Numa manhã enevoada de fevereiro, nos subúrbios de uma cidade francesa de média dimensão, ouve-se o som discreto das botas a baterem nas pedras molhadas do passeio. Um jardineiro, com um velho casaco polar, arrasta a mangueira por um pequeno quintal - daqueles com um pedaço teimoso de relvado e alguns canteiros elevados. Abre a válvula ligada ao seu depósito verde de plástico para recolha de água da chuva e observa o jorro a desenhar um arco até à terra. Parece o gesto mais banal do mundo. Quase um pequeno ato de bom senso em tempos de seca e faturas a disparar.
O que ele não sabe é que, a partir de 3 de fevereiro, esse gesto pode custar-lhe 135 euros.
E não é o único na mira.
Porque é que a água da chuva, de todas as coisas, se tornou subitamente “suspeita”
O anúncio chegou sem alarido, escondido em textos técnicos que pouca gente lê do princípio ao fim. Novas regras, nova redação e um número que salta à vista quando alguém finalmente o explica no telejornal: uma coima de 135 euros por utilizar água da chuva sem autorização.
Nas redes sociais, começam a circular capturas de ecrã. Ao início, as pessoas riem-se, convencidas de que é falso. Quem é que puniria um jardineiro por regar tomates com água que caiu do céu, de graça? Depois, os comentários tornam-se amargos. Alguns lembram-se das restrições da seca do verão passado. Outros falam de burocracia enlouquecida. Uma coisa fica clara: o texto tocou num nervo.
Veja-se o caso da Claire, 49 anos, jardineira amadora no Loire. Há dez anos que se orgulha dos seus dois grandes depósitos de recuperação, ligados à caleira da sua casa. Fala deles como outras pessoas falam do carro. “A minha água”, diz ela, a sorrir. Todos os verões, rega a horta ao amanhecer, com a sensação de estar a fazer algo de bom pelo planeta e pela carteira.
Na semana passada, leu num grupo local do Facebook que, a partir de 3 de fevereiro, usar essa água “sem autorização” podia render-lhe uma multa de 135 euros. Pânico nos comentários. As mesmas perguntas repetem-se em loop: “Quem dá a autorização?”, “Vão entrar nos nossos quintais?”, “Isto é só para profissionais ou também para particulares?” Ninguém sabe ao certo. Mas todos têm o mesmo receio: serem punidos por tentarem fazer a coisa certa.
Por detrás da coima, há uma lógica jurídica que não encaixa facilmente na vida quotidiana. As autoridades públicas argumentam que qualquer utilização não coletiva da água deve ser enquadrada e declarada quando atinge uma certa escala. A água da chuva, uma vez captada, armazenada, eventualmente filtrada ou desviada, deixa de se comportar como uma gota anónima num telhado. Pode infiltrar-se, transbordar, poluir, ou até competir com o sistema público se estiver mal ligada às canalizações.
Do ponto de vista delas, a autorização é uma forma de saber quem faz o quê, onde, e com que instalações. Do ponto de vista do jardineiro, parece que está a ser suspeito por encher um regador. É nesse desfasamento de perceções que cresce a indignação. E é aí que se vão jogar os mal-entendidos - e as coimas.
Como continuar a usar a sua água da chuva e evitar a armadilha dos 135 euros
O primeiro reflexo, antes do medo ou da indignação, é esclarecer se está mesmo abrangido. Nem todos os usos e nem todos os depósitos vão tornar-se ilegais de um dia para o outro. A coima visa o uso “não autorizado”, não cada gota de chuva que acaba num barril.
O passo mais concreto é simples e um pouco aborrecido: ir à câmara municipal ou ao serviço intermunicipal de águas e perguntar o que se aplica à sua morada, ao seu depósito, ao seu uso. É apenas para profissionais ligados a sistemas de rega? Para grandes cisternas enterradas? Para qualquer instalação ligada à canalização da casa? A maioria dos funcionários já está à espera destas perguntas.
Pode parecer humilhante pedir “autorização” para regar feijões. Mas é aí que a zona cinzenta legal começa a transformar-se numa resposta clara, por escrito, em que pode confiar.
Muitas pessoas vão ser tentadas a fazer o contrário: não dizer nada, fechar o portão e continuar a regar como antes. Todos conhecemos esse momento em que pensamos: “Eles nunca vão vir verificar o meu jardinzinho.”
Hora da verdade: sejamos honestos, ninguém lê o decreto legal completo às 23h depois do trabalho. É precisamente por isso que os rumores correm mais depressa do que os factos. O risco é achar que está seguro porque “toda a gente faz”, quando a sua instalação cumpre todos os critérios da nova infração: grande volume, canalização escondida, uso para autoclismos ou máquinas de lavar, sem declaração. Uma inspeção pontual, uma queixa de um vizinho, um controlo durante um período de seca - e lá chega uma lembrança de 135 euros à caixa do correio de que a lei não pára no muro.
Quem ficará mais exposto, muitas vezes, serão os mais empenhados: os que montaram sistemas engenhosos, depósitos grandes e rega quase “semi-profissional” sem nunca formalizarem nada. Um membro de uma associação ambiental resumiu-o de forma crua outro dia:
“Tenho receio de que este tipo de regra desencoraje precisamente as pessoas que andam há anos a tentar mudar hábitos, enquanto o verdadeiro desperdício acontece noutros lados.”
Para navegar isto sem desistir, destacam-se três linhas de defesa:
- Declarar qualquer instalação de grande dimensão ou ligada à canalização, sobretudo se estiver conectada a usos interiores.
- Manter depósitos pequenos, visíveis e à superfície para rega simples à mão.
- Perguntar ao seu município se existe um regulamento local escrito ou isenções específicas em períodos normais.
Entre um sistema ilegal e uma instalação segura e declarada, muitas vezes só há um formulário, um esquema e uma visita de um técnico. Não é glamoroso, mas sai mais barato do que uma coima e um encerramento forçado.
Entre o bom senso e o controlo: o que isto diz sobre a forma como gerimos a água
Toda esta história expõe um desconforto maior: pedem-nos para poupar água, reutilizá-la, sermos “consumidores responsáveis”, mas no momento em que ultrapassamos o regador, batemos em paredes regulamentares. Para muitos jardineiros, esta coima soa a bofetada numa altura em que os mapas de stress hídrico ficam vermelhos e as contas sobem.
Alguns vão recusar por princípio, transformando os depósitos num pequeno ato privado de resistência. Outros vão regularizar os sistemas, a contragosto. E alguns simplesmente vão deixar de recolher água, por medo. Entre a raiva, o cansaço e a resignação, a conversa sobre a água está a passar do técnico para o profundamente político.
Talvez a verdadeira pergunta não seja apenas “Arrisco 135 euros?”, mas “Quem decide como partilhamos e gerimos aquilo que cai livremente do céu?” É esse debate que já vai fervilhando em reuniões comunitárias, em fóruns de jardinagem e à mesa da cozinha quando a próxima chuva começa a bater nas janelas.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Saber se está abrangido | As regras muitas vezes visam sistemas grandes ou ligados à canalização, não cada pequeno barril | Evitar pânico inútil e focar-se no risco real |
| Falar com as autoridades locais | A câmara e o serviço de águas podem esclarecer autorizações e formulários | Reduzir a probabilidade de uma coima surpresa de 135 euros |
| Adaptar a instalação | Preferir usos visíveis e simples ou declarar sistemas maiores | Continuar a usar água da chuva cumprindo a lei |
FAQ:
- Quem pode, de facto, apanhar a coima de 135 euros? Qualquer pessoa que utilize um sistema de água da chuva que, por lei, exija autorização ou declaração e não a tenha obtido - sobretudo em volumes elevados ou instalações ligadas à canalização.
- Isto aplica-se ao meu pequeno barril debaixo da caleira? Na maioria dos casos, um barril simples à superfície, usado para rega manual, não é o alvo destas medidas, mas os regulamentos locais podem variar.
- Quem verifica se tenho autorização? Os controlos podem ser feitos por agentes municipais, inspetores do serviço de águas ou no âmbito de inspeções mais abrangentes em períodos de restrição ou obras.
- Como obtenho autorização para usar água da chuva? Normalmente, através de uma declaração ou pedido junto da câmara municipal ou da entidade intermunicipal responsável pela água, com uma descrição simples do sistema.
- Ainda posso usar água da chuva para autoclismos ou lavandaria? Sim, em muitos locais, mas apenas com instalações conformes e declaradas, que separem redes e respeitem as regras de higiene e segurança.
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