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“Ao passar dos 60, os meus pés deixaram de se adaptar aos sapatos”: a mudança de que ninguém fala

Pessoa a medir o pé com fita métrica, sapatos de salto alto ao lado, sobre um chão de madeira clara.

O dia em que os meus mocassins preferidos me traíram, eu estava no corredor do supermercado, a olhar fixamente para as latas de tomate. O meu pé direito ardia, o dedo mindinho do pé esquerdo parecia preso numa porta, e os sapatos que eu usava há dez anos passaram, de repente, a parecer instrumentos de tortura. Eu não tinha engordado. Eu não tinha corrido uma maratona. Eu simplesmente tinha feito 60 anos há poucos meses.

Fui para casa descalça, sapatos na mão, como uma criança que perdeu uma aposta.

Nessa noite, alinhei todos os meus sapatos no corredor. Sapatos de salto para casamentos, sandálias de caminhada, sapatilhas, botas de inverno. Metade deles eu já não conseguia calçar sem fazer uma careta. Alguma coisa tinha mudado. Não nos sapatos. Em mim.

E ninguém me tinha avisado que, depois dos 60, os pés deixam de se adaptar aos sapatos. Agora, são os sapatos que têm de se adaptar.

Quando os teus pés mudam de forma em silêncio depois dos 60

O estranho é que esta mudança não acontece com drama. Não há um dia um, dia dois. É mais como: numa manhã, as tuas sapatilhas de sempre parecem “um bocado apertadas” e, um ano depois, estás a tirar as meias às 16h porque os dedos estão a implorar por misericórdia.

Dizes a ti própria que o couro deve ter encolhido, ou que aquela marca mudou as numerações. Culpas o calor do verão, as meias, teres andado demasiado. Tudo menos o óbvio: o teu pé já não é o mesmo pé que tinhas aos 45.

Os ossos alargam. O arco baixa um pouco. As almofadas de gordura debaixo do calcanhar afinam. O pé achata e alarga, quase invisivelmente, até que os sapatos a que te adaptaste durante décadas começam subitamente a parecer que te estão a castigar por envelheceres.

Conheci uma antiga diretora de escola, reformada, 68 anos, que sempre se orgulhara dos seus sapatos elegantes e estreitos, número 37. Contou-me o dia em que foi comprar um par novo “para conforto” e saiu da loja com uns de largura ampla, número 39. Chorou no carro, mais de choque do que de vaidade.

A história dela repete-se por todo o lado. Uma clínica de podologia em Paris relatou que mais de metade dos novos pacientes com mais de 60 anos chegam a usar sapatos pelo menos um número abaixo. Não porque gostem de sofrer. Porque continuam a comprar “o seu” número de há dez ou vinte anos.

Depois dos 60, os pés podem aumentar até meio número em comprimento e um número inteiro em largura. Ninguém escreve isso em cartões de aniversário.

Esta mudança é estrutural, não é apenas “ontem andei demasiado”. O colagénio perde elasticidade. Os ligamentos afrouxam. O arco que antes mantinha tudo firme vai relaxando e abrindo. Se tiveste gravidezes, trabalhos pesados em pé, ou anos de sapatos baratos, muitas vezes acontece mais depressa.

O corpo, muito calmamente, reorganiza-se. O problema é que o nosso guarda-roupa e a nossa identidade não acompanham. Mantemos pontos de referência antigos: “Sempre fui 38”, “Eu não sou do tipo de largura ampla”. Assim, apertamos um pé novo dentro de uma ideia velha.

A verdadeira viragem é esta: antes dos 60, o pé tende a moldar-se, tolerando alguma pressão. Depois dos 60, a tolerância baixa. O que antes era “um bocadinho apertado mas está bem” transforma-se em calo, joanete ou dor no joelho três meses depois. A conta chega tarde, mas chega.

Aprender a calçar os pés que tens agora

O primeiro gesto prático é quase infantil: volta a medir os pés. Os dois. Em pé, ao fim do dia, quando estão um pouco mais inchados. Usa uma régua ou uma folha de papel encostada à parede, contorna o pé e mede o comprimento e a largura.

Depois, faz a coisa proibida: ignora o número gravado na tua memória. Olha para o que a fita métrica diz hoje. Esse é o teu verdadeiro ponto de partida.

A partir daí, pensa em experimentar sapatos como experimentas óculos. Não discutes com o optometrista quando a visão muda. Aceitas a nova correção. Com os sapatos depois dos 60 é a mesma história, só que mais perto do chão. Não estás a trair a tua versão mais jovem por mudares de número. Estás a cuidar do corpo que te trouxe até aqui.

O erro mais frequente é a teimosia disfarçada de lealdade. Ficamos agarrados a um formato, a uma altura, a uma marca, quase como se mudar significasse admitir “estou a envelhecer”. O salto que parecia elegante aos 50 torna-se um inimigo silencioso aos 65, mas mantemo-lo porque parece fazer parte do nosso estilo.

Há também a ideia falsa de que conforto é sinónimo de “sapatos feios”. Então sofremos em mocassins rígidos, sabrinas estreitas, ou sapatos de bico fino para casamentos, e depois queixamo-nos de que andar é difícil “nesta idade”. Sejamos honestos: ninguém deita fora sapatos desconfortáveis assim que doem. Dizemos que vamos “amaciá-los”.

Depois dos 60, já não é tarefa do pé amaciar o sapato. É tarefa do sapato respeitar a nova geografia do pé.

“Depois dos 60, a pergunta não é ‘Que número calcei sempre?’ mas ‘Como é que os meus pés são e como se sentem este ano?’”, disse-me um podologista em Lyon. “As pessoas que envelhecem melhor são as que aceitam renegociar a relação com os seus sapatos.”

  • Escolhe gáspeas macias e flexíveis que cedam aos dedos em vez de os prender.
  • Procura uma biqueira mais larga para os dedos se poderem abrir, sobretudo se estiverem a surgir joanetes ou deformações.
  • Mantém um salto pequeno (2–3 cm) em vez de solas totalmente rasas, para apoiar o arco sem te projetar para a frente.
  • Experimenta os sapatos ao fim do dia e caminha pelo menos alguns minutos na loja, não apenas dois passos.
  • Alterna pares: um para caminhadas longas, um para casa, um para eventos, para os pontos de pressão mudarem regularmente.

Viver com pés em mudança sem encolher a vida

Por trás desta história de sapatos, há um medo mais silencioso: o medo de que, se andar se tornar doloroso, a vida comece a encolher. As saídas tornam-se mais raras. Mercados, museus, escapadinhas à cidade parecem “cansativas demais”. Aos poucos, o mundo fica mais pequeno porque cada passo custa mais.

Aceitar que os teus pés mudaram não é apenas um detalhe prático. É uma forma de proteger a tua liberdade de movimento. Mobilidade é dignidade, independência, espontaneidade. Um par de sapatos mal ajustado é como uma porta que se fecha sem avisar. Um bom par é como alguém que, discretamente, segura essa porta aberta por mais alguns anos.

A conversa que raramente temos é esta: envelhecer significa atualizar o nosso equipamento com a mesma regularidade com que fazemos check-ups. Óculos, aparelhos auditivos, colchões e, sim, sapatos. Não para ficar jovem. Para continuar a mexer-se.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Os pés mudam de forma depois dos 60 Os arcos relaxam, os pés alargam e por vezes alongam Ajuda a explicar o desconforto súbito e acaba com a autoculpabilização
O número antigo torna-se pouco fiável Voltar a medir os pés e experimentar modelos mais largos Reduz dor, bolhas e problemas articulares a longo prazo
Os sapatos afetam a independência Sapatos confortáveis e adaptados apoiam a marcha e o equilíbrio Protege a mobilidade, a vida social e a autonomia diária

FAQ:

  • Os pés continuam mesmo a “crescer” depois dos 60? Não “crescem” como na adolescência, mas podem alongar e alargar à medida que os ligamentos afrouxam e os arcos colapsam ligeiramente. Os ossos afastam-se, por isso a pegada fica maior mesmo que não tenhas ganho peso.
  • Devo deitar fora todos os meus sapatos antigos? Não. Começa pelos pares que doem ao fim de 30 minutos a andar. Guarda os que ainda se mantêm neutros ou confortáveis. Também podes usar palmilhas ou calcanheiras/ajustes no calcanhar em alguns pares antigos para os adaptar, em vez de substituir tudo de uma vez.
  • Sapatos de largura ampla são sempre a solução? Nem sempre. Algumas pessoas precisam de mais profundidade em vez de mais largura; outras precisam de materiais mais macios ou de saltos mais baixos. A largura ampla pode ajudar com joanetes e dedos apertados, mas o formato geral e a flexibilidade do sapato são igualmente importantes.
  • Que altura de salto posso usar depois dos 60? Um salto pequeno de 2–3 cm é muitas vezes melhor do que solas totalmente rasas. Acima de 4–5 cm, a pressão no antepé aumenta muito e o equilíbrio torna-se mais difícil; por isso, reserva saltos mais altos apenas para períodos muito curtos.
  • Quando devo consultar um podologista? Se tens dor persistente, calos novos, deformidades visíveis como joanetes, ou se começaste a evitar andar por causa dos pés, uma consulta de podologia pode mudar o teu dia a dia. Podem analisar a tua marcha, aconselhar sobre calçado e prescrever palmilhas personalizadas, se necessário.

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