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A psicologia explica porque algumas pessoas têm dificuldade em aproveitar o presente.

Pessoa sentada à secretária com smartphone na mão, laptop ao lado, e janela com sol ao fundo.

O jantar estava perfeito no papel. Luzes quentes, música baixa, pratos ainda a fumegar no meio da mesa. E, no entanto, à tua frente, a tua amiga continua a espreitar o telemóvel, com o olhar a ficar turvo de poucos em poucos minutos. Alguém manda uma piada, as pessoas riem, os garfos tilintam. Ela sorri meio segundo tarde demais, como se estivesse a ver a própria vida com atraso.

Tu sabes que ela se importa. Ajudou a planear a noite, trouxe sobremesa, mandou mensagem “tão entusiasmada!” três vezes. E mesmo assim, uma parte dela está noutro sítio, já a preocupar-se com amanhã, a repetir uma conversa da semana passada, a varrer mentalmente tudo o que pode correr mal.

A noite está a acontecer, aqui mesmo.

A mente dela não.

Porque é que alguns cérebros se recusam a ficar no presente

Os psicólogos falam de “viagem mental no tempo” com uma mistura de admiração e preocupação. Os nossos cérebros saltam do passado para o futuro em segundos, ensaiando, corrigindo, prevendo. Esse talento ajudou os humanos a sobreviver, mas para alguns de nós, a máquina do tempo fica presa no avanço rápido.

Se és a pessoa que repete cada conversa no caminho para casa, conheces bem o filme. O café está quente na tua mão, a rua está luminosa, o cão de alguém está a olhar para ti… e, no entanto, por dentro, estás a quilómetros de distância, a reescrever ontem ou a catastrofizar a próxima semana.

O presente parece ruído de fundo.

O verdadeiro espectáculo está num ecrã privado que só tu consegues ver.

Pega no caso da Laura, 32 anos, que conseguiu o “emprego de sonho” e depois não conseguiu sentir uma única gota de alegria. Na primeira semana no novo escritório, os colegas deram-lhe os parabéns, os pais enviaram flores, o grupo do chat explodiu em emojis. Ela sorriu, abraçou toda a gente, publicou a actualização obrigatória no LinkedIn.

Por dentro, já estava a preocupar-se com avaliações de desempenho, possíveis despedimentos, se iria desiludir o chefe. Nessa mesma noite, ficou na cama a deslizar por anúncios de emprego, só para o caso. A promoção pela qual trabalhou durante anos transformou-se numa nova ameaça para gerir.

Um estudo de Harvard, de 2010, concluiu que a mente das pessoas divaga quase 47% do tempo. Os investigadores acrescentaram algo brutal: as pessoas eram menos felizes quando a mente divagava, independentemente do que estivessem a fazer.

A psicologia oferece várias explicações para esta incapacidade crónica de desfrutar do “agora”. Para alguns, é ansiedade: o cérebro está constantemente a procurar perigo, mesmo em momentos calmos, como um alarme de fumo que dispara por causa de uma torrada queimada. Para outros, é perfeccionismo e auto-crítica elevada, fazendo com que cada momento presente pareça um teste que podes falhar.

Há também aquilo a que os terapeutas chamam “valor condicional”: a velha crença de que só mereces descanso, prazer ou orgulho quando tudo estiver perfeito. Esse dia nunca chega, por isso o teu sistema nervoso nunca baixa a guarda.

O resultado é uma vida que parece bem por fora e se sente permanentemente adiada por dentro.

Pequenas mudanças psicológicas que reabrem o presente

Um método simples que os terapeutas usam chama-se “ancoragem aos sentidos”. Parece básico demais, quase infantil: repara em três coisas que consegues ver, duas coisas que consegues sentir, uma coisa que consegues ouvir. E, no entanto, este pequeno inventário puxa a tua atenção para fora dos pensamentos em espiral e de volta para o corpo.

Experimenta da próxima vez que o teu cérebro começar a acelerar na fila do supermercado. Repara no padrão das mosaicas. No peso do cesto no teu braço. No zumbido dos frigoríficos. Não vai apagar as tuas preocupações, mas cria um pequeno espaço entre ti e elas.

É nesse espaço que o presente volta a entrar de mansinho.

Outra mudança poderosa é renomear aquilo que a tua mente está a fazer. Em vez de “Estou ansioso”, tenta “O meu cérebro está outra vez a prever desastres” ou “A minha mente está a repetir a reunião”. Esta pequena distância muda a sensação de afundar para observar.

Os psicólogos chamam a isto “desfusão cognitiva”: ver os pensamentos como eventos mentais, não como verdades absolutas. Quando fazes isto, deixas de discutir com os teus pensamentos e começas a vê-los passar como nuvens. Algumas são estranhas, outras assustadoras, outras apenas aborrecidas.

Não tens de corrigir cada uma delas para dar uma dentada na tua sandes e, de facto, sentir o sabor.

O psicólogo Zindel Segal disse uma vez: “O hábito da mente é sair do momento presente. A competência é aprender a reparar nisso, sem julgamento, e regressar.”

  • Repara quando estás a fazer viagem mental no tempo (passado ou futuro).
  • Nomeia: “Estou a ensaiar”, “Estou a catastrofizar”, “Estou a reescrever a história”.
  • Ancora-te a um sentido: visão, som ou toque, durante apenas 10 segundos.
  • Regressa com suavidade ao que estavas a fazer, sem te culpares.
  • Repete isto ao longo do dia. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, sem falhar.

Isto não é sobre te tornares um robô zen que nunca se preocupa.

É sobre recuperar pequenas ilhas de presença num mar de ruído.

Viver com um cérebro que quer sempre estar noutro sítio

Algumas pessoas terão sempre um cérebro mais “orientado para o futuro”. Planeiam férias com meses de antecedência, consultam aplicações de meteorologia três vezes por dia, simulam mentalmente cada possível momento constrangedor antes de uma festa. Isso não precisa de ser curado. Há uma força escondida aí: visão antecipada, criatividade, capacidade de resolver problemas.

A verdadeira mudança acontece quando deixas de tratar a tua incapacidade de desfrutar plenamente do presente como uma falha moral. Muitas vezes é um sistema nervoso que aprendeu, cedo, que relaxar era perigoso. Que a alegria era seguida de caos. Que os bons momentos eram frágeis e podiam desaparecer num segundo.

Quando vês as coisas assim, o teu “scan” constante não é estupidez.

É lealdade a uma antiga estratégia de sobrevivência.

Os terapeutas convidam muitas vezes as pessoas a renegociar essa estratégia, devagar. Começa com micro-momentos: o primeiro gole de café, a sensação da água quente nas costas no duche, a luz do sol entre edifícios no caminho para o trabalho. Não te forces a ser “mindful o dia todo”. Isso só se transforma noutra performance.

Em vez disso, pensa nestes pequenos momentos como sinais de teste para o teu cérebro: “Olha, aconteceu algo bom e nada explodiu.” Com o tempo, o sistema de alarme aprende que o prazer não é automaticamente seguido de perda.

Às vezes, a coisa mais corajosa que podes fazer é permitires-te desfrutar de dez segundos de algo, sem te preparares para que acabe.

Há também uma espécie estranha de luto em aprender a viver no presente. Podes reparar em quanto da tua vida passaste noutro sítio, dentro da tua cabeça, a rascunhar e-mails imaginários e planos de emergência. Essa percepção pode doer. Também pode ser um ponto de viragem.

Podes começar a fazer perguntas mais silenciosas: Que momentos hoje é que eu perdi completamente? Quando é que senti, mesmo que por instantes, que eu estava mesmo ali? O que aconteceria se eu me desse 3% mais presença, e não 100%?

Isto não é um truque de produtividade. É uma relação com o tempo, com o teu próprio sistema nervoso, com as histórias que contas sobre o que “deverias” estar a fazer.

E talvez, da próxima vez que alguém se rir à mesa e tu te rires com essa pessoa, repares que, desta vez, chegaste a tempo.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Mente divagante Quase metade do nosso tempo acordados é passado fora do momento presente Normaliza a dificuldade e reduz a auto-culpa
Viagem no tempo ansiosa Cérebros presos no passado/futuro muitas vezes aprenderam cedo a procurar perigo Oferece uma explicação psicológica e compassiva
Âncoras simples Foco sensorial e renomear pensamentos criam pequenos bolsos de presença Dá ferramentas concretas e exequíveis no dia-a-dia

FAQ:

  • Porque é que me sinto culpado(a) quando tento relaxar? Muitas vezes isto vem de crenças antigas de que o descanso tem de ser merecido ou de que algo mau se segue a momentos bons. Os psicólogos chamam a isto valor condicional, e pode ser desaprendido com tempo e prática gentil.
  • Pensar constantemente no futuro é sinal de ansiedade? Nem sempre, mas quando o pensamento sobre o futuro está cheio de desastres “e se…” e te impede de desfrutar da vida quotidiana, muitas vezes sobrepõe-se a padrões de ansiedade ou preocupação generalizada.
  • O mindfulness pode mesmo ajudar se a minha mente nunca se cala? Mindfulness não significa não ter pensamentos. Significa reparar nos pensamentos sem agarrar cada um deles. Até 30 segundos de foco sensorial, repetidos com frequência, podem lentamente mudar o quão reactivo o teu cérebro se sente.
  • E se eu ficar aborrecido(a) quando tento estar presente? O aborrecimento é comum no início porque estás habituado(a) a estimulação constante. Ficar com esse aborrecimento por um bocado é como construir um músculo novo; fica mais fácil e muitas vezes revela formas mais silenciosas de prazer.
  • Devo procurar um terapeuta se não consigo desfrutar do presente? Se a tua preocupação ou viagem mental no tempo afecta o sono, as relações ou o trabalho, falar com um terapeuta pode ajudar. Abordagens como TCC (CBT), ACT, ou terapia informada pelo trauma são especialmente úteis para este padrão.

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