A casa está finalmente silenciosa. O portátil fechado, as notificações desligadas, a loiça arrumada. Senta-se no sofá, uma rara ilha de calma num dia barulhento. Durante alguns segundos, sabe bem. Depois, quase de imediato, algo dentro de si começa a incomodar. A perna começa a tremer. A mão estende-se para o telemóvel sem pensar. Uma tensão estranha sobe-lhe ao peito, como se se tivesse esquecido de algo urgente. Não se passa nada, e no entanto o seu corpo reage como se o silêncio, por si só, fosse uma ameaça. Devia estar relaxado/a. Em vez disso, sente-se vagamente encurralado/a.
A calma parece mais alta do que qualquer ruído.
Quando a paz não parece paz
Os psicólogos estão a ver isto cada vez mais: pessoas que anseiam por descanso, mas não o conseguem suportar quando ele finalmente chega. Funcionam perfeitamente a 120 km/h e, depois, entram em desconforto no momento em que a velocidade baixa. O silêncio expõe uma espécie de estática interior. O cérebro, treinado para saltar de notificação em notificação, não sabe onde aterrar quando nada acontece. Por isso, dispara alarmes. “Faz alguma coisa.” “Verifica alguma coisa.” “Resolve alguma coisa.” Essa inquietação não é aleatória. Tem raízes.
Imagine uma mulher chamada Laura. Passa o dia a alternar entre chamadas no Zoom, Slack, WhatsApp, entregas à porta, roupa entre reuniões e um podcast a tocar em fundo. O smartwatch dá-lhe os parabéns por “fechar os anéis”. Às 22h, desliga tudo e deita-se. De repente, a mente atira-lhe imagens que não teve tempo de processar: uma conversa tensa com o chefe, a saúde da mãe, a fatura de impostos por pagar. O coração acelera. Pega no telemóvel “só por um segundo” e cai num scroll de 40 minutos. Esse scroll não é preguiça. É automedicação contra o desconforto da calma.
A psicologia chama a este padrão “evitamento experiencial” ou “medo da quietude”. Para alguns, a baixa estimulação parece insegura porque o sistema nervoso foi moldado em torno de um estado constante de alerta. Crianças que cresceram em casas caóticas aprenderam muitas vezes que o silêncio significava “vai acontecer alguma coisa má”. Adultos, inundados de dopamina digital o dia inteiro, sentem abstinência quando a novidade baixa. O resultado é o mesmo: a calma ativa o sistema de perigo do corpo. Não porque haja algo errado lá fora, mas porque cá dentro se esqueceu do que é o descanso genuíno. A calma traz à tona tudo o que o ruído estava a manter por baixo da superfície.
Como treinar a mente para tolerar a calma
Um exercício simples, mas poderoso, usado por terapeutas chama-se “micro-pausas”. Em vez de se obrigar a uma meditação de 30 minutos que secretamente teme, pratica pequenas doses de calma ao longo do dia. Dez segundos depois de fechar um separador, antes de abrir outro. Duas respirações lentas enquanto a máquina de café trabalha. Um minuto a olhar pela janela antes de responder a uma mensagem. O objetivo não é uma iluminação profunda. É mostrar ao seu sistema nervoso que não acontece nada de terrível quando o mundo pára por um momento.
A maior armadilha é tratar a calma como mais uma tarefa para executar na perfeição. As pessoas dizem: “Tentei relaxar, não resultou, fiquei ansioso/a, por isso falhei.” Isso não é falhar; isso é literalmente o processo. A inquietação é a primeira camada que aparece quando o ruído baixa. Em vez de lutar contra ela, pode ficar curioso/a: “O que é que o meu corpo me está a dizer agora?” Talvez esteja cansado/a. Talvez esteja só. Talvez carregue três anos de luto adiado. Seja gentil consigo. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, sem falhar. O ponto não é a perfeição; é a direção.
O psicólogo e especialista em trauma Bessel van der Kolk escreveu:
“O corpo guarda a pontuação e não vai deixar de falar só porque estamos ocupados.”
Se se sente inquieto/a quando as coisas ficam silenciosas, não está “estragado/a”; está a reagir a uma velha partitura interna. Pode começar a reescrevê-la com movimentos pequenos e concretos:
- Reduza a estimulação de forma gradual (volume mais baixo, ecrã menos brilhante, menos separadores).
- Fixe a atenção numa sensação física, como os pés no chão.
- Dê à mente um “trabalho” simples na calma: contar respirações, sons ou cores.
- Espere algum desconforto e veja-o como um sinal de que o seu sistema está a descontrair.
- Pare no momento antes de ficar avassalador e volte a tentar amanhã.
Esses passos parecem quase básicos demais. São exatamente o tipo de bases que a maioria de nós nunca aprendeu.
Viver com a calma em vez de fugir dela
Há algo discretamente radical em aprender a ficar num momento de paz sem fugir para o ruído. Não significa adorar o silêncio o tempo todo. Não significa meditar no topo de uma montanha ou abandonar as redes sociais para sempre. Parece mais ser capaz de se sentar na cozinha depois do jantar, ouvir o zumbido do frigorífico, sentir o peso do dia e não escapar imediatamente. Significa deixar que a calma seja ligeiramente desconfortável - e ainda assim ficar, só um pouco - como ficaria com um amigo que não fala muito, mas ainda assim quer a sua presença.
Algumas pessoas notam que, quando finalmente toleram a calma, coisas enterradas vêm ao de cima: arrependimentos, discussões por resolver, tristezas antigas. Isso pode assustar. Também pode ser o início de algo honesto. O sistema nervoso que antes precisava de ação permanente começa a aceitar que nem toda a pausa é perigosa. O ruído passa a ser uma escolha, não um escudo. Pode continuar a fazer maratonas de séries ou a fazer scroll até à meia-noite, claro. Só que agora sabe o que está a tentar acalmar quando o faz. E, às vezes, vai surpreender-se a desligar o ecrã e a ouvir apenas a sua própria respiração. Essa pequena decisão já é uma vida diferente.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| O desconforto na calma é aprendido | Ligado a caos passado, estimulação constante ou padrões de ansiedade | Reduz a auto-culpabilização e oferece uma lente psicológica clara |
| As micro-pausas reeducam o cérebro | Momentos curtos e repetidos de quietude reforçam a tolerância à calma | Torna a mudança exequível numa vida ocupada e barulhenta |
| O desconforto faz parte da cura | A inquietação sinaliza que o sistema está finalmente a processar tensão acumulada | Transforma o medo da calma num sinal de progresso, não de falha |
FAQ:
- Pergunta 1 Porque é que me sinto mais ansioso/a à noite quando finalmente fica tudo silencioso?
- Pergunta 2 Precisar constantemente de ruído de fundo é sinal de um problema de saúde mental?
- Pergunta 3 As experiências de infância podem mesmo afetar a forma como lido com a calma em adulto/a?
- Pergunta 4 E se a meditação piorar a minha ansiedade em vez de a melhorar?
- Pergunta 5 Quando devo procurar ajuda profissional para este desconforto com a calma?
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