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Durante mais de uma década, a China criou novas ilhas no oceano ao despejar toneladas de areia.

Navio de carga encalhado na areia de uma praia com coqueiros ao fundo e bóias vermelhas na água em primeiro plano.

A primeira vez que o vê em imagens de satélite, o cérebro quase o rejeita. Uma mancha azul enevoada de mar aberto no Mar do Sul da China… e depois, alguns anos mais tarde, surge um ponto brilhante e geométrico, como se alguém tivesse deixado cair uma peça de Lego no meio do oceano. Faça zoom e aparecem pistas, cúpulas de radar, docas, gruas. Não é um banco de areia, não é um recife. É uma ilha novinha em folha que simplesmente não existia ali antes.

Algures lá longe, sobre essa água, dragas têm rugido toda a noite, vomitando areia para as ondas.

Parece que estamos a ver um planeta a ser editado em tempo real.

Como a China construiu ilhas onde só havia água

Há mais de uma década que navios chineses fazem vaivém sobre recifes disputados, sugando areia do fundo do mar e despejando-a sobre o coral como uma correia transportadora interminável. Imagine monstros flutuantes de aço, com longos tubos mergulhados nas profundezas, a agitar uma mistura lamacenta que se derrama em plumas cremosas, transformando a água turquesa num bege enlameado.

Passo a passo, esses montes elevam-se acima da linha de maré.

Primeiro, uma corcunda pálida. Depois, uma faixa de terra. Depois, de repente, uma plataforma grande o suficiente para betão e asfalto.

No recife Fiery Cross, por exemplo, os pilotos internacionais costumavam ver pouco mais do que coral recortado e ondas espumantes. Em 2014, as fotos de satélite mostravam dragas agarradas às bordas como formigas.

Num ano, o recife já tinha uma pista de 3.000 metros, depósitos de combustível e um pequeno porto escavado na costa recém-criada. Abrigos de pesca transformaram-se em hangares. Tendas temporárias tornaram-se estações de radar.

Do cockpit de aviões comerciais que passam, a transformação parecia surreal: um oval branco a brilhar, de areia fresca, esquadrado por diques de contenção, escurecendo lentamente à medida que o betão e o asfalto se espalhavam sobre ele.

A receita básica soa enganadoramente simples. Encontrar um recife pouco profundo. Dragá-lo, retirando areia e coral triturado do fundo marinho em redor. Bombear essa mistura, camada após camada, até a estrutura emergir acima da água e suportar edifícios pesados.

Depois, fixá-la com pedra e betão, como quem cobre um bolo com cimento.

Nos bastidores, a matemática é brutal. Cada nova ilha pode exigir milhões de metros cúbicos de areia, colocados com precisão para que as ondas não a apaguem de imediato. Engenheiros estudam correntes, marés, trajetórias de tempestades, tentando adivinhar como o mar vai ripostar. Não está apenas a desenhar uma forma num mapa - está a lutar com um oceano inteiro.

Escavar, despejar e desenhar novas fronteiras no mar

Visto do convés de um barco de pesca filipino, isto não parece geopolítica abstrata. Parece uma frota de dragas e embarcações da guarda costeira a impor-se onde antes havia água aberta. As tripulações observam os seus pesqueiros tradicionais a ganharem vedações, boias e avisos a estalar em altifalantes.

Areia no sítio certo pode funcionar como um portão invisível.

Assim que um recife se torna uma ilha com docas e pistas, barcos de patrulha podem reabastecer ali, helicópteros podem aterrar, e navios da guarda costeira ganham um porto seguro que nunca existiu antes.

Veja-se o recife Subi, outrora um anel solitário de coral mal a espreitar acima da maré. Durante décadas, os mapas assinalavam-no de forma ténue, um nome em letras minúsculas que só marinheiros e especialistas reconheciam. Depois chegaram as barcaças de dragagem.

Expeliram tanta areia que o recife se tornou uma plataforma sólida, cinzento-esbranquiçada, do tamanho de um pequeno bairro urbano. Em breve havia campos de basquetebol para soldados, painéis solares a brilhar nas extremidades e um cais longo o suficiente para navios de grande porte.

Estatísticas de investigadores independentes sugerem que, em apenas alguns destes recifes, a China criou mais de 1.200 hectares de nova terra em poucos anos. É como acrescentar várias “Manhattans” de imobiliário estratégico, no meio de águas contestadas.

A lógica é direta: terra física tende a solidificar reivindicações políticas. Se tem uma pista, radares e quartéis num recife, a sua presença deixa de ser teórica.

O direito internacional torna-se confuso aqui, e juristas discutem definições: o que conta como “ilha”? o que é apenas uma estrutura artificial? que direitos marítimos traz cada uma? Enquanto diplomatas trocam notas, bulldozers nestas novas ilhas lançam fundações para faróis, abrigos de mísseis e torres de comunicações.

Sejamos honestos: num mapa, uma mancha cinzenta de betão é muito mais persuasiva do que uma linha pontilhada. Esse é o poder discreto da areia dragada - transforma zonas desfocadas em formas duras, muito difíceis de reverter.

Quanto custa mover um oceano - e quem paga o preço

Por trás das fotos dramáticas de pistas reluzentes, há um trabalho muito menos fotogénico a acontecer debaixo de água. Navios de dragagem aspiram o fundo do mar, triturando cabeços de coral e turvando a água com sedimentos. O método soa limpo e técnico: “reclamação de terras”. Na prática, é como passar uma trituradora por cima de um recife vivo.

Biólogos marinhos que fazem levantamentos nas áreas próximas relatam coral sufocado sob pó fino, ervas marinhas enterradas e bancos de bivalves destruídos. Pequenas larvas que normalmente derivariam e se fixariam nos recifes ficam asfixiadas antes de encontrarem casa.

Quando as dragas vão embora, o fundo do mar não recupera simplesmente.

Todos conhecemos aquele momento em que uma praia perfeita da infância de repente parece mais pequena, mais cheia, ligeiramente errada. Para pescadores no Mar do Sul da China, essa sensação chega quando regressam a um local favorito e encontram água turva onde o recife costumava brilhar.

Contam aos jornalistas capturas a diminuir, a necessidade de navegar mais longe, gastando mais combustível para encher as mesmas redes. Alguns encolhem os ombros e dizem: “O mar mudou.” Outros falam com raiva aberta, apontando para silhuetas distantes de navios de guerra no horizonte.

Há um luto silencioso nas suas histórias - a sensação de que uma despensa selvagem, partilhada, está a ser gradualmente pavimentada e trancada.

“Fala-se de rochas e fronteiras”, disse um cientista marinho vietnamita num fórum regional, “mas os peixes não querem saber das suas linhas no mapa. Quando enterra o recife sob areia, apaga um viveiro que alimenta todo o mar.”

  • Perda de habitat de coral
    Cientistas estimam que dragagens em grande escala podem matar até 70–90% do coral vivo em zonas diretamente impactadas.
  • Água turva e vida sufocada
    Sedimentos em suspensão bloqueiam a luz solar, stressando ou matando organismos que dependem de água clara, desde algas a amêijoas.
  • Alterações na migração dos peixes
    Com as estruturas de recife danificadas, espécies que antes ali se concentravam deslocam-se, quebrando padrões antigos de pesca.
  • Tempestades mais duras, ondulação mais agressiva
    Recifes funcionam como quebra-mares naturais. Quando são aplanados, litorais mais distantes podem sentir marés de tempestade mais fortes.
  • Novas fontes de poluição
    Uma vez construída a ilha, derrames de combustível, esgotos e resíduos de construção acrescentam uma segunda vaga de danos às águas circundantes.

Viver com ilhas artificiais num mar em mudança

Afastando-nos da política, fica uma pergunta mais inquietante no ar salgado: se conseguimos fazer surgir ilhas do nada, o que nos impede de reconfigurar costas inteiras? Alguns planeadores já sonham com “cidades flutuantes” e atóis artificiais como resposta à subida do nível do mar. As ilhas de areia despejada pela China mostram uma versão desse futuro - rápida, impositiva, declaradamente estratégica.

Ao mesmo tempo, esta experiência flutua sobre um oceano frágil que aquece, acidifica e sobe cada ano mais pelas nossas margens. As mesmas ondas que antes moldavam recifes solitários estão agora a embater em betão fresco.

Ninguém sabe ao certo como estas novas estruturas envelhecerão sob a pressão combinada de tufões, sal e alterações climáticas.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Como as ilhas são construídas Dragagens massivas bombeiam areia e coral para recifes pouco profundos, camada a camada, e depois fixam tudo com betão e diques. Ajuda a visualizar o processo físico por trás das manchetes e das imagens de satélite.
Porque importam geopoliticamente Pistas, portos e sensores em nova terra estendem o alcance militar e endurecem reivindicações territoriais. Esclarece por que pontos distantes no mar geram tanta tensão regional e global.
Quem e o quê paga o preço Recifes, pescas e comunidades costeiras enfrentam danos ecológicos de longo prazo e meios de subsistência perturbados. Liga a “reclamação de terras” abstrata ao dia a dia, à segurança alimentar e ao oceano em geral.

FAQ:

  • Pergunta 1 Como é que a China cria exatamente estas ilhas artificiais?
  • Resposta 1 Embarcações especializadas de dragagem sugam areia e coral triturado do fundo do mar, misturam com água formando uma polpa e bombeiam-na para recifes pouco profundos. Quando a nova terra sobe acima do nível do mar, os engenheiros compactam-na, constroem diques e depois instalam infraestruturas como pistas, docas e edifícios.
  • Pergunta 2 Estas ilhas são legalmente consideradas território chinês?
  • Resposta 2 Isso é fortemente disputado. A China reivindica soberania sobre elas e sobre as águas circundantes, mas a decisão do tribunal de Haia de 2016 rejeitou algumas dessas reivindicações, sobretudo onde as formações não eram ilhas naturais. Muitos estados vizinhos e países ocidentais não reconhecem a nova terra como alterando limites marítimos legais.
  • Pergunta 3 Quanta terra a China acrescentou no Mar do Sul da China?
  • Resposta 3 As estimativas variam, mas analistas independentes dizem que a China criou mais de 1.200 hectares de nova terra em vários recifes-chave, com os postos avançados mais desenvolvidos a alojarem pistas com cerca de 3 km, grandes portos e guarnições consideráveis.
  • Pergunta 4 A China é o único país a construir ilhas artificiais?
  • Resposta 4 Não. Outros reclamantes no Mar do Sul da China, como o Vietname e as Filipinas, também fizeram construção e fortificação em menor escala. Fora da região, lugares como o Dubai, Singapura e os Países Baixos usam há muito a reclamação de terras para aeroportos, portos e imobiliário, embora com objetivos e escalas diferentes.
  • Pergunta 5 As ilhas artificiais poderiam ser usadas de forma positiva, para adaptação climática?
  • Resposta 5 Alguns arquitetos e cientistas exploram ideias como plataformas elevadas ou recifes artificiais para proteger costas e alojar comunidades à medida que o mar sobe. A verdade simples é que ninguém faz isto todos os dias com total cuidado ecológico, e o Mar do Sul da China mostra como este tipo de engenharia pode inclinar-se facilmente para poder bruto em vez de resiliência partilhada.

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