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A psicologia explica o que revela sobre si sentir-se desconfortável ao partilhar boas notícias.

Mulher sorrindo, segurando o peito com uma mão, usa telemóvel na outra, assentada à mesa com flores, caderno e chávena.

O teu telemóvel acende. O e-mail que tens estado a atualizar há dias finalmente chegou. Conseguiste o emprego, a bolsa, o exame limpo, o “sim” pelo qual secretamente ansiavas.
O coração dá um salto, a vista fica um pouco turva, e sorris a meio, sozinho(a), na cozinha.

Depois acontece uma coisa estranha.
Abres as apps de mensagens, percorres os contactos e, de repente, os dedos ficam imóveis.
Começas a perguntar-te quem poderá sentir inveja, quem poderá achar que te estás a gabar, quem poderá estar a lutar em silêncio com exatamente aquilo que tu acabaste de receber.

Por isso, bloqueias o telemóvel.
Dizes a ti próprio(a): “Falo disso mais tarde, quando surgir naturalmente.”
E, assim, a tua boa notícia volta para dentro da caixa.

Porque é que algo tão positivo parece tão complicado de partilhar?

Porque é que partilhar alegria pode parecer estranhamente inseguro

Há um mito silencioso no ar: o de que as boas notícias são simples. Tu consegues, partilhas, as pessoas batem palmas e mandam emojis, e a história acaba ali.
A realidade é muito mais confusa.

Muitas pessoas sentem uma tensão subtil quando estão prestes a dizer: “Estou mesmo feliz com isto.”
O corpo contrai um pouco, a voz fica cautelosa, a frase vai sendo editada em tempo real: “Não é nada de especial, mas…” “Tive sorte, foi só isso…”

Os psicólogos chamam a isto vergonha antecipatória.
O medo de seres visto(a) com demasiada clareza na tua alegria.
Demasiado visível, demasiado confiante, demasiado.

Imagina a Emma, 32 anos, que acabou de ser promovida depois de anos a trabalhar para isso.
O primeiro impulso é ligar à irmã mais velha.

Só que a irmã foi despedida há três meses.
Então a Emma fica a olhar para a janela do chat: escreve, apaga, volta a escrever.
Acaba por enviar um neutro “Como estás?” em vez de “Consegui.”

Mais tarde, nessa noite, a fazer scroll nas redes sociais, vê outras pessoas a celebrar marcos com legendas longas e um sem-fim de parabéns.
Sente uma mistura de inveja e desconforto, a perguntar-se porque é que, para ela, partilhar parece perigoso quando, nos outros, parece tão fácil.
Não vê as pessoas como ela - as que deixam as suas vitórias na pasta de rascunhos da vida.

Do ponto de vista psicológico, ter dificuldade em partilhar boas notícias diz algo bastante específico sobre o teu mundo interior.
Muitas vezes, revela uma crença profunda: a de que a tua alegria pode custar algo a outra pessoa.

Alguns cresceram em famílias onde o sucesso gerava tensão.
Um irmão brilhar significava outro encolher, e assim aprendeste a baixar a luz para manter a paz.
Outros foram ensinados a acreditar que humildade era nunca falar do que corre bem, apenas do que precisa de ser “arranjado”.

Há também o medo de “azarar” as coisas - uma espécie de pensamento mágico: se falares, pode desaparecer.
Por baixo de tudo isto, repete-se uma mensagem silenciosa, em fundo: “A minha felicidade é arriscada. Mais seguro é mantê-la pequena.”

O que a tua relutância realmente revela sobre ti

Se sentes um nó no estômago quando estás prestes a partilhar uma boa notícia, a psicologia não lê isso como frieza ou ingratidão.
Pelo contrário.

Muitas vezes, aponta para um nível elevado de sensibilidade emocional.
Estás sintonizado(a) com as possíveis reações dos outros - talvez demasiado sintonizado(a).
O teu cérebro faz simulações silenciosas: “Se eu disser isto, vai doer? Vão comparar-se? Vão sentir-se para trás?”

Essa sensibilidade pode ser um dom.
Também pode tornar-se um sistema de autocensura que apaga, discretamente, a tua própria alegria da conversa.
Proteges os outros, mas abandonas uma parte de ti pelo caminho.

Há ainda outra camada: a tua relação com a autoestima.
Se, lá no fundo, sentes que os teus sucessos são acidentais ou imerecidos, partilhá-los parece expor uma fraude.

Podes pensar: “Vão perceber que eu não sou assim tão bom(boa)”, ou “E se falho logo a seguir a dizer isto em voz alta?”
É o síndrome do impostor a falar.
Ele não ataca só a vida profissional. Vai contigo para as amizades, os grupos de família, as conversas a dois.

Então a notícia fica vaga.
“O trabalho está bem.”
“Logo se vê.”
“Não há nada de novo, na verdade.”
Cada não-resposta é uma pequena forma de te manteres seguro(a), invisível, intocável.

A investigação da psicóloga Shelley Gable sobre “capitalização” mostra algo contraintuitivo: a forma como as pessoas reagem às tuas boas notícias está fortemente ligada à satisfação na relação e ao bem-estar mental.
As melhores respostas são as que ela chama de “ativo-construtivas”: presentes, curiosas, envolvidas.

Quando esperas o oposto - indiferença, minimização, ou uma mudança rápida de assunto - o teu cérebro prepara-se para a desilusão e recua antes de isso acontecer.
Por isso, não querer partilhar as tuas vitórias também pode significar isto: o teu passado ensinou-te que a alegria, muitas vezes, cai no vazio diante dos outros.

Aprendeste a celebrar sozinho(a) porque isso parecia emocionalmente mais seguro do que celebrar a dois e ser pouco celebrado(a).
Isto não é drama. É adaptação.

Como partilhar boas notícias sem sentires que te estás a gabar

Há uma forma de falar do que está a correr bem sem parecer que subiste a uma mesa com um megafone.
Começa por escolheres o teu público.

Pensa em três pessoas que, historicamente, reagiram com calor quando te aconteceu algo bom.
Não de forma perfeita - apenas calorosa o suficiente.
Estas são as tuas “pessoas seguras”.

Envia-lhes primeiro a notícia, em privado.
Podes até acrescentar uma frase que combine com a tua sensibilidade: “Tenho um bocado de vergonha de partilhar isto, mas estou mesmo orgulhoso(a) e queria contar-te.”
Tens direito a ser modesto(a) e feliz ao mesmo tempo.

Outro truque suave: partilha o processo, não apenas o resultado.
Em vez de atirares “Comprei um apartamento”, podes dizer: “Depois de meses de papelada e stress, hoje finalmente assinei e sinto-me aliviado(a).”

Isto muda o foco.
Não estás a dizer: “Vejam como eu sou incrível.”
Estás a dizer: “Isto foi um caminho, e estou contente por ter chegado até aqui.”

E não te obrigues a divulgar tudo.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias.
Podes manter algumas vitórias íntimas e, ainda assim, trabalhar para não te silenciares por completo.
O equilíbrio ganha à performance.

Há uma armadilha comum em que pessoas emocionalmente conscientes caem: só partilham boas notícias quando têm algo “igualmente difícil” para relatar.
Como se a alegria tivesse sempre de ser diluída pela luta para ser aceitável.

“Não tens de pedir desculpa por um momento luminoso na tua vida só porque outra pessoa está no escuro. O mundo consegue conter os dois ao mesmo tempo.”

Para ajudares o teu cérebro a tolerar ser visto(a) na tua alegria, podes manter uma pequena lista como esta:

  • Uma pequena vitória que vou partilhar esta semana (nem que seja com uma pessoa).
  • Uma pessoa que reage de uma forma que me faz sentir seguro(a).
  • Uma frase que vou usar quando sentir que me estou a gabar, como: “Estou a partilhar isto porque significa muito para mim.”
  • Um lembrete: A dor dos outros é real, e o meu direito a sentir-me feliz também.
  • Um limite: tenho o direito de parar de partilhar com pessoas que minimizam ou gozam constantemente com a minha alegria.

Deixares-te ser visto(a) na tua alegria

Sentires desconforto ao partilhar boas notícias não significa que estás “estragado(a)” ou que és ingrato(a).
Muitas vezes, é sinal de que te importas profundamente com os outros, de que o teu sistema nervoso se lembra de antigas desilusões, e de que a tua autoestima ainda está em construção.

O trabalho não é transformares-te em alguém que grita cada sucesso de cada telhado.
O trabalho é ires, devagar, desfazendo o reflexo que diz: “Esconde as tuas partes boas; são perigosas.”
Às vezes, isso começa com uma frase pequena enviada à pessoa certa, numa terça-feira qualquer.

Podes notar algo subtil quando praticares isto.
Quanto mais te permites dizer a tua alegria, mais genuinamente consegues celebrar a dos outros também.
Porque já não estás preso(a) ao cálculo silencioso de quem “tem permissão” para ser feliz.

Da próxima vez que uma boa notícia te cair nas mãos, pára.
Antes de a engolires de volta, pergunta a ti próprio(a): que história sobre o meu valor - e sobre as outras pessoas - é que estou a repetir agora mesmo?
E haverá uma pessoa, só uma, que consiga segurar esta alegria comigo por um momento, sem eu ter de encolher para lhe facilitar?

Ponto-chave Detalhe Valor para o(a) leitor(a)
O desconforto sinaliza sensibilidade A relutância em partilhar boas notícias muitas vezes reflete empatia e medo de magoar os outros Alivia a autoculpa e reformula o traço como uma força que precisa de limites
Reações passadas moldam hábitos atuais Respostas frias, invejosas ou minimizadoras no passado treinam-te a celebrar sozinho(a) Ajuda-te a perceber de onde vem o reflexo e que é aprendido, não “fixo”
Pequenas experiências seguras ajudam Escolher “pessoas seguras” e partilhar o processo, não só os resultados Dá formas práticas de falar da alegria sem sentires que te estás a gabar

FAQ:

  • Porque é que me sinto culpado(a) quando partilho boas notícias? A culpa costuma vir da crença de que a tua felicidade magoa os outros ou lhes tira alguma coisa. Normalmente, isto tem raízes em dinâmicas familiares, reações passadas, ou num forte sentido de empatia que se transformou em autoapagamento.
  • Isto significa que tenho baixa autoestima? Nem sempre, mas pode estar ligado. Se tens dificuldade em sentir que mereces coisas boas, dizê-las em voz alta pode parecer expor uma mentira. Trabalhar a autoestima costuma tornar mais fácil falar das tuas vitórias sem te encolheres.
  • Como é que partilho boas notícias com alguém que está a passar dificuldades? Sê honesto(a) e gentil. Podes dizer: “Quero partilhar uma coisa de que estou feliz e também sei que estás a passar uma fase difícil. Se não for um bom momento, diz-me.” Isso mostra respeito sem apagares a tua alegria.
  • E se as pessoas reagirem mal ou minimizarem a minha notícia? Essa reação diz muito mais sobre o mundo interior delas do que sobre o teu valor. Tens o direito de limitar o que partilhas com quem responde consistentemente com inveja, gozo ou indiferença.
  • A terapia pode ajudar com este problema específico? Sim. Terapeutas trabalham frequentemente padrões ligados a visibilidade, vergonha e autoestima. Falar do teu desconforto pode ajudar-te a desfazer mensagens familiares, ansiedade social e reações passadas dolorosas, para que possas partilhar com mais liberdade e ainda assim sentires-te seguro(a).

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