - um vizinho, uma sobrinha, o farmacêutico que pergunta sempre «então, como vai isso?». Às vezes, só ouvir as palavras torna o pedido mais claro.
Depois, identifique exatamente o que está em falta. A maioria das cartas menciona o nome do certificado e um prazo. Fotografe ou fotocopie a carta e os documentos que já tem. Junte tudo numa pasta simples ou num envelope, com o seu número de segurança social escrito em letras grandes na frente. Esse pequeno gesto cria ordem numa situação que parece caótica.
O segundo passo é encontrar um “ponto de apoio” onde ainda há um ser humano que lhe olha nos olhos. Muitas câmaras municipais, espaços sociais e associações têm agora balcões de apoio digital, muitas vezes uma ou duas vezes por semana. Chega com o seu envelope, alguém se senta ao seu lado e o formulário é preenchido no ecrã enquanto responde às perguntas.
Não há vergonha nenhuma em precisar disso. Todos já passámos por aquele momento em que um formulário online pede algo que não existe no nosso mundo. A verdadeira armadilha é fingir que se vai tratar “amanhã” e empurrar a carta para o fundo de uma gaveta. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Os prazos passam sem barulho e, com eles, perdem-se dezenas de euros por mês.
Às vezes, a chave é dizer em voz alta a frustração que toda a gente sente e ninguém nomeia.
«A minha pensão aumenta a 8 de fevereiro, mas só se lhes enviar um certificado… e pedem-me para o carregar num site que nem abre no meu telemóvel antigo. Eles sabem que nós não temos acesso à internet. Parece que estão a contar que a gente desista», suspira André, 79 anos, à espera numa paragem de autocarro para ir ao escritório da cidade mais próxima.
Para evitar que essa resignação se transforme em direitos perdidos, aqui ficam alguns aliados concretos a procurar por perto:
- Balcões locais de apoio digital em câmaras municipais, bibliotecas ou centros sociais, muitas vezes gratuitos e por marcação.
- Médicos de família, farmacêuticos ou funcionários dos correios que podem indicar o serviço certo em vez de apenas dizer “vá online”.
- Associações de reformados ou sindicatos de inquilinos que por vezes organizam sessões coletivas do tipo “pensões e contas online”.
- Serviços públicos de preenchimento/apoio, onde alguém preenche e envia o formulário por si, com o seu consentimento.
- Linhas telefónicas das caixas de pensões que, mediante pedido, podem enviar formulários em papel em vez de procedimentos exclusivamente online.
Um aumento que revela uma fratura mais profunda - e o que fazemos com isso agora
O que se está a passar à volta de 8 de fevereiro vai, discretamente, além de um simples aumento de pensão. De um lado, há quem veja entrar um valor um pouco maior sem mexer um dedo, porque o processo já está atualizado. Do outro, quem vê o aumento preso a um certificado em falta e a um site silencioso que bloqueia no pior momento. A diferença não é apenas administrativa. É social.
Por detrás de cada “processo incompleto”, há muitas vezes uma vida que mudou muito: uma viuvez, uma mudança de casa, anos de pequenos trabalhos, um divórcio, por vezes um exílio. O sistema pede provas claras, digitalizadas, bem organizadas, a pessoas cujo percurso está longe de ser linear. O procedimento digital comprime essas histórias em pequenas caixas. Algumas cabem. Outras transbordam.
Em muitas famílias, este inverno vai trazer uma conversa nova e estranhamente desconfortável. Filhos adultos vão descobrir a carta na cozinha de um dos pais, entre a fatura do aquecimento por pagar e a lista de compras da semana. Alguns vão assumir o controlo e resolver tudo no portátil em dez minutos. Outros vivem longe, já sobrecarregados, e sentirão uma culpa difusa.
Do lado dos reformados, o orgulho às vezes choca com a necessidade. Pedir ajuda para um formulário online pode parecer mais humilhante do que pedir ajuda para carregar sacos pesados. No entanto, uma coisa evita dor física; a outra corrói silenciosamente a estabilidade financeira. Entre as duas, muitos preferem arriscar perder dinheiro a admitir que se sentem perdidos diante de um ecrã.
Esta história não acaba a 8 de fevereiro quando as novas pensões forem pagas. Vai continuar com cada novo “certificado em falta”, cada reforma gerida “por defeito em digital”, cada reformado que decide, cansado, abdicar de um direito porque o caminho para lhe aceder é demasiado confuso. A pergunta que fica é simples, quase brutal:
Quem aceitamos deixar para trás em nome da modernidade?
Por trás das palavras técnicas - “desmaterialização”, “tratamento automatizado”, “conta online” - aparecem rostos reais: o avô que não se atreve a dizer que já não consegue ler letras pequenas no telemóvel, a vizinha que vendeu o computador há anos para pagar uma conta, a mulher que nunca aprendeu a escrever o nome num teclado. O aumento de 8 de fevereiro podia ser um pequeno fôlego. Para muitos, pode ser, em vez disso, a data em que sentiram verdadeiramente o quanto o mundo se afastou deles.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Verificar o que está em falta | Ler cuidadosamente a carta, anotar o nome do certificado pedido e o prazo, reunir os documentos numa pasta | Reduz o stress, evita pânico de última hora e papéis perdidos |
| Usar ajuda humana local | Câmaras municipais, bibliotecas, centros sociais, associações e linhas de apoio das caixas de pensões conseguem muitas vezes tratar ou contornar etapas só online | Dá acesso ao aumento mesmo sem internet ou competências digitais |
| Pedir alternativas em papel | Ao telefone ou ao balcão, pedir formulários por correio ou marcações em vez de procedimentos exclusivamente online | Reduz a sensação de exclusão e mantém o controlo do processo |
FAQ:
- Quem, exatamente, verá a pensão aumentar a partir de 8 de fevereiro? O aumento aplica-se aos reformados cujas pensões são elegíveis segundo as regras do último ajustamento e cujos processos são considerados “completos” pela sua caixa de pensões. Quem tiver um certificado em falta só sentirá o aumento quando a situação for atualizada.
- Que tipo de “certificado em falta” estão a pedir? Na maioria das vezes, é uma prova de vida, comprovativo de residência, documento de estado civil ou declaração ligada a impostos. A designação exata costuma estar escrita na carta, perto do número de referência.
- E se eu não tiver acesso à internet em casa? Pode deslocar-se a locais públicos com ligação e apoio, como câmaras municipais, bibliotecas, centros sociais ou associações que ajudam com procedimentos online. Pode também ligar para a sua caixa de pensões e pedir que lhe enviem um formulário em papel por correio.
- Há risco de eu perder o aumento para sempre se me atrasar? Na maioria dos casos, quando o certificado em falta é recebido e validado, o aumento é aplicado com retroativos a partir da data elegível. Mas os atrasos significam pagamentos mais tarde, por isso é melhor iniciar o processo rapidamente, mesmo com ajuda.
- Um familiar ou pessoa de confiança pode tratar disto por mim? Sim. Muitas caixas de pensões permitem que um terceiro ajude ou atue em seu nome, com o seu consentimento por escrito ou uma procuração específica. Leve o seu documento de identificação, o documento dessa pessoa e a carta, para que os seus direitos fiquem protegidos enquanto completam consigo (ou por si) os passos online.
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