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A psicologia explica porque algumas pessoas se sentem mais calmas em crises do que na vida normal.

Mulher ajustando a torneira da cozinha com uma chave inglesa. Chá e telefone ao lado.

As sirenes começaram quando a Lena estava a empilhar canecas na cozinha do café. Num segundo estava a repassar mentalmente uma mensagem estúpida que tinha enviado na noite anterior; no seguinte, estava calmamente a dizer aos clientes para irem para a parte de trás, a trancar a porta, a contar as pessoas na sala. Sem mãos a tremer. Sem pensamentos a correr. A rapariga que passava vinte minutos a escolher uma sandes todos os dias ao almoço começou, de repente, a mover-se como um bombeiro num vídeo de treino.
Depois, quando tudo acabou e toda a gente estava em segurança, sentou-se numa caixa atrás do café e começou a tremer tanto que entornou a água.

Mais tarde, disse: “Eu não entendo. Porque é que estou mais calma quando há mesmo algo errado do que quando a vida está normal?”
A terapeuta quase sorriu.

Porque o cérebro tem a sua própria lógica estranha.

Porque é que algumas pessoas entram em “modo de crise” e, finalmente, ficam lúcidas

Observe qualquer grupo quando chegam más notícias. Duas pessoas entram em pânico, uma fica paralisada, outra começa a fazer piadas, e depois há aquela pessoa que, de repente, fica estranhamente precisa. É quem liga para os números de emergência, organiza quem fica onde, fala em frases curtas e firmes.
Nos dias normais, essas mesmas pessoas podem parecer inquietas, ansiosas, sempre a zumbir dentro dos próprios pensamentos. Reuniões longas esgotam-nas, conversa de circunstância parece uma tortura, e um domingo tranquilo pode parecer uma cela almofadada.
E, no entanto, no meio de uma emergência real, os ombros descem. A respiração abranda. Aparece uma calma estranha.

Veja-se o Malik, 32 anos, aquele tipo no seu escritório que está sempre a bater com a caneta e a verificar o telemóvel de três em três minutos. A vida do dia a dia sufoca-o: emails, tarefas a meio, pressão social e aquele medo vago de “não estar a fazer o suficiente”.
No ano passado, um colega desmaiou no open space. Enquanto a maioria ficou imóvel, foi o Malik que deu ordens, mandou alguém ir buscar açúcar, outra pessoa chamar uma ambulância, abriu espaço, verificou a respiração. Sem drama, sem voz a tremer.
Mais tarde, admitiu que se sentiu “melhor durante aqueles dez minutos do que em toda a semana anterior”. Não gostou da emergência, mas, pela primeira vez, o cérebro dele tinha um papel claro.

A psicologia descreve isto como uma espécie de “correspondência de estado” entre personalidade e ambiente. Para alguns sistemas nervosos, o stress constante e de baixa intensidade é uma tortura; já uma crise curta e bem definida pode parecer quase um alinhamento.
A situação, de repente, tem regras. Agir agora. Uma prioridade. Sem multitarefas, sem máscaras sociais, sem fingir que está tudo bem. O cérebro liberta hormonas de stress que afiam o foco, e o mundo torna-se, por momentos, simples: sobreviver, proteger, responder.
Depois, quando a crise termina, a vida volta às suas zonas cinzentas desarrumadas, com escolhas e “e se…” por todo o lado - e é aí que estas pessoas colapsam. Não por serem fracas, mas porque a normalidade é, para elas, o labirinto maior.

O que estes cérebros “calmos na crise” estão realmente a fazer

Uma peça-chave é a famosa resposta de luta-ou-fuga. Para algumas pessoas, a vida diária mantém o sistema nervoso a vibrar num estado meio ativado: nem totalmente calmo, nem realmente em perigo. É como ter um pé no travão e outro no acelerador. Exaustivo.
Quando surge uma crise a sério, o corpo finalmente compromete-se. O coração acelera por uma razão. A atenção estreita-se. O córtex pré-frontal - a parte que organiza e decide - muitas vezes entra em ação com uma clareza quase fria.
A sensação de “eu sei exatamente o que fazer” pode ser um alívio quando comparada com o stress vago e pegajoso das preocupações quotidianas que nunca acabam nem se resolvem.

Há também um ângulo de personalidade. Pessoas com valores elevados em traços como conscienciosidade ou capacidade de resolução de problemas tendem a sentir-se mais confortáveis quando há uma missão clara. Ponha-as numa sala com um problema real e elas ganham vida. Deixe-as numa situação com expectativas difusas e incerteza social e elas entram em espiral.
O trauma também pode ter um papel. Quem cresceu em casas instáveis, por vezes, aprendeu a manter-se hipervigilante e calmo quando a tensão subia. O corpo adaptou-se: passar despercebido, observar, organizar, reagir só quando necessário. Em adulto, este velho guião de sobrevivência pode ativar-se em crises, fazendo essas pessoas parecerem líderes naturais.
Por dentro, nem sempre estão “bem”. Estão, isso sim, muito, muito treinadas.

Há ainda outra camada: controlo. A vida diária confronta-nos com coisas que não conseguimos influenciar - a economia, o humor dos outros, sustos de saúde, azar aleatório. Essa impotência rói devagar.
Numa crise, paradoxalmente, o círculo de controlo encolhe e torna-se visível. Pode telefonar, pode mover alguém, pode fechar uma janela, pode falar. Tarefas claras silenciam o ruído. É por isso que algumas pessoas se sentem mais elas mesmas em emergências do que num jantar de família tranquilo.
Sejamos honestos: ninguém se sente realmente no controlo da “vida normal” todos os dias. Para alguns, a crise é o único momento em que essa ilusão de controlo finalmente regressa.

Como viver com um cérebro que gosta mais de crises do que de segundas-feiras

Se se reconhece nisto, não precisa de inventar caos para se sentir vivo. Há formas mais suaves de “alimentar” essa parte do seu cérebro sem esperar que aconteça algo mau.
Um método: criar mini-missões nos seus dias. Dê à mente um objetivo claro, com limite de tempo e resultado tangível. Trinta minutos para destralhar uma gaveta. Quinze minutos para planear as refeições desta semana. Uma hora para escrever aquele email constrangedor e depois desligar.
O truque é recriar a sensação de direção, sem o pano de fundo do desastre. O seu sistema nervoso relaxa quando sabe exatamente qual é o trabalho, agora.

Um erro comum é pensar que só é “útil em emergências” e depois, inconscientemente, procurá-las. Provocar discussões, apertar prazos, criar drama só para sentir aquele velho pico de foco.
Se esse golpe de clareza se tornou viciante, o seu sistema nervoso pode estar a funcionar em alerta máximo constante. A longo prazo, isso desgasta. O corpo paga a conta com fadiga, problemas de sono ou colapsos súbitos quando a adrenalina baixa.
Seja gentil consigo em vez de se julgar. Você não “nasceu errado”. Simplesmente aprendeu a brilhar em modo de sobrevivência - e agora está a aprender a brilhar também em terças-feiras normais.

“Algumas pessoas não são calmas porque lhes faltam emoções. São calmas porque o seu sistema já ensaiou o perigo mil vezes”, explica uma psicóloga clínica que trabalha com operacionais de emergência e sobreviventes de trauma.

  • Canalize a clareza da crise para desafios seguros
    Competições desportivas, projetos criativos intensos ou voluntariado em simulacros de emergência podem dar-lhe esse estado de foco sem perigo real.
  • Pratique “micro-decisões” em momentos calmos
    Treine o cérebro para lidar com escolhas aborrecidas do dia a dia limitando opções e definindo pequenos prazos.
  • Aprenda um ritual simples de ancoragem
    Uma pausa de três respirações, sentir os pés no chão e nomear cinco coisas que vê pode ajudá-lo a descer suavemente depois de um pico de stress.
  • Fale abertamente sobre este padrão
    Partilhar que fica mais calmo em crises pode reduzir a vergonha e ajudar as pessoas a compreenderem as suas reações.
  • Considere apoio de um terapeuta ou coach
    Especialmente se se sente vazio, inquieto ou estranhamente perdido quando a vida está “demasiado silenciosa”.

Quando a calma no caos diz algo mais profundo sobre a sua história

Há uma solidão estranha em ser a pessoa calma quando toda a gente à volta se está a desfazer. Por fora, as pessoas podem elogiá-lo: “És tão forte”, “Mantiveste a cabeça fria”, “Estaríamos todos perdidos sem ti”.
Por dentro, pode estar a pensar: “Porque é que só me sinto útil quando as coisas estão a correr mal?” ou “Porque é que a minha vida real parece mais difícil do que o pior dia no trabalho?”
Esse fosso entre a medalha por fora e a confusão por dentro pode ser pesado.

Às vezes, este padrão é um lembrete silencioso do que o seu sistema nervoso atravessou. Talvez tenha crescido a antecipar mudanças de humor de um dos pais. Talvez tenha passado anos a aprender a prever perigo no tom de voz de um parceiro. Talvez a emergência tenha sido emocional em vez de física - mas o seu corpo registou tudo na mesma.
Agora, em cada crise genuína, esse velho treino levanta-se e faz continência. Você protege os outros. Você gere. Você funciona.
A pergunta torna-se: quem cuida da parte de si que finalmente colapsa quando toda a gente vai para casa e as luzes se apagam?

A psicologia não o rotula como “estragado” por estar calmo no caos e perdido na calma. Apenas sugere: foi assim que o seu sistema aprendeu a sobreviver - e funcionou.
O novo capítulo passa por dar-se permissão para se sentir um pouco menos “útil” e um pouco mais humano quando as coisas estão tranquilas. Deixar o cérebro descobrir que manhãs lentas, conversas tontas e planos inacabados não são ameaças, mas espaços.
Pode ser a pessoa que age depressa quando os alarmes tocam e, ainda assim, aprender a respirar nessas longas tardes aborrecidas e seguras que antes o assustavam mais do que qualquer sirene.
Algumas histórias de resiliência não começam com “era uma vez”, mas com “eu fiz o melhor que pude quando toda a gente ficou paralisada”.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Correspondência de estado em crises Alguns cérebros sentem-se mais lúcidos quando existe um único objetivo urgente Alivia a vergonha de se sentir mais calmo em emergências do que no dia a dia
Controlo e clareza As crises reduzem escolhas e destacam ações concretas Ajuda a reenquadrar emergências como estruturadas, não apenas caóticas
Estratégias para o quotidiano Mini-missões, ancoragem, desafios seguros Oferece formas de encontrar foco sem precisar de desastres reais

FAQ:

  • Porque é que me sinto estranhamente calmo durante acidentes ou más notícias? O seu sistema nervoso pode estar “programado” para se comprometer com foco total quando há perigo real. A resposta de luta-ou-fuga afia a atenção, o que pode parecer mais calmo do que o stress vago dos dias normais.
  • Ser calmo em crises significa que sou emocionalmente frio? De modo nenhum. Muitas pessoas que funcionam bem em emergências sentem as emoções mais tarde, quando tudo está seguro. A calma é muitas vezes um estado protetor e organizado, não uma ausência de sentimento.
  • Porque é que “caio” tão a sério depois de tudo acabar? Depois de a adrenalina dissipar, o corpo precisa de recuperar. Fadiga, tremores, choro ou sensação de vazio são sinais comuns de que o seu sistema está a descer de alerta máximo.
  • Posso usar esta característica de forma saudável? Sim. Trabalhos ou papéis que exigem pensamento claro sob pressão - saúde, logística, ensino, gestão de projetos - podem beneficiar da sua clareza em crise, desde que também proteja o seu descanso.
  • Devo falar com um profissional sobre este padrão? Pode ajudar, especialmente se sentir que só tem valor em emergências, ou se períodos calmos lhe desencadeiam ansiedade ou vazio. Um terapeuta pode explorar as raízes e ajudá-lo a construir segurança fora das crises.

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