A notícia caiu numa manhã cinzenta de fevereiro, mas a indignação que provocou foi tudo menos apagada. A partir de 8 de fevereiro, as pensões vão aumentar, disse o ministério, mas apenas para os reformados que entregarem um certificado em falta. Online, claro. Para quem tem computador, uma caixa de email organizada e uma ligação estável, é só mais um formulário. Para quem vive a quilómetros de um balcão público, semicerrar os olhos para um ecrã de um Nokia antigo, ou nunca teve endereço de email, parece um castigo embrulhado em burocracia.
Nas cozinhas pequenas e nas salas frias onde a notícia chega aos poucos pela televisão e pelos vizinhos, uma pergunta simples volta sempre.
Quem é que fica de fora desta vez?
“Se não clicar, não recebe”: quando o aumento da pensão passa a ser digital
No papel, a regra parece limpa e quase técnica. A partir de 8 de fevereiro, as pensões vão aumentar, mas apenas para quem enviar um certificado em falta, muitas vezes uma “prova de vida” ou dados pessoais atualizados, normalmente através de um portal online. A administração fala de segurança, controlo de fraude e procedimentos harmonizados. No terreno, as pessoas ouvem outra coisa: “Se não clicar, não recebe o aumento.”
A distância entre estes dois mundos fica, de repente, muito visível.
Ecrãs de um lado. Envelopes de papel do outro.
Pense-se na Rosa, 78 anos, que vive numa aldeia onde o autocarro passa duas vezes por dia - se o motorista lhe apetecer. A pensão mal chega para a renda, os medicamentos e um pouco de comida. Viu a notícia do aumento na televisão, sorriu, e depois sentiu os ombros a enrijecer quando a apresentadora acrescentou: “Apenas para quem entregar o certificado em falta online.”
A Rosa não tem computador. O telemóvel antigo faz chamadas e envia SMS, nada mais. O neto ajudava-a com “as coisas da internet”, mas emigrou. Na semana passada, tentou ligar para o serviço de pensões e esperou 47 minutos até a chamada cair.
À terceira tentativa, ficou apenas a olhar para o auscultador, como se a tivesse traído.
Por trás da história da Rosa existem milhares de outras. Os dados oficiais sobre o acesso digital entre reformados muitas vezes ficam escondidos em anexos, mas o padrão é claro: uma grande parte das pessoas com mais de 70 anos ou nunca usa a internet ou usa-a muito raramente. Para elas, cada “passo em frente” digital soa a um passo a descer uma escada sem corrimão.
A lógica da política é previsível: certificados online são mais baratos, mais rápidos e mais fáceis de processar. O que ninguém gosta de dizer em voz alta é que esta conveniência tem um custo escondido, pago em ansiedade e em euros perdidos por quem não consegue acompanhar o ritmo digital.
A administração diz que as regras são iguais para todos. A vida no terreno diz que o impacto não é.
Como os reformados tentam orientar-se num aumento de pensão trancado atrás de um ecrã
O primeiro reflexo, quando chega a carta ou a notícia na televisão, costuma ser o mesmo. Procura-se um par de mãos mais jovens. Uma filha, um vizinho, um amigo da paróquia. Alguém que escreva uma palavra-passe sem pensar e adivinhe onde está escondido o botão “seguinte”.
Para muitos reformados, a única estratégia realista é transformar o processo da pensão num pequeno trabalho de equipa. Uma pessoa lê a carta, outra entra no portal, uma terceira digitaliza ou fotografa o certificado. O gesto burocrático torna-se um ritual de família. Às vezes resulta. Outras vezes, o site bloqueia no passo três e ninguém sabe porquê.
Depois há as armadilhas clássicas. Email errado, palavra-passe expirada, um captcha que ninguém consegue ler, ou aquele famoso campo assinalado com uma estrela vermelha que fica por preencher porque ninguém percebe o que está a pedir. Estes pormenores parecem mínimos quando se passa o dia diante de um portátil. Tornam-se paredes quando as mãos tremem ligeiramente no teclado e cada página nova parece um exame.
Todos já passámos por isso: aquele momento em que um formulário simples consome uma tarde inteira.
Agora imagine que essa tarde é a chave para o dinheiro que paga o aquecimento.
“Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias”, suspira o Marc, 64 anos, que ajuda os pais com a papelada. “Acha que resolve em cinco minutos depois do jantar, e depois o site pede-lhe um código que foi enviado há três anos, para um email de que ninguém se lembra. O meu pai não pára de dizer: ‘Por que é que nos fazem isto nesta idade?’”
Verifique se existem canais alternativos
Alguns serviços de pensões ainda aceitam certificados por correio ou ao balcão, mas nem sempre o anunciam de forma clara.Peça apoio oficial, não apenas favores da família
Muitas câmaras municipais, bibliotecas e associações já têm “pontos de apoio digital” onde o pessoal orienta os reformados passo a passo.Mantenha uma pasta simples em papel
Todas as cartas, números de referência e palavras-passe numa folha, no mesmo sítio. Parece antiquado, mas acalma o caos.Esteja atento ao calendário, não apenas ao site
Os prazos são muitas vezes flexíveis se sinalizar a dificuldade cedo. O silêncio é o que costuma prejudicar mais.Faça-se ouvir localmente
Uma reclamação ao balcão, uma carta através de uma associação de seniores, uma história contada à imprensa local pode levar os serviços a reabrirem opções não digitais.
Entre a raiva e a adaptação: o que esta história das pensões diz sobre nós
Este aumento da pensão condicionado a um certificado online é mais do que uma regra técnica. É um retrato de uma sociedade que fala de “inclusão” enquanto, discretamente, empurra a vida quotidiana para plataformas e portais. Quem navega formulários no telemóvel sem esforço mal repara. Quem está na margem vê cada novo login como mais um lembrete de que o mundo não foi desenhado a pensar neles.
A indignação desde o anúncio não é só sobre dinheiro. É sobre dignidade. Sobre a sensação de estar a ser obrigado a provar, uma e outra vez, que merece aquilo por que já trabalhou uma vida inteira.
Alguns reformados vão adaptar-se, como sempre. Vão aprender, pedir ajuda, fazer fila em balcões sobrecarregados. Outros vão desistir, convencidos de que o aumento “não é para pessoas como eu”. A tragédia é silenciosa, escondida nos extratos bancários e nas chávenas de café mais fracas no fim do mês.
As políticas falam de eficiência. As pessoas falam de medo, cansaço e vergonha quando não conseguem “fazer online”. Entre estas duas linguagens, muito dinheiro perder-se-á na tradução.
A questão agora não é apenas como enviar um certificado. É se aceitamos que direitos públicos possam ficar trancados atrás de um ecrã e de um reset de palavra-passe. Alguns vão ler isto e reconhecer os pais, os vizinhos, ou a si próprios daqui a uns anos. Outros poderão sentir um impulso súbito de se sentarem à mesa da cozinha este fim de semana e dizer: “Vamos ver essa carta juntos.”
Porque por detrás de cada certificado em falta e de cada aumento de pensão adiado, há uma pessoa que já pagou com o seu tempo, o seu trabalho e a sua saúde. O mínimo que lhes podemos oferecer é uma forma de reivindicarem o que lhes é devido sem sentirem que falharam um teste de informática.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Exigência de certificado apenas em formato digital | A partir de 8 de fevereiro, os aumentos das pensões aplicam-se apenas se for entregue um certificado em falta, sobretudo via portais online | Perceber por que razão alguns reformados arriscam perder dinheiro apesar de terem direito ao aumento |
| Estratégias concretas para lidar com a situação | Recorrer a ajuda da família, a balcões/pontos de apoio digital locais e a canais alternativos como correio ou atendimento presencial | Identificar formas práticas de ajudar a si próprio ou familiares a concluir o procedimento |
| Impacto social e emocional | Regras digitais amplificam a desigualdade entre reformados com e sem ligação/competências digitais | Ganhar perspetiva sobre o debate mais amplo em torno dos serviços públicos “digitais por defeito” |
FAQ:
- Pergunta 1 Quem é que, exatamente, precisa de entregar este certificado em falta para obter o aumento da pensão a partir de 8 de fevereiro?
- Pergunta 2 O que acontece se um reformado não conseguir aceder à internet ou usar o portal online a tempo?
- Pergunta 3 Há formas de enviar o certificado sem usar computador ou smartphone?
- Pergunta 4 Um familiar ou pessoa de confiança pode concluir o processo online em nome de um reformado?
- Pergunta 5 Onde podem os reformados encontrar apoio local gratuito para lidar com estes novos procedimentos digitais das pensões?
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