Às 12h30, a cozinha está silenciosa. O prato de massa reaquecida está em cima da mesa, o vapor já desapareceu, o garfo intocado. Maria, 72 anos, olha para ele por um segundo e depois levanta-se para voltar a guardar a comida no frigorífico. “Como qualquer coisa mais tarde”, diz em voz alta, embora saiba que provavelmente não vai. Ela costumava adorar o almoço. Agora o meio-dia vem e vai, e o estômago mal sussurra.
“Não estou doente”, diz para si mesma. Apenas “com menos fome com a idade”. Os amigos dizem o mesmo. Porções mais pequenas. Refeições saltadas. Café em vez de pequeno-almoço.
A partir de que ponto é que o corpo está simplesmente a mudar - e a partir de que ponto está a enviar um alarme silencioso?
Quando o apetite desaparece depois dos 65, o corpo está a falar consigo
Uma das frases mais comuns que os médicos ouvem de pessoas com mais de 65 anos é: “Já não me apetece comer.” Acontece devagar. Passa de três refeições por dia para duas, depois uma refeição substancial e alguns lanches ao acaso. A parte preocupante é que, por fora, nada parece dramaticamente errado. Está apenas a “comer menos”.
Por dentro, porém, o corpo segue um guião diferente. As hormonas que regulam a fome mudam. O olfato e o paladar ficam mais embotados. A digestão abranda. O sinal que antes gritava “hora de comer” passa a ser uma sugestão ténue. E esse sinal fraco pode esconder um risco real.
Imagine isto. Jean, 78 anos, perdeu 5 quilos em seis meses. A filha culpa “melhores hábitos”, já que ele agora vive sozinho e não cozinha jantares pesados. Ele desvaloriza, dizendo: “É só que não tenho tanta fome, é da idade.” Os números contam outra história. As análises mostram proteína baixa, anemia ligeira, e uma nódoa negra na perna demora semanas a desaparecer.
No papel, não mudou muito: continua a ir a pé à padaria, continua a conduzir, continua a encontrar-se com amigos para jogar às cartas. Mas a roupa assenta de outra forma. O cinto precisa de mais um furo. Sente-se cansado a subir as mesmas escadas que no ano passado subia sem pensar. Por detrás desse apetite a desaparecer, o corpo está a queimar silenciosamente reservas que não se pode dar ao luxo de perder.
Esta diminuição da fome depois dos 65 tem até um nome: a “anorexia do envelhecimento”. Parece dramático, mas descreve simplesmente um conjunto de mudanças que reduzem o apetite e, se nada for feito, a massa muscular. Menos músculo significa mais fadiga, maior risco de quedas, recuperação mais lenta até da mais pequena infeção. O corpo não precisa apenas de calorias; precisa de material de construção.
Por vezes, o sinal é ainda mais claro. Uma perda súbita de apetite pode avisar para depressão, efeitos secundários de medicamentos, insuficiência cardíaca, dor dentária e até alguns cancros. O corpo raramente deixa de pedir comida “só porque sim”. Quando a fome desaparece, algo - grande ou pequeno - está a acontecer nos bastidores.
Como reagir quando a fome passa a “volume baixo”
O primeiro passo prático é simples: observe como um detetive durante uma semana. Não para julgar, mas para compreender. Pegue em qualquer caderno ou numa app de notas e anote o que realmente come e bebe, com horas aproximadas e quantidades. Inclua café, chá, bolachas, “só um iogurte”, tudo.
Ao fim de sete dias, olhe para as páginas. Salta muitas vezes o pequeno-almoço? Passa mais de seis horas sem comida a sério? Os jantares estão a ficar mais pequenos porque está demasiado cansado para cozinhar? Esse pequeno registo é muitas vezes um choque. Transforma uma sensação vaga - “eu como, não como?” - num padrão claro com o qual o médico ou o nutricionista pode trabalhar.
Uma armadilha em que muita gente cai depois dos 65 é substituir refeições por líquidos. Chá, café, tisanas, até água. A hidratação é importante, claro, mas um estômago cheio sem nutrientes é uma forma silenciosa de deslizar para a desnutrição. Outro padrão comum: depender demasiado de pão, bolachas ou sopa com quase nenhuma proteína. Sente-se “cheio”, mas os músculos ficam à espera.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Ninguém come de forma perfeita ou regista tudo para sempre. O objetivo não é ficar obsessivo. É detetar sinais claros: perda de peso sem explicação, mudança no tamanho da roupa, sestas mais frequentes, falta de ar com esforço ligeiro. Tudo isto pode estar ligado a comer pouco - demasiadas vezes.
“Quando uma pessoa mais velha me diz que está ‘apenas com menos fome’, eu nunca desvalorizo”, diz a Dra. Léa Martin, geriatra em Lyon. “Para alguns, são apenas mudanças da idade no paladar e nas hormonas. Para outros, é a primeira peça do dominó da fragilidade. Quanto mais cedo ouvimos esse sinal, mais fácil é agir.”
Eis pequenos passos realistas que já podem reduzir o risco:
- Dê prioridade à proteína em cada refeição (ovos, iogurte, peixe, lentilhas, queijo, aves).
- Divida a alimentação em 4–5 lanches pequenos se as refeições grandes pesarem.
- Coma com alguém - família, vizinho, almoço comunitário - pelo menos uma vez por semana.
- Peça ao seu médico para rever a medicação que possa reduzir o apetite.
- Tenha opções “prontas a comer” em casa: ovos cozidos, fruta cortada, frutos secos, iogurtes individuais.
Uma fome mais silenciosa não significa que as suas necessidades encolheram
Existe a crença generalizada de que, quanto mais se envelhece, menos se “precisa” de comer. Na balança, parece lógico. Mexe-se menos, gasta menos calorias, logo pode reduzir o prato. O problema é que as necessidades do corpo não diminuem todas ao mesmo ritmo. A energia pode baixar um pouco; a necessidade de proteína muitas vezes mantém-se igual ou até aumenta. Vitaminas e minerais continuam a ser essenciais para a imunidade, o humor, os ossos, a memória.
Por isso, quando o apetite desaparece, não significa que o corpo já não precisa de comida. Normalmente significa que está a ter dificuldade em pedir o que ainda necessita.
Algumas pessoas só se apercebem disto depois de um pequeno choque: uma queda, uma fratura da anca, uma gripe persistente que demora semanas a passar. Os familiares dizem: “Ela estava bem antes”, esquecendo meses de almoços saltados e jantares feitos apenas de queijo e bolachas. O corpo consegue compensar durante algum tempo e, de repente, a conta chega.
Uma fome mais silenciosa também pode sinalizar uma mudança emocional. Solidão, luto, ansiedade, ou mudar-se para uma casa mais pequena podem retirar o prazer de comer. Todos conhecemos aquele momento em que a mesa parece grande demais para um só prato. Nesses casos, a mensagem do corpo é tanto do coração como do estômago.
Então, o que é que o seu corpo está realmente a sinalizar quando sente menos fome depois dos 65? Pode estar a dizer: “Estou a mudar, ajuda-me a adaptar.” Pode estar a avisar: “Estou a funcionar com reservas.” Ou pode estar a sussurrar: “Há outra coisa a acontecer, por favor olha mais de perto.” Por isso, pequenas verificações - peso, apetite, nível de energia, humor - importam tanto como a tensão arterial.
Falar disto com um médico, um farmacêutico, ou até um amigo de confiança não é queixar-se. É intervenção precoce. E, por vezes, o simples ato de se sentar, partilhar uma tigela de sopa e uma fatia de pão com alguém que escuta já é uma forma de tratamento - tanto para o apetite como para os medos silenciosos que acompanham a idade.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| A perda de apetite é um sinal | Depois dos 65, a diminuição da fome pode refletir alterações hormonais, doença, efeitos de medicação ou mudanças emocionais. | Ajuda a levar a sério o apetite a desaparecer, em vez de o atribuir a “ser só da idade”. |
| Pequenas estratégias mudam muito | Registos alimentares, mais proteína, refeições menores e mais frequentes, e comer em companhia apoiam a massa muscular e a energia. | Oferece formas práticas de reagir sem ter de mudar todo o estilo de vida. |
| Agir cedo protege a independência | Abordar o apetite e a nutrição precocemente reduz fragilidade, quedas e recuperações lentas. | Dá mais controlo sobre força, autonomia e conforto no dia a dia. |
FAQ
Pergunta 1: Quando devo preocupar-me com a perda de apetite depois dos 65?
Perda de peso não intencional, roupa a ficar mais larga, sentir-se mais fraco, ou passar várias semanas a saltar refeições completas são razões claras para falar com um médico.Pergunta 2: Posso simplesmente tomar suplementos em vez de comer mais?
Os suplementos podem ajudar em alguns casos, mas não substituem uma alimentação equilibrada; use-os apenas com aconselhamento médico e como apoio, não como solução única.Pergunta 3: E se me sentir cheio muito depressa?
Resposta 3: Experimente refeições mais pequenas a cada 3 horas, foque-se em alimentos densos em nutrientes (ovos, iogurte, frutos secos, queijo) e peça ao seu médico para excluir problemas digestivos.Pergunta 4: Viver sozinho afeta mesmo o apetite?
Sim, muitas pessoas comem menos e de forma menos variada quando estão sozinhas; refeições partilhadas - mesmo uma vez por semana - muitas vezes aumentam tanto o humor como a fome.Pergunta 5: É normal gostar mais de doces do que de comida “normal” à medida que envelheço?
O paladar muda com a idade e com a medicação, por isso os sabores doces podem parecer mais intensos; está tudo bem com moderação, mas tente combinar doces com proteína, como iogurte com fruta.
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