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Mistério das lágrimas de sangue da Virgem Maria: análises de ADN revelam conclusões surpreendentes

Estátua de Nossa Senhora num tabuleiro de laboratório com microscópio ao fundo e mão com luva segurando uma amostra.

Agora, quase uma década depois, essas inquietantes marcas carmesim voltam a estar sob os holofotes - não como milagre, mas como prova forense. Um geneticista forense está a analisar cada gota, enquanto procuradores, padres e peregrinos aguardam para saber se o sangue pertence ao céu, a um porco… ou à mulher no centro desta história.

O alegado milagre que atraiu multidões de toda a Europa

A história começa em Medjugorje, um ponto de peregrinação na Bósnia e Herzegovina onde se relatam aparições marianas desde a década de 1980. Durante uma visita ao local, a italiana Gisella Cardia comprou uma estátua da Virgem Maria e levou-a para casa.

Essa estátua depressa se tornaria o centro de uma tempestade. Segundo Cardia, a figura de Maria não ficou simplesmente em silêncio na sua casa. Disse que chorava lágrimas de sangue, transmitia mensagens do céu, fazia profecias e até acompanhava milagres de multiplicação de alimentos, ecoando episódios bíblicos que muitos católicos conhecem de cor.

Cardia transportou a estátua por toda a Europa, mas foi em Trevignano Romano, uma vila à beira do lago, nos arredores de Roma, que ela ganhou especial notoriedade. Ali, as reuniões numa encosta foram crescendo à medida que se espalhava a notícia da Virgem que sangrava. Chegavam autocarros cheios de curiosos e devotos. Uns ajoelhavam-se; outros filmavam; outros esperavam por cura.

Para os crentes, cada risco vermelho no rosto da estátua parecia um sinal de que Deus tinha irrompido na vida quotidiana.

Uma vidente autoproclamada em choque com a Igreja

Cardia começou a descrever-se como vidente. Afirmou que a Virgem Maria lhe confiara avisos apocalípticos e mensagens de misericórdia para Itália e para o mundo. O seu grupo de seguidores cresceu, mas também cresceu a preocupação das autoridades católicas.

A Igreja Católica é geralmente cautelosa perante alegados milagres. Em Trevignano, o clero local e depois instâncias superiores acompanharam a situação de perto. À medida que aumentavam as doações e a atenção mediática, as perguntas passaram da teologia para a possibilidade de engano.

Os procuradores em Civitavecchia, o polo regional que conduz o caso, abriram uma investigação por suspeita de burla. A suspeita central: as “lágrimas de sangue” não eram sobrenaturais, mas encenadas com cuidado.

Primeiras alegações: sangue de porco ou sangue humano?

Rumores iniciais, alegadamente baseados numa averiguação preliminar, sugeriam algo direto: o sangue poderia ter vindo de um porco. Só essa possibilidade ameaçava abalar a fé dos seguidores que tratavam a estátua como um canal de graça divina.

Depois surgiu uma reviravolta. Segundo notícias do jornal italiano Corriere della Sera, testes em laboratórios associados à Universidade de Tor Vergata apontavam noutra direção. As amostras da estátua mostravam sangue humano feminino, e não sangue animal.

O trabalho forense indicou que o perfil genético na estátua era surpreendentemente semelhante ao da própria Gisella Cardia.

Isso colocou uma questão incisiva aos investigadores: seriam as lágrimas um mistério médico, um fenómeno psicológico ou um ato deliberado usando o próprio sangue de Cardia?

O teste de ADN que pode desencadear um julgamento

As autoridades ordenaram agora uma análise de ADN mais detalhada. Um geneticista forense trabalha para esclarecer se o perfil genético dos vestígios sanguíneos é único ou uma mistura de ADN de pessoas diferentes.

  • Se o perfil do sangue corresponder apenas a Cardia, os procuradores poderão argumentar que ela o produziu e aplicou por iniciativa própria.
  • Se o perfil for misto, o caso torna-se mais complexo, sugerindo múltiplas fontes de contacto com a estátua.
  • Os resultados deverão ser entregues aos procuradores a 28 de fevereiro, uma data-chave para a investigação.

O desfecho não decidirá diretamente se houve um milagre; os tribunais seculares não se pronunciam sobre ação divina. O que pode decidir é se existiu encenação e se crentes vulneráveis foram induzidos a dar dinheiro, tempo ou confiança com base em pressupostos falsos.

A defesa: fé, não fraude

A própria Cardia mantém-se, em grande medida, fora da vista pública. Por intermédio da sua advogada, Solange Marchignoli, insiste que agiu por profunda convicção religiosa, e não por ganância.

Marchignoli descreveu a sua cliente como uma mulher de poucos meios e hábitos “humildes”, argumentando que não tem nada de concreto a ganhar ao inventar histórias de lágrimas e profecias. Segundo a advogada, Cardia está atualmente focada na oração, confiante de que a investigação não a rotulará como louca ou criminosa.

A defesa apresenta Cardia como uma crente movida pela fé, enquanto os investigadores veem uma potencial guru do século XXI com questões legais a responder.

Porque é que alegados milagres continuam a reaparecer

Casos como o de Trevignano Romano estão longe de ser isolados. Ao longo da história recente, relatos de estátuas a chorar ou imagens a sangrar surgiram em casas, paróquias e pequenos santuários à beira da estrada, de Itália à Índia.

Vários fatores ajudam estas histórias a ganhar força:

  • Necessidade emocional: em tempos de crise, as pessoas procuram sinais concretos de que algo para além da política e da economia ainda importa.
  • Contágio social: quando algumas pessoas relatam um sinal, outras ficam mais propensas a ver ou a acreditar em acontecimentos semelhantes.
  • Amplificação mediática: relatos locais podem espalhar-se a nível nacional em poucas horas, reforçando crenças e atraindo multidões.
  • Figuras carismáticas: uma personalidade persuasiva, que afirma receber mensagens especiais, pode manter a atenção do público durante anos.

A Igreja Católica, consciente destas dinâmicas, tem repetidamente apelado à prudência. O reconhecimento oficial de um milagre é raro e normalmente chega após anos - por vezes décadas - de investigação. Muitos casos ficam numa zona cinzenta: nem aprovados, nem condenados, simplesmente deixados a desvanecer.

Como a genética forense testa estas alegações

O caso de Trevignano oferece um encontro invulgar entre espiritualidade e ciência. A genética forense, geralmente usada em cenas de crime, casos de pessoas desaparecidas ou identificação de vítimas de catástrofes, está agora concentrada no rosto de uma estátua.

Etapa O que os investigadores procuram
Recolha de amostras Passar uma zaragatoa na estátua com cuidado para evitar contaminação e preservar quaisquer vestígios biológicos.
Extração de ADN Isolar material genético da substância seca semelhante a sangue.
Comparação de perfis Comparar o perfil genético com o de indivíduos conhecidos, como Cardia.
Análise de mistura Verificar se está presente ADN de mais do que uma pessoa na amostra.

Para os crentes, estes testes podem parecer uma intrusão em território sagrado. Para os investigadores, são apenas uma forma de verificar se a ação humana - e não a intervenção divina - explica o que as pessoas viram.

Entre fé, fraude e experiência psicológica

Casos como este também levantam questões difíceis sobre psicologia. Algumas pessoas, em torno de alegadas aparições, relatam experiências intensas: ver luz, sentir perfume, experimentar cura física. Outras ficam convencidas de sinais mesmo quando confrontadas com evidência contraditória.

Psicólogos apontam para fenómenos como a sugestão e a expectativa. Uma multidão predisposta para um milagre pode interpretar acontecimentos comuns de forma simbólica, ou recordá-los de maneira mais dramática do que realmente ocorreram. Nada disso prova ou refuta alegações religiosas, mas influencia a forma como os eventos são vividos e relatados.

Para quem se pergunta como abordar histórias deste tipo, alguns hábitos práticos podem ajudar:

  • Perguntar quem controla as doações e como o dinheiro é usado.
  • Procurar verificação independente em vez de depender apenas de testemunhos de um único grupo.
  • Atentar na posição de autoridades religiosas reconhecidas, que muitas vezes têm longa experiência com alegações disputadas.
  • Manter espaço tanto para a fé como para as perguntas, sem precipitar-se nem para a crença nem para a rejeição.

Termos-chave que moldam o debate

Várias palavras técnicas deverão reaparecer à medida que a investigação de Trevignano avance. Compreendê-las ajuda a perceber o que está, de facto, a ser testado.

Perfil de ADN: um conjunto de marcadores genéticos que identifica uma pessoa de forma única, algo como uma impressão digital biológica. Quando as autoridades dizem que o perfil é “sobreponível” ao de Cardia, querem dizer que parece corresponder de perto ao seu padrão genético.

Perfil misto: um resultado de ADN que mostra material genético de mais do que uma pessoa. Isto pode acontecer se várias pessoas tocarem ou sangrarem no mesmo objeto. Interpretar misturas pode ser difícil e, por vezes, deixa margem para debate.

Geneticista forense: um especialista que aplica a genética a questões legais, desde processos de paternidade a casos de homicídio. Neste caso, a mesma competência usada em crimes graves está a ser usada para avaliar um alegado milagre.

À medida que se aproxima o prazo de fevereiro para o relatório de ADN, peregrinos, céticos e responsáveis eclesiásticos estarão todos atentos. Os resultados não resolverão discussões antigas sobre Deus e ciência, mas decidirão se uma devoção mariana moderna se mantém como um ato de piedade mal compreendido ou como um caso passível de acusação construído sobre lágrimas de sangue.

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