O recrutador recostou-se na cadeira e suspirou. «Se me conseguir encontrar só mais três perfis como este», disse, tocando no CV no ecrã, «contrato-os amanhã. Nem me importa que queiram trabalhar remotamente a partir de uma praia em Portugal.»
Do outro lado da chamada, uma analista de cibersegurança de 29 anos riu-se nervosamente. Já estava a gerir propostas de três empresas diferentes, todas a prometer melhores salários, melhores bónus, melhor «o que quiseres, é só dizeres».
Está a acontecer algo estranho no mercado de trabalho neste momento. Algumas funções estão, discretamente, a transformar-se em minas de ouro - não por serem glamorosas, mas porque quase ninguém as consegue desempenhar.
Este trabalho paga bem por uma razão simples, quase brutal.
A procura esmaga consistentemente a oferta.
É isto que acontece quando um trabalho se torna um estrangulamento
Entre em qualquer empresa em rápido crescimento e consegue identificar o “trabalho gargalo” quase de imediato.
É a função de que toda a gente se queixa nas reuniões, aquela de que se fala como se fosse um metal raro. «O nosso roadmap inteiro está bloqueado até contratarmos um engenheiro de dados sénior.» «Não conseguimos lançar nesse país até encontrarmos mais um enfermeiro anestesista.»
A pessoa que já faz esse trabalho está soterrada em e-mails e mensagens no Slack. É a última a sair do escritório ou a primeira a ligar-se a partir de casa. E, ainda assim, o seu gestor está, em silêncio, a rezar para que ela não se demita.
É nessa tensão que os salários começam a subir.
Veja-se os programadores com competências específicas e muito procuradas.
Um diretor de RH de Berlim contou-me sobre um engenheiro backend de nível intermédio que tentaram contratar durante meses. Publicaram em todos os sites de emprego, usaram agências, imploraram por recomendações. Nada. Até que, por fim, apareceu um candidato com a stack certa e três anos de experiência.
Ele mencionou, casualmente, que já tinha duas propostas. Ambas rondavam os 80.000 €. A empresa tinha orçamentado 65.000 €. Esticaram, adiaram, debateram. Quando finalmente aumentaram a proposta, ele já tinha ido embora. Foi contratado noutro sítio por 90.000 €, mais um bónus de assinatura.
Não perderam para “talento”. Perderam para a simples lei da oferta e da procura.
Quando um trabalho se torna difícil de preencher, a empresa enfrenta uma escolha: abrandar o crescimento, recusar projetos, desiludir clientes… ou pagar mais.
É por isso que carreiras em que a procura supera a oferta tendem a ver um crescimento salarial acentuado e resiliente. Mesmo quando a economia arrefece, estas funções muitas vezes mantêm-se protegidas, porque sem elas o sistema encrava.
Pense em pilotos de aviação, enfermeiros especializados, especialistas em segurança na cloud, eletricistas qualificados em cidades em expansão. Não fazem apenas uma tarefa. Desbloqueiam receitas e evitam desastres.
E o mercado recompensa silenciosamente essa alavancagem com melhor remuneração, melhores condições e uma quantidade surpreendente de poder negocial.
Como “surfar” uma escassez de talento em vez de sofrer com ela
Se quer um trabalho que pague bem porque a procura ultrapassa a oferta, não começa por tabelas salariais. Começa por fricções.
Procure lugares onde as pessoas esperam. Listas de espera para terapeutas. Atrasos de três meses para instalar painéis solares. Fundadores de tecnologia a desabafarem no LinkedIn porque não conseguem contratar engenheiros de IA suficientes.
Esse tempo de espera é procura não satisfeita. Um sinal à vista de todos.
O método é simples: ouça as queixas de quem decide, não de quem compra. Quando CFOs, administradores hospitalares ou CEOs repetem «não conseguimos encontrar pessoas para isto», encontrou uma potencial via de alto valor. É aí que a formação, a reconversão ou a especialização se tornam uma aposta com verdadeiro potencial de retorno.
Claro que há uma armadilha. Muita gente corre para “empregos quentes” por causa de manchetes, não por causa da profundidade real do mercado.
Vê-se isto com marketing digital genérico, ou com gestores de projeto júnior. A internet está cheia deles. Cursos prometem salários de seis dígitos em três meses, e os recém-formados inundam o funil.
Depois a realidade chega: demasiados CVs, pouca diferenciação, salários pressionados para baixo.
Se já fez isso, não está sozinho. Todos já passámos por esse momento em que percebe que escolheu a porta cheia, em vez da porta discreta ao lado. O passo agora não é recomeçar do zero, mas sim afunilar. Ligue a sua competência a um setor com falta de pessoas: saúde, energia verde, cibersegurança, automação industrial. É aqui que perfis comuns se tornam, de repente, raros.
«As pessoas acham que sou bem pago porque sou um génio», disse-me um arquiteto sénior de cloud. «Sou bem pago porque simplesmente não há pessoas suficientes como nós dispostas a fazer isto à escala, sob pressão.»
Passo 1: Identifique o sinal
Leia sites de emprego e filtre por funções publicadas há 60+ dias, ou com republicações repetidas. Vagas abertas durante muito tempo costumam indicar escassezes persistentes.Passo 2: Estude o caminho de entrada
Há uma forma realista de entrar em 12–24 meses? Bootcamps, CET/CTeSP, aprendizagens/estágios, transferências internas. O caminho tem de ser difícil, mas não impossível.Passo 3: Empilhe um elemento raro
Língua, conhecimento setorial, localização, ou uma certificação extra. Uma competência comum mais uma “volta” rara pode colocá-lo na zona de “quase sem concorrência”.
O poder discreto de ser um dos poucos
Depois de ver este padrão, não o consegue deixar de ver. Por detrás de cada trabalho “banal” que é muito bem pago, costuma existir uma balança muito desequilibrada. Muitas empresas de um lado. Poucos humanos qualificados do outro.
Eletricistas que sabem instalar carregadores para veículos elétricos. Parteiras em regiões subatendidas. Gestores de produto sénior que realmente lançaram produtos complexos, e não apenas andaram a passar slides de reunião em reunião.
A ironia emocional é subtil. As pessoas nestas funções muitas vezes não se sentem extraordinárias. Estão apenas a fazer o seu trabalho, com caixas de entrada a transbordar e calendários que nunca esvaziam. Mas os mercados funcionam com lógica fria. Escassez mais necessidade é igual a poder negocial, mesmo que o trabalhador não o use totalmente.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias.
Quase ninguém audita regularmente o mercado de trabalho como um investidor. A maioria de nós cai em funções por acaso, pela geografia, por «um amigo conhecia alguém que estava a contratar». E depois, um dia, perguntamo-nos porque é que outra pessoa, com esforço semelhante, ganha o dobro.
Muitas vezes, a resposta não é “garra” nem talento. É que o trabalho dela está num cruzamento de necessidade urgente e oferta limitada. Ela aconteceu estar onde dinheiro, risco e escassez se cruzam. Isso não a torna mais sortuda para sempre. Significa apenas que entrou no gargalo certo, no momento certo.
A pergunta interessante para si não é «Qual é o trabalho mais bem pago este ano?» Essa lista muda depressa e, quando a lê, a multidão já vai a caminho.
A verdadeira pergunta é: onde é que estão a formar-se filas que a maioria ainda não está a ver?
Talvez sejam auditores de segurança em IA daqui a cinco anos. Ou técnicos que conseguem fazer manutenção de turbinas eólicas em zonas remotas. Ou cuidadores bilingues em países envelhecidos.
São essas margens discretas e pouco glamorosas da economia que provavelmente vão gerar a próxima vaga de «pessoas comuns, salários extraordinários».
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Siga os gargalos | Procure funções que bloqueiam receitas, segurança ou conformidade legal quando ficam por preencher | Identificar carreiras com alavancagem incorporada, pelas quais as empresas pagam mais para garantir |
| Combine comum + raro | Comece com uma competência ampla e adicione uma “volta” escassa (setor, tecnologia, língua) | Escapar a funções sobrelotadas e passar para nichos menos competitivos e mais bem pagos |
| Observe sinais reais do mercado | Acompanhe vagas difíceis de preencher, comportamento de recrutadores e queixas persistentes | Escolher formação e mudanças com base em procura real, não em listas de “hype” |
FAQ:
Pergunta 1
Como sei se um trabalho tem mesmo mais procura do que oferta?
Pode confirmar com três pistas: anúncios que ficam abertos semanas ou meses, recrutadores a contactar ativamente pessoas no LinkedIn para essa função e empregadores a queixarem-se publicamente de dificuldades em contratar. Quando as três coincidem, normalmente existe uma escassez real.Pergunta 2
Todos os trabalhos com muita procura pagam sempre bem?
Nem sempre. Alguns setores (como os serviços públicos) têm tetos orçamentais. Nesses casos, a procura manifesta-se mais como burnout e longas listas de espera do que como salários. No setor privado, contudo, escassezes persistentes tendem a empurrar remuneração e benefícios para cima ao longo do tempo.Pergunta 3
É tarde demais para me reconverter para um destes trabalhos nos meus 30 ou 40 anos?
Não. Muitas funções em escassez aceitam com agrado “mudanças de carreira”, porque simplesmente precisam de pessoas que aprendam depressa e fiquem. Pense em bootcamps de programação, cursos de enfermagem, formação de instaladores técnicos ou funções de dados. O essencial é escolher um caminho em que a sua experiência passada seja um bónus, e não um peso morto.Pergunta 4
E se eu já estiver numa função com muita procura, mas o meu salário não refletir isso?
É mais comum do que imagina. Comece por documentar o seu impacto e depois compare propostas e intervalos salariais na sua região. Por vezes, mudar de empregador é a única forma de converter a procura do mercado em rendimento pessoal - sobretudo se a sua empresa atual estiver presa a grelhas salariais antigas.Pergunta 5
Devo escolher um trabalho apenas com base no potencial salarial?
Perseguir apenas salário pode levá-lo rapidamente ao esgotamento. O ponto ideal é uma função cuja realidade do dia a dia consiga tolerar, onde tenha algumas forças naturais, e que ainda beneficie desse desequilíbrio entre procura e oferta. O dinheiro sabe de forma muito diferente quando não odeia todas as segundas-feiras.
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