O último tomate da estação era pequeno e estava um pouco rachado, a aguentar-se como se não tivesse recebido o recado sobre o outono.
Lembro-me de estar ali, com uma camisola grossa, o bafo a fazer nevoeiro no ar, a olhar para o caos que eu tinha ignorado com prazer todo o verão: canas inclinadas, folhas a amarelecer, ferramentas meio enterradas, baldes de composto ressequido.
As primeiras pingas de chuva começaram e eu fiz o que fazia sempre em outubro.
Entrei em pânico, agarrei em alguns vasos, enfiei coisas no barracão e disse a mim própria que “tratava disso na primavera”.
A primavera nunca concordou com esse plano.
Este ano, quando a época de jardinagem terminou, tentei uma coisa diferente.
E quando a luz voltou, tudo pareceu… mais leve.
Estranhamente mais leve.
Porque é que a minha antiga forma de acabar a estação tornava a primavera miserável
Durante anos, tratei o fim da época de jardinagem como o fim de uma festa comprida: despedidas apressadas, uma arrumação feita sem convicção e, depois, apagar as luzes.
Em novembro, os canteiros pareciam um campo de batalha de caules mortos e estruturas caídas, e eu fechava o portão com aquele encolher de ombros culpado de “depois trato disso”.
A primavera expunha sempre essa mentira.
Eu saía lá para fora em março com uma pá e uma chávena de café, cheia de motivação.
Dez minutos depois, estava a olhar para a confusão, discretamente esmagada.
Uma manhã particularmente cinzenta de março ainda me mora na cabeça.
A terra estava fria e pegajosa, cheia de raízes antigas e cordéis de tomate meio apodrecidos.
Tentei arrancar uma estaca de metal enferrujada e ela partiu-se-me na mão, atirando-me para trás para um tufo de urtigas viscosas.
Lembro-me de ficar ali sentada, enlameada e irritada, a pensar: “Porque é que eu-do-passado odiava tanto eu-do-futuro?”
Nesse dia passei mais tempo a limpar detritos do que a plantar fosse o que fosse.
Não entrou nenhuma semente na terra: só sacos de lixo para o contentor e um humor a descer, devagar, a pique.
Olhando para trás, a lógica era simples e brutal.
Tudo o que eu adiava em outubro transformava-se numa barreira em março.
A terra fria já é difícil de enfrentar; a terra fria enterrada sob plantas velhas, cordéis emaranhados e ferramentas “misteriosas” é quase hostil.
A minha energia está no máximo no início de uma estação.
Quando essa energia é devorada por uma limpeza básica, a primavera perde a magia e transforma-se numa lista de tarefas.
Quando percebi que o meu “outono preguiçoso” estava a roubar a minha “primavera esperançosa”, nunca mais consegui deixar de ver isso.
Os pequenos rituais de outono que mudaram a minha primavera
A mudança não começou com um grande plano, só com uma regra pequena: eu-do-futuro merece um portão de jardim acolhedor na primavera.
Por isso, criei um ritual simples de outono.
Primeiro, faço uma volta pelo jardim com um balde e um caderno.
Tudo o que está partido vai para o balde; tudo o que me deixa confusa vai para o caderno.
Depois, arranco as anuais secas, dou uma poda ligeira às perenes e deixo algumas cabeças de semente para os pássaros.
Não procuro perfeição.
Procuro “limpo o suficiente para que eu-de-março não pragueje entre dentes”.
Um hábito mudou tudo: agora agrupo as ferramentas e os suportes como se estivesse a fazer a mala para uma viagem.
Gaiolas de tomate juntas, canas de bambu juntas, fio e molas numa caixa transparente, etiquetas num frasquinho.
Nada de especial - só tudo no mesmo sítio, à vista, em vez de espalhado como confettis.
No último outubro, até tirei mais dez minutos para lavar a lama das ferramentas com a mangueira e limpar as lâminas.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias.
Mas quando abri o barracão em abril e vi ferramentas limpas e secas penduradas em fila, senti uma onda quase ridícula de gratidão pela eu-do-passado.
Uma amiga jardineira disse-me uma vez uma coisa que ficou comigo.
“Pensa no outono como o teu aperto de mão silencioso com a próxima primavera.
Não estás a fechar o jardim, estás a preparar o palco.”
Por isso, escrevi uma checklist pequena e colei-a na porta do barracão:
- Arrancar as anuais secas; deixar perenes saudáveis e algumas cabeças de semente
- Empilhar e agrupar suportes: gaiolas, estacas, treliças
- Limpar e secar as ferramentas essenciais antes de as guardar
- Espalhar uma camada leve de composto nos canteiros vazios
- Escrever 3–5 notas sobre o que resultou e o que falhou
Nada disto é revolucionário.
Mas fazer estes poucos gestos em outubro transformou março de “uff, por onde é que eu começo?” em “ok, vamos brincar”.
O que mudou na primavera - e o que mudou silenciosamente em mim
Quando a primavera chegou depois desse primeiro “novo” outono, a diferença foi quase estranha.
Abri o portão e o jardim não parecia uma reprimenda.
Os canteiros estavam quase limpos, as ferramentas estavam onde eu esperava, e não havia montes misteriosos de “qualquer coisa” a apodrecer em cada canto.
Reparei que andava mais devagar.
Olhava mais à volta.
Em vez de listar mentalmente todo o trabalho, já estava a imaginar plântulas nos espaços que tinha deixado prontos meses antes.
A maior surpresa foi a rapidez com que eu conseguia, de facto, começar.
No primeiro fim de semana ameno, passei o ancinho de leve, verifiquei a terra e semeei ervilhas antes do almoço.
Sem uma sessão épica de destralhar, sem três horas à procura do sacho de mão, sem o adiamento “para a semana começo a sério”.
Esse sucesso cedo fez uma coisa sorrateira à minha motivação.
De repente, confiei em mim para continuar, porque o jardim parecia um parceiro, não um castigo.
A estação começou com uma vitória, não com um suspiro.
Houve outra mudança que eu não esperava: comecei a sentir-me menos culpada, tanto como jardineira como como pessoa que não consegue “fazer tudo”.
Jardins perfeitos são para catálogos, não para quintais.
O meu tem dentes-de-leão, projetos a meio e um compostor um bocadinho demasiado cheio.
Mas o novo ritual de outono deu-me uma sensação de continuidade tranquila.
Não controlo, não mestria - apenas um fio simpático entre estações.
Continuo a esquecer-me de coisas, continuo a perder etiquetas e, de vez em quando, uma ferramenta passa o inverno debaixo de um arbusto.
Ainda assim, o ritmo geral parece mais gentil agora - como se eu tivesse deixado de começar do zero em todas as primaveras.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Reinício suave no outono | Limpeza leve, cuidados básicos com ferramentas, notas simples | Reduz a sensação de sobrecarga quando a nova estação começa |
| Agrupar e arrumar com inteligência | Manter suportes, ferramentas e etiquetas juntos e visíveis | Poupa tempo e frustração no início da primavera |
| Pensar no teu eu-do-futuro | Agir no outono com a energia da primavera em mente | Torna a jardinagem mais fácil, mais alegre e sustentável |
FAQ:
- Quando devo começar a “encerrar” a época de jardinagem? Começa quando as noites arrefecem e o crescimento abranda de forma evidente - normalmente do fim de setembro ao início de novembro, dependendo do teu clima. Não precisas de um único fim de semana grande; algumas sessões curtas funcionam bem.
- Tenho de limpar todas as plantas secas? Não. Remove as plantas doentes e tudo o que esteja realmente a atrapalhar. Deixa algumas cabeças de semente e caules saudáveis para a vida selvagem e para dar estrutura.
- Qual é o mínimo que devo fazer antes do inverno? Se tiveres pouco tempo, foca-te em três coisas: remover material doente, agrupar ferramentas e suportes de forma básica e adicionar uma camada de composto ou cobertura morta nos canteiros principais.
- Vale a pena limpar ferramentas se forem baratas? Sim. Até as ferramentas mais simples duram mais e funcionam melhor quando são limpas e secas. Ferramentas mais afiadas e sem ferrugem tornam as tarefas de primavera fisicamente mais fáceis.
- Como mantenho o hábito todos os anos? Escolhe um ritual anual simples: um fim de semana específico, um lembrete no calendário ou um “dia de fechar o jardim” partilhado com uma amiga. Ações pequenas e repetíveis vencem esforços heroicos e pontuais.
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