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“Aos 66 anos, o meu equilíbrio melhorou ao andar mais devagar”: ajuste no tempo de reflexos

Homem a caminhar num parque com balança e sapatos ao chão.

A primeira vez que reparei, estava em frente ao espelho da casa de banho, escova de dentes na mão, um pé a escorregar ligeiramente para trás do outro. O meu reflexo oscilou - só um pouco, mas tempo demais para ser confortável. Há dez anos teria corrigido sem pensar. Desta vez, o meu corpo reagiu como um computador lento com demasiados separadores abertos. Apoiei-me no lavatório, o coração aos pulos por um movimento tão pequeno que parecia quase ridículo.

A palavra que me ocorreu não foi “velho”. Foi “atrasado”. Os meus reflexos estavam atrasados.

A partir daí, comecei a observar como me movia. A rapidez com que saía do passeio para a estrada. A forma como me virava quando alguém chamava o meu nome. E, curiosamente, o dia em que decidi andar mais devagar foi o primeiro dia em que o meu equilíbrio, de facto, melhorou.

Passos mais lentos despertaram algo que eu achava que estava a perder.

Quando o corpo responde um compasso demasiado tarde

Depois dos 60, o equilíbrio deixa de ser uma definição em segundo plano e passa a ser um boletim meteorológico diário. Algumas manhãs são de sol: levanta-se, fica de pé, anda - sem drama. Noutras, parece que o chão inclina meio grau e o cérebro precisa de um segundo para acreditar que continua plano.

Esse “segundo” é toda a história. Aos 66, comecei a notar esse pequeno atraso entre o meu pé encontrar o chão e o meu cérebro registar o que estava a acontecer. Não era dramático. Nenhuma queda grande, nenhum tropeção espetacular no passeio.

Apenas um punhado de pequenas hesitações que antes não existiam.

Uma tarde, no supermercado, afastei-me para deixar uma criança passar a correr no corredor. Ele desviou-se no último instante. Eu não. O meu corpo tentou corrigir, mas a correção chegou depois de o meu peso já ter mudado demasiado. Agarrei-me à prateleira com um estrondo que fez virar todas as cabeças num raio de dez metros. Aqueles segundos longos e embaraçosos em que estranhos perguntam “Está tudo bem?” conseguem fazê-lo sentir-se mais velho do que qualquer aniversário.

Nessa noite fui pesquisar um número: uma em cada três pessoas com mais de 65 anos cai todos os anos. Ao lê-lo, não vi uma estatística. Vi-me junto àquelas prateleiras do supermercado, agarrado como se as latas de tomate fossem uma jangada.

O equilíbrio não é apenas uma questão de músculos ou de “ter cuidado”. É uma questão de tempo. Os olhos, o ouvido interno, os sensores de pressão nas solas dos pés, os recetores de estiramento nas pernas - todos enviam sinais para o cérebro. E o cérebro responde com uma pequena orquestra de microcorreções. Quando somos mais novos, tudo acontece tão depressa que mal damos por isso. Com a idade, essa conversa interna fica um pouco mais lenta, um pouco mais difusa nas bordas.

O que ninguém lhe diz é que pode renegociar o andamento. Em vez de forçar o corpo a mover-se à velocidade de ontem, pode mudar a música para dar tempo aos reflexos de acompanhar.

O poder silencioso de passos mais lentos

No dia em que o meu equilíbrio começou a mudar, eu não estava a fazer nada de especial. Ia a pé à padaria, o mesmo percurso que faço há vinte anos. Só que, desta vez, decidi tratá-lo como uma sessão de treino em vez de uma obrigação. Encurtei a passada. Baixei o ritmo meio ponto. Não foi um arrastar em câmara lenta - apenas uma caminhada deliberada em que cada passo tinha o seu momento.

Reparei no instante exato em que o calcanhar tocava no chão, na forma como o peso rolava ao longo do pé, no momento em que os dedos finalmente largavam. De repente, os meus reflexos tinham um compasso extra para se organizarem. Foi estranhamente luxuoso, como passar de Internet por linha telefónica para uma ligação silenciosa e estável.

Em menos de uma semana, aquelas oscilações “à la supermercado” começaram a diminuir. Ao atravessar a rua, deixei de avançar de imediato assim que o semáforo ficava verde. Assentava, transferia o peso e só depois avançava. O mundo não desabou por um carro ter de esperar mais um segundo. Nas escadas de casa, parei de fazer aquela meia-volta atrapalhada no primeiro degrau. Em vez disso, virava-me para a escada, colocava um pé, sentia o apoio e depois subia.

Todos já passámos por isso: aquele momento em que falha um degrau e o coração dispara mais depressa do que as pernas. Passos mais lentos não eliminaram esse risco por completo, mas afastaram-me do limite em que cada erro parece uma queda iminente.

Há uma explicação simples por trás desta mudança silenciosa. Quando se move depressa, dá menos tempo ao sistema nervoso para processar todas aquelas pequenas mensagens do equilíbrio. Cada passo torna-se uma pequena aposta. Quando se move um pouco mais devagar, não está a render-se à idade; está a dar aos seus reflexos uma hipótese real. Alarga a janela entre “algo mudou” e “já corrigi”.

É nessa janela que vive a segurança. E é também aí que a confiança volta. O meu equilíbrio não melhorou porque eu tenha ficado mais forte de um dia para o outro. Melhorou porque o meu tempo, finalmente, passou a coincidir com o novo ritmo do meu cérebro.

Treinar o tempo dos reflexos no dia a dia

Aqui está o método que me mudou as coisas: escolhi uma situação quotidiana e transformei-a num mini-laboratório. Para mim, foi o corredor entre o quarto e a cozinha. Dez passos lentos e silenciosos, duas vezes por dia. Não exageradamente lentos - apenas “um pouco mais lentos do que parece natural”. Mantinha os olhos num ponto no fim do corredor, deixava os braços soltos e ouvia o pequeno rolar do peso sob os pés.

Imaginei que cada passo tinha três fases: pousar, receber, libertar. Pousar o pé. Deixar o peso do corpo chegar por completo. Libertar o pé de trás apenas quando me sentia realmente estável. Esse ritmo de três tempos tornou-se um metrónomo que os meus reflexos conseguiam seguir.

A armadilha é pensar: “Vou andar devagar quando me lembrar” e depois esquecer-se antes do almoço. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias sem falhar. Eu também não. Algumas manhãs saía apressado, chaves numa mão, saco a escorregar da outra, a mexer-me como se ainda tivesse 40 anos e estivesse atrasado para uma reunião. Eram esses os dias em que a oscilação voltava.

O que ajudou foi escolher “zonas lentas” específicas: o corredor em casa, os primeiros dez metros fora da porta, os corredores do supermercado. Lugares onde quase nunca precisava de me apressar. Nos dias maus, dava-me permissão para usar o elevador em vez de subir teimosamente as escadas “para me manter em forma”.

Aos 66, deixei de perguntar “Quão depressa ainda consigo ir?” e comecei a perguntar “Com quanta calma consigo manter-me de pé?” Essa mudança simples transformou o equilíbrio de uma batalha numa conversa com o meu próprio corpo.

Para manter as coisas simples, acabei por ficar com um pequeno guia prático:

  • Escolha uma ou duas “zonas de caminhada lenta” diárias e mantenha-se fiel a elas.
  • Pense “pousar – receber – libertar” em cada passo, especialmente nas escadas.
  • Faça uma pausa de um segundo antes de virar rapidamente ou de se baixar.
  • Use móveis e paredes como aliados silenciosos, não como prova de fraqueza.
  • Repare nas pequenas melhorias, não apenas nos grandes sustos.

Quando o equilíbrio se torna uma nova linguagem

Viver com reflexos envelhecidos parece menos um declínio e mais a aprendizagem de uma nova linguagem de movimento. As reações rápidas e automáticas dos nossos trinta anos podem nunca voltar por completo - e está tudo bem. O que pode surgir no lugar delas é uma agilidade mais silenciosa e deliberada. Daquela que lhe permite descer do autocarro sem se agarrar ao varão como a uma âncora. Daquela que lhe permite ficar no duche em apoio numa perna durante três segundos só porque lhe apetece testar-se.

E há outra coisa que também regressa, lentamente, a cada passo cuidadoso: dignidade. A sensação de que o seu corpo continua a ser seu aliado, e não um objeto frágil que está sempre a tentar não deixar cair. Talvez a sua marcha fique um pouco mais medida, talvez saia de casa cinco minutos mais cedo e atravesse menos ruas no amarelo. Não está a desistir. Está a reescrever o tempo para continuar a mover-se no mundo nos seus próprios termos.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Passos mais lentos como estratégia Andar ligeiramente mais devagar dá ao cérebro milissegundos extra para processar os sinais do equilíbrio Reduz o risco de quedas e restaura a confiança nos movimentos do dia a dia
“Zonas lentas” do quotidiano Definir locais específicos (corredor, supermercado, escadas) para praticar caminhada deliberada Torna o treino do equilíbrio fácil de repetir, sem equipamento especial nem aulas
Ritmo do passo em três tempos Usar “pousar – receber – libertar” em cada passo Cria uma pista simples e memorável para sincronizar o tempo dos reflexos com o movimento

FAQ:

  • Pergunta 1 Pode caminhar mais devagar melhorar mesmo o equilíbrio aos 66, ou é apenas psicológico?
  • Pergunta 2 Quão devagar devo caminhar sem sentir que estou a arrastar os pés ou a chamar a atenção?
  • Pergunta 3 Preciso de exercícios especiais de equilíbrio, ou mudar a forma de caminhar é suficiente?
  • Pergunta 4 E se eu já tive uma queda e tenho medo de me mover mais devagar?
  • Pergunta 5 Quanto tempo demora até eu notar diferença na minha estabilidade e confiança?

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