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A regra dos 19°C acabou; veja o que os especialistas recomendam agora para o aquecimento.

Pessoa ajusta termostato na parede de um quarto bem iluminado.

A regra dos 19°C pertence a outra era

Os 19°C popularizaram-se mais por poupança do que por “ciência do conforto”: ganharam força nas crises do petróleo dos anos 1970, quando o objetivo era travar consumos em casas pouco isoladas, com muitas infiltrações de ar e aquecimentos pouco eficientes.

Hoje, muita coisa mudou (embora nem todas as casas em Portugal estejam bem preparadas): janelas duplas, isolamento em coberturas, bombas de calor, piso radiante e controlo digital. E, sobretudo, mudaram os hábitos: mais horas em casa, mais trabalho sedentário e mais divisões com usos diferentes.

Uma única temperatura “ideal” já não faz sentido quando conforto e perdas de calor variam muito de divisão para divisão.

Insistir dogmaticamente nos 19°C pode ter um efeito perverso: desconforto na sala (onde se está parado) e depois “remendos” ineficientes - aquecedores elétricos portáteis, radiadores tapados por estendais, ou janelas abertas para “aliviar” uma zona que sobreaqueceu enquanto outras ficaram frias.

Porque é que os 20°C estão a tornar-se a nova referência

Em muitas recomendações europeias de energia e conforto, 20°C nas zonas de estar aparece como uma referência mais realista do que 19°C - não como uma regra rígida.

A 20°C, a maioria das pessoas sente-se mais confortável em atividades sedentárias (ler, TV, portátil). Um único grau parece pouco, mas muitas pessoas sentem a diferença quando estão imóveis durante horas.

O número no termóstato não é tudo. Dois fatores que mudam muito a sensação:

  • Correntes de ar: infiltrações fazem 19–20°C parecerem “cortantes”.
  • Humidade: em geral, uma humidade relativa na ordem dos 40–60% é mais confortável; ar muito seco pode aumentar a sensação de frio, e ar húmido favorece condensação.

Para muitas famílias, 20°C na sala equilibra melhor conforto, saúde e controlo de consumo - desde que o resto da casa não seja aquecido sem necessidade.

Há ainda a “saúde” do edifício: manter a casa demasiado fria por longos períodos aumenta o risco de condensação (especialmente em vidros, cantos e paredes frias). Condensação repetida é terreno fértil para bolor, típico atrás de móveis encostados a paredes exteriores e em zonas com pouca circulação de ar. Uma temperatura um pouco mais estável, mais ventilação e menos humidade acumulada ajudam a reduzir esse risco.

O fim de uma só temperatura para toda a casa

Em vez de procurar “a” temperatura certa para a casa inteira, faz mais sentido trabalhar por divisão e por horários: aquecer bem onde se vive, menos onde se circula, e apenas quando faz falta.

Temperaturas recomendadas por divisão

Divisão Intervalo recomendado Principal benefício
Sala / escritório em casa 20°C Conforto para atividades sedentárias
Quartos 16–18°C Melhor qualidade do sono
Casa de banho Cerca de 22°C quando em uso Menos choque térmico ao tomar banho
Entradas e corredores Cerca de 17°C Limita perdas de calor, poupando energia

A lógica é simples: salas e open spaces (sala/cozinha) costumam concentrar mais horas acordadas e mais tempo parado - faz sentido apontar para 20°C aí. Nos quartos, ar mais fresco costuma ajudar a dormir; muitas pessoas descansam melhor abaixo de 19°C, desde que a cama esteja bem equipada (edredão adequado) e não haja humidade.

A casa de banho é a exceção: 22°C apenas durante a utilização evita o choque ao sair do duche, mas aquecer esse espaço o dia todo raramente compensa.

Pense na casa como microclimas: conforto onde precisa, poupança onde não precisa.

Regra prática útil: se uma divisão está sempre “fria” mesmo com aquecimento, muitas vezes o problema é infiltração de ar, falta de isolamento local ou radiadores mal dimensionados/obstruídos, não “falta de graus”.

Como a tecnologia de aquecimento inteligente muda as regras

A estratégia divisão a divisão tornou-se viável porque o controlo evoluiu. Antes, um termóstato num corredor “mandava” em tudo. Hoje, com termóstatos programáveis e válvulas termostáticas (muitas já inteligentes), dá para ajustar por zona e por hora.

  • Termóstatos digitais permitem horários (ex.: sala só ao fim da tarde).
  • Válvulas termostáticas ajudam a não aquecer quartos vazios.
  • Apps e contadores mostram padrões de consumo e picos.

Alguns fabricantes apontam poupanças até ~15% com boa programação, mas isso depende muito do tipo de casa e do comportamento. E a conta não é linear: como regra de bolso, +1°C pode aumentar o consumo em cerca de 6–10%, mas o efeito real varia com isolamento, tipo de sistema e clima.

Um detalhe que muita gente ignora: “poupar” aquecendo pouco e depois compensar com um aquecedor portátil pode sair caro. Um aquecedor elétrico de 2 kW ligado 3 horas consome 6 kWh numa noite - e isso nota-se rapidamente na fatura.

Em resumo: uma casa ligeiramente mais quente na divisão certa, mas bem controlada, pode custar menos do que uma casa mais fria gerida em “tudo ou nada”.

Equilibrar faturas de energia, conforto e metas climáticas

Definir 20°C como referência na sala não é transformar a casa numa sauna. É evitar extremos: nem frio persistente (com riscos e remendos caros), nem 22–23°C constantes em toda a casa.

Ajustes que costumam dar resultado sem complicar:

  • Descer à noite nas zonas de estar e manter quartos frescos, mas sem “gelar” a casa.
  • Reduzir em divisões sem uso (fechar portas ajuda), em vez de baixar tudo.
  • Programar a casa de banho para aquecer pouco tempo antes de ser usada.
  • Preferir estabilidade moderada a oscilações grandes (aquecimentos “aos solavancos” tendem a ser menos confortáveis).

Pequenas melhorias no “invólucro” muitas vezes valem mais do que mexer no termóstato:

  • Vedação de frestas em janelas/portas e caixas de estore.
  • Cortinas mais pesadas à noite (sem tapar radiadores).
  • Painel refletor atrás de radiadores em paredes exteriores, quando faz sentido.

Erros comuns: secar roupa em cima de radiadores (bloqueia calor para a divisão e aumenta humidade), encostar móveis grandes a paredes frias (cria zonas propícias a bolor) e aquecer corredores “porque sim”.

O que “conforto térmico” realmente significa

Conforto térmico não é só “graus”. É a soma de:

  • temperatura do ar,
  • humidade,
  • correntes de ar,
  • temperatura das superfícies (paredes/janelas),
  • roupa e nível de atividade.

Exemplo típico: perto de uma janela fria, pode sentir desconforto mesmo a 20°C porque o corpo perde calor para essa superfície. Em casas com melhor isolamento e menos infiltrações, 20°C costuma “render” mais - parece mais quente com o mesmo valor no termóstato.

A atividade também pesa: quem cozinha ou limpa tolera menos aquecimento; quem trabalha ao portátil precisa mais conforto ou mais roupa. Às vezes, a solução prática é melhorar o “microclima” (ex.: vedar uma janela que entra ar) em vez de subir 2°C na casa inteira.

Cenários reais: como é passar de 19°C para 20°C

Num apartamento médio, aquecido sobretudo ao fim da tarde e fins de semana, manter 19°C em toda a casa pode resultar em queixas na sala e uso frequente de aquecedor portátil à noite.

Uma abordagem mais eficaz costuma ser:

  • Sala a 20°C entre 17h e 22h (quando a casa é realmente usada).
  • Corredor a ~17°C.
  • Quartos a 16–17°C durante a noite.
  • Casa de banho a ~22°C apenas em dois períodos curtos (manhã e fim do dia).

Com isso, o sistema principal pode trabalhar um pouco mais na sala, mas menos no resto. E, se o aquecedor elétrico portátil deixar de ser necessário e se pararem as “aberturas de janela” para compensar sobreaquecimento local, o custo total pode ficar mais baixo do que a regra simplista do “+7% por grau” faria supor.

O ganho costuma vir mais de zonas + horários + menos desperdício do que do número exato (19 vs 20).

Riscos de aquecer pouco e de aquecer demais

Aquecer pouco durante semanas não é apenas desconforto. Em pessoas vulneráveis (idosos, bebés, doentes respiratórios), frio persistente pode ser um risco real. E casas frias e húmidas tendem a ter mais condensação e bolor, o que agrava problemas como asma e alergias.

No outro extremo, manter 22–23°C em toda a casa todo o inverno aumenta custos e emissões, sobretudo com sistemas a gás/gasóleo e em casas com perdas elevadas.

A orientação mais útil hoje é pragmática: um pouco mais quente nas zonas-chave (muitas vezes 20°C), mais fresco onde o calor é menos crítico, e controlo inteligente. A pergunta deixa de ser “Tenho de ficar nos 19°C?” e passa a ser: “Onde é que 20°C me dá conforto real - e onde posso baixar sem perder saúde nem bem-estar?”

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