A frigideira já estava quente quando percebi que o telemóvel tinha ficado na outra divisão. Sem temporizador, sem vídeo de receita em repetição, sem uma série a meio pousada na bancada. Só eu, uma colher de pau e o chiar constante de cebolas a ficarem brilhantes em azeite.
Eu devia estar a responder a e-mails, a mudar a roupa da máquina ou, pelo menos, a fazer scroll enquanto algo fervilhava. É assim que eu costumo cozinhar: meio presente, meio distraído, sempre com três separadores abertos na cabeça.
Nessa noite, fiz apenas uma coisa. Cozinhei este prato sem multitarefa e, inesperadamente, gostei de cada passo.
Soube a uma pequena rebeldia.
A noite em que escolhi uma frigideira em vez de dez separadores
A receita não tinha nada de grandioso. Uma massa simples de limão e alho, aquele tipo de prato que se faz numa terça-feira quando já se está farto de pizza congelada, mas ainda sem coragem para um guisado de três horas.
Cortei devagar, a ouvir o estalido da faca na tábua, o pequeno baque de cada dente de alho a cair numa pilha perfumada.
Sem vídeo a tocar, sem podcast a preencher o silêncio. Só o zumbido do frigorífico, o borbulhar suave da água com sal e o ruído distante da rua lá fora.
Pela primeira vez em muito tempo, a cozinha pareceu um sítio onde estar, não uma estação por onde passar.
A meio, houve um momento em que estendi a mão para o telemóvel por puro hábito. A mão pairou sobre a bancada, vazia.
Quase me ri de mim. Não havia nada urgente à espera, mas o meu cérebro tinha a certeza de que algo devia estar a acontecer noutro sítio.
Por isso, mexi antes as cebolas. Vi-as passarem de um branco agressivo para um dourado macio, deixando a doçura espalhar-se pela divisão.
Juntei o alho e o cheiro veio como uma onda quente. Essa pequena mudança - o instante em que o alho encontrou o azeite - voltou a parecer um acontecimento, e não ruído de fundo.
A água transbordou um pouco e eu só a limpei, sem pressa, sem irritação. Percebi que nem tinha olhado para o relógio uma única vez.
Muitos de nós tratam cozinhar como uma atividade secundária: preparar combustível enquanto a vida real acontece nos ecrãs.
Só que o nosso cérebro não foi feito para dividir a atenção sem fim e sem custo. Cada vez que saltamos da frigideira para uma notificação e para um pensamento sobre a reunião de amanhã, diluímos a experiência e cansamo-nos mais depressa.
Cozinhar com uma única tarefa vira o jogo.
Sente-se a sequência em vez de apenas a atravessar: saltear, deixar apurar, provar, ajustar. Os sentidos ficam mais altos.
A comida deixa de ser uma tarefa e, por momentos, torna-se uma história: ingredientes a chegar, a mudar, a combinar-se, a transformar-se em algo que fizemos com as nossas duas mãos e um pequeno bolso de tempo não partilhado.
O pequeno ritual que mudou o prato inteiro
Da próxima vez que cozinhei, fiz uma regra: um prato, um foco.
Antes sequer de ligar o fogão, arrumei a bancada e, quase de forma cerimonial, deixei o telemóvel noutra divisão.
Depois escolhi uma receita que sei de cor: legumes assados com iogurte de ervas e grão-de-bico estaladiço.
Pus tudo à minha frente. Cenouras, curgete, cebola roxa, um limão, uma lata de grão-de-bico, um raminho aleatório de alecrim que já tinha visto dias melhores.
Só alinhá-los já me abrandou a respiração. Pareceu menos “preparação” e mais montar um pequeno palco onde coisas comuns estavam prestes a mudar de forma.
Cortar tornou-se um mundo próprio.
Cenouras em rodelas, curgete em meias-luas, cebola em gomos desajeitados que me fizeram arder os olhos. Não tive pressa, não tentei cortar como um chef de televisão. Só um ser humano real, com cubos ligeiramente irregulares e tudo.
Atirei tudo para um tabuleiro, deitei azeite a olho, polvilhei sal, pimenta e alecrim esmagado entre os dedos.
Ouvi o tilintar suave quando o grão-de-bico bateu no metal e rebolou. Quando o tabuleiro entrou no forno, houve uma pequena pausa - nada para fazer a não ser esperar e cheirar.
Sem “enquanto isto assa, vou só responder a três mensagens”.
Fiquei na cozinha. Lavei a faca. Limpei a tábua. Fiquei a ver a luz do forno como se fosse uma fogueira.
Cozinhar sem multitarefa não prolonga magicamente a noite.
O assado continua a demorar 25 minutos, a massa continua a cozer 8 ou 10, o dia continua cheio. Mas a textura mental desses minutos muda por completo.
Não se anda em pingue-pongue entre estímulos, sempre alguns segundos atrasado em relação à própria vida. Habita-se uma ação de cada vez.
É daí que vem a satisfação silenciosa: não da complexidade do prato, mas da totalidade da atenção.
A comida muitas vezes sabe melhor, sim, mas a verdadeira mudança é interna.
Em vez de acabar a refeição e mal se lembrar de como foi feita, leva-se um rasto de pequenas memórias sensoriais: o primeiro chiar da frigideira, a acidez do limão quando se raspou a casca, a forma como as ervas tingiram as pontas dos dedos de verde.
Como cozinhar, de facto, um prato de cada vez (sem transformar isso numa obrigação)
Se quiser experimentar, comece de forma absurdamente simples. Uma tosta de tomate, ovos mexidos, uma sopa de um só tacho.
O objetivo não é impressionar ninguém. É sentir os passos, um a um.
Escolha o prato e depois defina um limite pequeno: sem outros media enquanto cozinha. Sem vídeos, sem chamadas em alta-voz.
Música pode ser ok se ajudar, mas trate-a como fundo, não como o espetáculo principal.
Depois, conduza a atenção através do processo: lavar, cortar, aquecer, mexer, provar. Quando a mente divagar - e vai - traga-a de volta ao som da faca ou ao cheiro da frigideira.
Vai sentir vontade de voltar a enfiar multitarefa pelo meio. Todos sentimos.
É aqui que surgem os pequenos erros muito humanos: queimar o alho porque “só foi ver uma coisa”, cozer demais a massa porque uma notificação o puxou para longe.
O objetivo não é a perfeição. Pode esquecer-se do sal.
Pode alourar demais as cebolas ou pôr um pouco de picante a mais. O ganho é manter-se na mesma “sala” do que está a fazer, mental e fisicamente.
Se escorregar e pegar no telemóvel, repare nisso sem drama, pouse-o e volte a mexer. Esse pequeno recomeço é o que constrói o novo hábito.
Às vezes, a coisa mais luxuosa que se pode fazer é cozinhar um prato simples como se isso realmente importasse, mesmo que mais ninguém veja e o prato tenha uma lasca.
- Escolha uma receita fácil que quase consiga fazer de memória.
- Afaste fisicamente o telemóvel para outra divisão ou, pelo menos, deixe-o fora de alcance.
- Foque-se num sentido de cada vez: som, cheiro, textura, cor.
- Deixe os momentos de espera serem silenciosos em vez de os preencher.
- Coma o prato sem ecrã, nem que seja só nas primeiras cinco garfadas.
Quando uma refeição se torna um pequeno ato de resistência
Há um poder estranho em dizer: nos próximos 20 minutos, vou apenas cozinhar.
Sem otimizar, sem “aproveitar melhor o tempo”, sem espremer três tarefas numa só. Só cortar, mexer e provar.
Pode notar efeitos secundários. A noite parece um pouco mais longa. A refeição assenta melhor no corpo. Lembra-se do que comeu, não apenas de que “comeu qualquer coisa à pressa”.
Talvez comece a desejar esta pequena bolha de atenção indivisa em dias caóticos.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias.
Mas mesmo uma ou duas vezes por semana, um prato feito com foco total pode reajustar o ritmo.
Lembra-nos que nem tudo tem de ser eficiente para ter valor. Algumas coisas - como cebolas a amolecerem devagar numa frigideira enquanto ficamos ali, a respirar o cheiro - valem a pena simplesmente porque nos fazem sentir humanos.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Cozinhar com uma única tarefa | Focar-se num prato do início ao fim, sem tarefas em paralelo | Reduz a sobrecarga mental, devolve uma sensação de calma |
| Atenção sensorial | Reparar em sons, cheiros e texturas em cada passo | Torna cozinhar mais prazeroso e enraizador |
| Ritual pequeno e realista | Uma refeição simples com foco, uma ou duas vezes por semana | Fácil de manter ao longo do tempo, forma suave de recuperar presença |
FAQ:
- Pergunta 1 Preciso mesmo de pôr o telemóvel noutra divisão para cozinhar assim?
- Pergunta 2 E se me aborrecer enquanto a comida apura ou está a assar?
- Pergunta 3 Posso cozinhar assim para a minha família, ou só funciona quando estou sozinho?
- Pergunta 4 Sou iniciante na cozinha - focar-me num só prato vai mesmo ajudar-me?
- Pergunta 5 Com que frequência devo tentar isto para sentir mesmo diferença?
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