A primeira vez que reparei mesmo nisso, estava em frente ao frigorífico aberto às 23h, enrolada no meu velho roupão azul. O meu 60.º aniversário tinha sido há alguns meses. A minha vida parecia a mesma. O meu apetite não.
Não estava propriamente com fome, mas também não estava propriamente saciada. Sentia apenas uma espécie de vazio a zumbir. Uma inquietação que parecia viver no estômago e na garganta ao mesmo tempo.
Havia meia peça de queijo, uma fatia de bolo, alguns iogurtes. Fiquei a olhar para tudo como se me fosse responder a uma pergunta que eu ainda não tinha percebido.
Dentro de mim, alguma coisa queria… outra coisa.
Só que eu não sabia o quê.
Quando a fome deixa de significar aquilo que pensamos
Por volta dos 60, o meu apetite começou a comportar-se como um estranho. As antigas referências foram-se perdendo. O pequeno-almoço nem sempre me apetecia. Em alguns dias, conseguia aguentar até às 15h com um café e uma bolacha e, de repente, assaltava a cozinha como um adolescente depois das aulas.
Os sinais eram confusos.
Às vezes, a minha boca queria comida, mas o meu corpo sentia-se pesado. Outras vezes, o meu estômago estava calmo e, no entanto, as minhas mãos iam automaticamente para a lata das bolachas assim que começava o telejornal.
Foi aí que comecei a fazer a mim própria uma pergunta simples: “Tenho fome no estômago, ou noutro sítio?”
Numa tarde, depois de uma discussão com o meu filho ao telefone, dei por mim em frente à tábua do pão. Fiz duas torradas, depois quatro, depois seis. Meio pacote de manteiga desapareceu sem eu ter realmente saboreado nada.
Meia hora depois, não me sentia confortada.
Sentia-me apenas cansada e ligeiramente enojada. O problema não tinha mexido um milímetro, mas a balança sim.
Uma semana depois, cenário diferente. Voltei de uma caminhada no parque, com as bochechas ruborizadas do frio. A mesma cozinha, o mesmo pão, a mesma manteiga. Desta vez, fiz uma única torrada, comi-a devagar e senti-me profundamente satisfeita. Nesse dia percebi: o contexto à volta do meu apetite mudava tudo. O pão era o mesmo. Eu não.
Comecei a ler, a ouvir, a fazer perguntas. Os médicos falavam de hormonas que mudam depois dos 50, de grelina e leptina, de um sono que se fragmenta e altera os sinais de fome. Os psicólogos falavam de “alimentação emocional”, de solidão que se disfarça de vontade de chocolate ou de batatas fritas crocantes.
Começou a fazer sentido. O meu apetite não estava “estragado”. Estava a tentar falar uma nova língua. Às vezes dizia: “Estou com poucos níveis de proteína.” Às vezes dizia: “Estou aborrecida.” Às vezes sussurrava: “Estou triste e não sei o que fazer com isso.”
Quando deixei de tratar todos os sinais como um pedido de comida, consegui começar a ouvir de outra forma. E isso mudou tudo em frente ao frigorífico.
Aprender a traduzir o que o corpo está realmente a pedir
O pequeno hábito que mais me ajudou é ridiculamente simples. Antes de comer, faço uma pausa. Dez segundos, não mais. Uma mão na barriga, uma frase na cabeça: “Que tipo de fome é esta?”
Faço uma checklist rápida. Estômago: sente-se mesmo vazio, quente, ligeiramente oco? Boca: estou a desejar um sabor específico - salgado, doce, crocante? Cabeça: há uma preocupação em loop, um silêncio mais pesado do que o habitual?
Se a fome está sobretudo na boca e na cabeça, não me proíbo de comer. Apenas digo a verdade a mim própria: “Isto é conforto, não combustível.” A comida deixa de ser piloto automático. Passa a ser uma escolha consciente.
A armadilha na nossa idade é ou ignorar completamente o apetite, ou tratá-lo como um inimigo. Algumas amigas oscilam entre dietas rígidas e um “desisto” total, consoante a semana. Outras aguentam o dia com dois cafés e depois perguntam-se porque é que comem o queijo inteiro em frente à televisão.
Todas já passámos por isso: aquele momento em que o pacote de bolachas está subitamente vazio e nem te lembras do sabor das últimas três.
Culpar-te não ajuda. O que ajuda é ficares curiosa. Dormiste mal esta noite? Quase não bebeste água durante a tarde? Falaste com alguém hoje ou foi só a rádio? Muitas vezes, o meu “apetite misterioso” era apenas sede, cansaço, ou a velha solidão disfarçada de vontade de doce.
Às vezes, ao fim do dia, quando a vontade de petiscar ficava muito alta, testei uma experiência estranha: não abria o armário. Abria o meu caderno. Escrevia a frase: “Neste momento o meu corpo está a pedir…” e terminava depressa, sem pensar muito.
As respostas surpreendiam-me. “Um abraço.” “Cinco minutos de silêncio.” “Um bom choro.” “Um banho quente.” Quase nunca: “Quatro bolachas.”
- Quando o meu corpo queria segurança, eu tendia a desejar comida quente e macia: puré, pão, chá doce. Aprendi também a oferecer-lhe uma chamada a uma amiga ou uma manta e um livro.
- Quando o meu corpo queria estímulo, as vontades eram crocantes e salgadas: batatas fritas, frutos secos, bolachas salgadas. Às vezes ajudava mais dar uma volta ao quarteirão ou ouvir um podcast que acordasse o cérebro.
- Quando o meu corpo queria descanso, eu não estava realmente com fome. Estava exausta. Ir para a cama 30 minutos mais cedo acalmava o meu apetite mais do que qualquer iogurte.
Dar ao apetite um novo lugar depois dos 60
Com o tempo, deixei de ver o meu apetite em mudança como um problema a resolver e comecei a tratá-lo como um quadro de mensagens. Em alguns dias, o recado dizia: “Come mais comida a sério.” Noutros, dizia: “Não te ris com ninguém há três dias.”
Comecei a planear um pouco as refeições - não como um programa rígido, mais como um gesto de carinho para com o meu “eu” do futuro. Pratos simples, ingredientes reais, alguma proteína em cada refeição, um pouco de cor. Quando essas bases existiam, as vontades selvagens e confusas acalmavam.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, sem falhar. Mas, nos dias em que conseguia, o frigorífico às 23h perdia muito do seu poder.
Também me permiti prazer verdadeiro. Um quadradinho de chocolate negro comido devagar na varanda. Uma fatia de bolo no aniversário da minha neta sem a habitual folha de cálculo mental das calorias.
O que mudou não foi a comida; foi o contrato. A comida deixou de ser a minha única resposta ao stress, ao aborrecimento ou à tristeza. Tornou-se uma ferramenta entre outras. Às vezes ainda como por emoção. Sou humana, não sou um robô.
Ainda assim, mais vezes agora, quando o apetite me confunde, paro e pergunto: “O que é que estás mesmo a pedir?” E, surpreendentemente, o meu corpo responde com clareza, se eu lhe der silêncio suficiente para falar.
À minha volta, amigas da mesma idade começam a identificar os seus próprios padrões. Uma sente “fome” sempre que fica sozinha ao domingo à noite. Outra tem desejos de açúcar que explodem nos dias em que falha a caminhada da tarde.
Isto não são falhanços. São pistas. Dizem-nos onde a vida aperta, onde algo precisa de ser recalibrado: sono, movimento, ligação, sentido.
Talvez esse seja um dos presentes secretos de passar os 60. O corpo deixa de sussurrar e começa a levantar a voz. O apetite passa a ser menos disciplina e mais diálogo. E a pergunta deixa de ser “Como é que me controlo?” e transforma-se em “Como é que ouço melhor?”
Afinal, não temos fome só de comida.
Temos fome de uma vida que ainda saiba a alguma coisa.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Diferentes tipos de fome | Distinguir fome física, emocional e sensorial com uma verificação de 10 segundos | Ajuda a reduzir a ingestão automática e a culpa |
| O contexto molda o apetite | Sono, solidão, stress e mudanças de rotina depois dos 60 alteram os sinais | Explica desejos “estranhos” e normaliza as mudanças do corpo |
| Pequenos rituais, grande impacto | Pausas, refeições simples e equilibradas, confortos alternativos (caminhada, chamada, diário) | Oferece ferramentas práticas em vez de dietas rígidas |
FAQ:
- O apetite diminui sempre depois dos 60? Não necessariamente. Algumas pessoas sentem menos fome; outras petiscam mais, sobretudo à noite. Hormonas, medicação, nível de atividade e emoções têm todos um papel. O essencial é notar o teu padrão pessoal, não encaixar num estereótipo.
- Como distinguir fome real de fome emocional? A fome física cresce gradualmente, sente-se no estômago e qualquer refeição a sério parece apelativa. A fome emocional aparece de repente, costuma estar ligada a um alimento específico e não desaparece facilmente depois de comer. Uma pausa curta e um copo de água muitas vezes esclarecem qual é qual.
- É mau comer por conforto nesta idade? Comer por conforto de vez em quando é humano. O problema começa quando a comida se torna a tua única forma de te acalmares. Acrescentar outros confortos - chamadas, caminhadas, hobbies - reduz a pressão sobre a comida sem proibir o prazer.
- Como deve ser uma “boa” refeição depois dos 60? Pensa em simplicidade: uma fonte de proteína (ovos, peixe, feijão, iogurte), alguns legumes ou fruta, um pouco de gordura de boa qualidade e algo saciante como cereais integrais ou batata. Não é preciso perfeição. Refeições regulares com comida a sério acalmam um apetite caótico.
- Quando devo falar com um médico sobre mudanças no apetite? Procura um profissional se perderes o apetite durante várias semanas, emagreceres sem querer, te sentires cheio muito depressa, ou se comer se tornar doloroso ou stressante. Mudanças súbitas ou extremas merecem atenção médica, não auto-culpa.
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