Porque é que os agachamentos voltaram subitamente à conversa sobre dor no joelho
Durante anos, muita gente com dor no joelho ouviu a mesma regra: “não dobre muito”. O problema é que evitar a flexão para sempre muitas vezes mantém a perna fraca e o joelho “hipersensível” a tarefas normais (escadas, levantar-se de uma cadeira, entrar no carro).
A ideia que está a ganhar espaço não é “agachar cura tudo”. É mais simples: o joelho adapta-se à carga, desde que a dose e a forma façam sentido. Em muitos casos, o que melhora a dor não é um exercício “suave”, mas sim recuperar capacidade nos padrões do dia a dia - sentar/levantar, agachar para apanhar algo do chão, subir degraus.
O que isto muda na prática:
- Evitar amplitude pode ajudar numa fase aguda, mas manter a limitação por meses/anos pode reduzir força e confiança.
- Agachamentos controlados treinam quadríceps, glúteos e isquiotibiais, que ajudam a estabilizar o joelho e a distribuir carga.
- A articulação e a cartilagem respondem a movimento e compressão moderada; o risco costuma vir de picos de carga (muito fundo, muito peso, muita repetição, demasiado cedo).
Porque a opinião médica está dividida? Porque “agachamento” pode significar coisas muito diferentes: peso corporal vs. barra pesada, parcial vs. profundo, com boa técnica vs. colapsos, e principalmente tolerável vs. a doer a sério. A nuance manda.
Regra útil: avaliar a reação nas 24 horas seguintes costuma ser mais fiável do que julgar apenas a sensação durante a repetição.
O protocolo de “agachamento controverso” que alguns especialistas defendem agora
Não é o agachamento “heroico” do ginásio. É um regresso progressivo à flexão do joelho com controlo, apoio e dose certa.
Começo típico (2–3 vezes/semana, 10–15 minutos):
1) Sentar e levantar de uma cadeira (altura confortável)
2) Descida lenta (2–3 segundos) + pausa curta a meio (“pairar”)
3) Aumentar amplitude aos poucos (cadeira mais baixa, mais controlo, depois carga leve)
Pontos de técnica que costumam reduzir irritação:
- Pés um pouco mais afastados que as ancas, peso no “tripé do pé” (calcanhar, base do dedo grande e do mindinho).
- Joelhos a seguir a direção dos dedos dos pés (evitar “cair para dentro”).
- Tronco ligeiramente inclinado, sem “cair” no fundo; sem balanço.
- Respirar normal (não prender a respiração, sobretudo se tiver tensão arterial alta).
Dor: em reabilitação, muitas equipas aceitam desconforto leve e controlado (por exemplo, até 3/10) se:
- não for dor aguda/pontiaguda,
- não houver sensação de bloqueio/“engate”,
- e não houver agravamento claro no dia seguinte (mais dor, rigidez marcada, inchaço).
Erros comuns que estragam o plano:
- Fazer “muito, já”: 3×20 todos os dias, ou voltar diretamente ao agachamento profundo.
- Aumentar duas coisas ao mesmo tempo (mais profundidade e mais repetições e mais carga).
- Ignorar o sinal mais importante: joelho inchado/quente depois.
Progressão realista (regra de bolso): mude apenas uma variável por semana (mais 2–3 repetições ou um pouco mais fundo ou um peso leve). Deixe 48 horas entre sessões no início, se o joelho for reativo.
Quando adiar (não “banir para sempre”):
- joelho quente e inchado,
- lesão recente,
- dor noturna forte, incapacidade de suportar peso, ou bloqueio verdadeiro (não dobra/estica).
“Os agachamentos não são o vilão. O vilão é a carga descontrolada. Com progressão, o agachamento ensina o joelho a tolerar a vida real.”
Entre o medo e o progresso: encontrar a sua própria linha com os agachamentos
O ponto de equilíbrio raramente é “nunca dobrar” ou “agachar a fundo custe o que custar”. É descobrir a sua linha entre proteção e progresso - e ajustá-la semana a semana.
Estratégias simples que costumam funcionar:
- Defina um mínimo sustentável (ex.: 2 sessões/semana) antes de pensar no “ideal”.
- Use o critério “melhor igual amanhã”: se a sua função (escadas, caminhar, levantar-se) piora no dia seguinte, reduza amplitude/volume.
- Se tiver dias maus, mude para uma versão mais fácil (cadeira mais alta, apoio com mãos, menos repetições) em vez de parar tudo.
E mantenha o pragmatismo: há situações em que precisa mesmo de avaliação clínica (por exemplo, trauma, instabilidade, bloqueio, inchaço recorrente). Mas, para muita dor mecânica crónica, reconstruir tolerância com carga progressiva tende a ser mais útil do que viver em “meio-agachamento” para sempre.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Os agachamentos não são automaticamente “maus” | Depende de carga, técnica, amplitude e reação nas 24 horas seguintes | Menos medo, mais controlo sobre o que o joelho tolera no dia a dia |
| O que costuma falhar é a dose | Picos de volume/profundidade/carga e pouca recuperação irritam mais do que o movimento em si | Evita recaídas e a sensação de “isto piora sempre” |
| A melhor versão é a que consegue repetir | Começar com cadeira, apoio e descida lenta costuma ser mais seguro do que perseguir profundidade | Progresso consistente, com menos drama e mais confiança |
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