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Nivea: "Sou dermatologista e analisei a famosa fórmula do creme azul. Eis a minha opinião sincera."

Mulher de bata branca aplica creme Nivea com espátula, sob luz natural num espaço de trabalho.

A primeira vez que uma paciente tirou da mala uma lata azul amolgada de Nivea Crème, fê-lo com a mesma reverência que algumas pessoas reservam para séruns de luxo. A lata fez clique ao abrir, aquela pasta branca espessa brilhou sob a luz fria da clínica e o cheiro talcado e familiar voltou, como se viesse de mil casas de banho de avós.

Nesse momento, percebi que estava perante mais do que um hidratante. Estava perante memórias de infância, rituais de família e a sensação de “isto sempre resultou connosco”.

Por isso, fiz o que os dermatologistas fazem quando não têm a certeza absoluta: voltei à fórmula, linha a linha, ingrediente a ingrediente.

E o que encontrei não foi bem o que a maioria das pessoas espera.

A lata azul da Nivea: o que está realmente dentro desse creme lendário?

Comecemos pela aura à volta deste produto. A Nivea Crème na lata azul não é apenas um creme - é uma personagem na vida de muita gente. Vive em casas de banho, malas, mesas de cabeceira, naquela gaveta aleatória da cozinha com tesouras e pilhas antigas.

Para algumas das minhas pacientes, é a resposta para tudo: mãos secas, calcanhares gretados, bochechas de inverno, até “creme de olhos nos dias em que estou cansada”. Há uma segurança estranha naquela textura densa, ligeiramente pegajosa. Sabe a old-school, a sério, como algo que não evapora em dois minutos e não nos deixa a pensar se pusemos mesmo alguma coisa.

Uma mulher nos seus cinquenta anos disse-me que usa a Nivea azul desde os 14. “A minha mãe usava, a minha avó também. Nenhuma de nós tinha rugas”, disse, meio a brincar, meio a desafiar-me. Usava-a como creme de noite no rosto, no pescoço, nas mãos. Sentiu-se quase culpada quando admitiu que tinha comprado um sérum caro de ácido hialurónico “só para experimentar”.

Quando fizemos uma avaliação simples da pele, a pele estava, na verdade, em boa forma: um pouco desidratada, um pouco congestionada em certas zonas, mas protegida, resistente. É o tipo de história que faz as pessoas dizerem: “Estão a ver? Resulta - vocês, dermatologistas, é que complicam tudo.”

Então, o que diz a fórmula quando tiramos a nostalgia da equação? A Nivea Crème é uma emulsão clássica água-em-óleo. Ou seja, uma fase externa oleosa que aprisiona água no interior. A textura vem sobretudo de óleo mineral (paraffinum liquidum), petrolato (vaselina) e ceras. Estes ingredientes são oclusivos: ficam à superfície e reduzem a perda de água da pele.

Do ponto de vista técnico, é um creme-barreira muito eficiente. Nada de sofisticado, nada de “clean beauty”, nada de “natural”. Apenas um desenho antigo, robusto, de laboratório - criado muito antes de termos termos de marketing como “microbioma” e “glass skin”.

Bom, mau, ou algures no meio? O veredito honesto de uma dermatologista

Se olharmos para a fórmula com olhos profissionais, as primeiras coisas que saltam à vista são os oclusivos: óleo mineral, petrolato, cera microcristalina. Não “nutrem” a pele no sentido romântico; protegem-na fisicamente. Formam um filme que reduz a perda transepidérmica de água - uma forma mais complicada de dizer: a sua pele perde menos água para o ar.

Hidrata? Indiretamente, sim. Mas o creme não coloca “uma tonelada” de água dentro da pele; na maioria, bloqueia a água que já lá está. Pense mais num casaco do que num sumo verde.

Depois vêm os humectantes e emolientes. A glicerina, um clássico, puxa água para as camadas superiores da pele. Alguns álcoois gordos e lípidos amaciam e alisam a superfície. Em algumas versões há também pantenol, que pode acalmar. Mas não espere ativos da moda: não há vitamina C, não há retinol, não há niacinamida.

A Nivea Crème não é um creme de tratamento. Não é direcionada para manchas, acne ou flacidez. É um hidratante básico e funcional. Isso é, ao mesmo tempo, parte do seu encanto e do seu limite.

E depois chegamos aos ingredientes que geram debate: fragrância, conservantes e os tão criticados óleos minerais. Como dermatologista, não demonizo o óleo mineral por defeito. Em cosmética é altamente purificado, estável, pouco irritante para muita gente e muito eficaz na reparação da barreira cutânea. Onde podem surgir problemas é em pele com tendência acneica, muito oleosa ou muito reativa. A textura pode parecer sufocante e, em algumas pessoas, pode contribuir para poros obstruídos.

A fragrância - aquele cheiro nostálgico a Nivea - é outra história. Para quem tem pele sensível ou com tendência a eczema, a fragrância está no topo da lista de potenciais desencadeadores de irritação. Isto não significa que toda a gente vá reagir, mas também não é um detalhe neutro.

Quem pode realmente usar o creme Nivea azul… e como?

Aqui vai a frase mais direta: a Nivea da lata azul é muito melhor como creme de corpo do que como creme de rosto diário para a maioria das pessoas.

Em cotovelos secos, canelas, calcanhares, mãos “em carne viva” de tanta lavagem ou vento frio, brilha. Aplique sobre a pele ligeiramente húmida depois do banho, quando ainda há alguma água à superfície. Aqueça primeiro uma pequena quantidade entre as mãos e depois pressione e espalhe suavemente. Ao início vai sentir-se denso; depois vai derreter lentamente e criar aquela película protetora.

Usada assim, comporta-se como um bom casaco de inverno para a barreira da pele.

No rosto, a história muda. Para pele muito seca, não sensível e sem tendência acneica, usada ocasionalmente à noite, pode funcionar como uma máscara de emergência. Mas se tem tendência acneica, pele mista a oleosa, rosácea ou eczema no rosto, este creme espesso e oclusivo pode ser “demais”. Pode aprisionar suor, sebo, bactérias e irritantes mais perto da pele.

Muitas pessoas também esfregam com força, a pensar “tem de penetrar”. Esta aplicação agressiva pode romper pequenos vasos, irritar pele já stressada e criar aquele aspeto vermelho, brilhante e repuxado que ninguém quer. Seja suave: dê toques, alise, não esfregue a sua própria cara.

Como costumo dizer às minhas pacientes: “A Nivea Crème não é um inimigo nem um milagre. É uma ferramenta. O segredo é usar a ferramenta certa na superfície certa, no momento certo.”

  • Ótimas utilizações para o creme Nivea azul
    Máscara de mãos durante a noite com luvas de algodão; em calcanhares gretados com meias; em canelas secas no inverno; como camada protetora nas mãos antes de limpar a casa ou lavar a loiça.

  • Utilizações que só recomendo de forma seletiva
    Camada ocasional à noite, estilo “slugging”, no rosto - mas apenas para pele muito seca, sem tendência acneica, e por pouco tempo (por exemplo, após um fim de semana de ski com frio intenso ou após doença).

  • Utilizações em relação às quais sou cautelosa
    Hidratante facial diário para pele oleosa ou com tendência acneica; “creme de olhos” em pálpebras sensíveis; ou por cima de ativos fortes como retinóides em pessoas que entopem com facilidade.

  • Ideias de combinação inteligente
    Um sérum hidratante mais leve por baixo e depois um véu fino de Nivea para selar essa hidratação - especialmente no corpo ou em bochechas muito secas.

  • Sinais de alerta a vigiar
    Ardor, comichão, novas borbulhinhas pequenas, mais pontos negros, ou vermelhidão persistente após usar no rosto. É o sinal para parar e repensar.

Então… deve manter a sua lata azul ou deitá-la fora?

A resposta honesta é: depende do que espera dela. Se, secretamente, está à espera que este creme barato e icónico substitua uma rotina bem pensada, trate o envelhecimento, desbote manchas e acalme a acne, está a pedir-lhe um trabalho para o qual nunca foi desenhado. A desilusão é quase garantida.

Se o encarar como um creme-barreira simples, à moda antiga, para zonas secas, mãos, corpo e momentos SOS ocasionais, de repente passa a fazer muito mais sentido. Até pode tornar-se “querido”.

Todos já passámos por isso: um produto que nos lembra alguém de quem gostávamos e que guardamos só por essa razão. A lata azul da Nivea vive nesse espaço emocional para muita gente. E isso é válido - desde que não confundamos emoção com evidência.

Pode gostar do cheiro, da textura, do ritual, e ainda assim proteger a sua pele com fórmulas mais ajustadas às necessidades de hoje - não às de há cinquenta anos.

Não temos de “cancelar” este creme nem coroá-lo como milagre. Há um caminho do meio: ele mantém o seu lugar na prateleira, só que não num pedestal. Talvez passe para a mesa de cabeceira como salvador de mãos e pés. Talvez saia do seu rosto e fique nas pernas. Talvez o ofereça a alguém que adora aquele deslizar pesado e reconfortante.

A sua pele vai dizer-lhe mais verdade do que o marketing, a nostalgia ou até a sua dermatologista. Só tem de aprender a ouvir.

Ponto-chave Detalhe Valor para a leitora/o leitor
A fórmula é altamente oclusiva Baseada em óleo mineral, petrolato e ceras que reduzem a perda de água Ajuda a decidir quando é ótima (zonas muito secas) e quando pode ser pesada demais
Melhor para o corpo, não para o rosto no dia a dia Resulta bem em mãos, pés, cotovelos, canelas; mais arriscada em rostos com acne ou sensíveis Evita borbulhas e irritação, mantendo o benefício onde ela é forte
Fragrância e textura contam O cheiro icónico e a sensação espessa são agradáveis para uns, desencadeantes para outros Permite ajustar o produto à sua tolerância e conforto

FAQ:

  • A Nivea da lata azul é segura para o rosto?
    Para muita gente, sim, mas não a recomendo como creme facial diário para toda a gente. Pode ser aceitável em pele muito seca e sem tendência acneica como máscara noturna ocasional, enquanto peles oleosas ou sensíveis podem reagir com poros obstruídos ou irritação.

  • A Nivea Crème causa acne?
    Não é formulada para ser comedogénica “de propósito”, mas a textura muito oclusiva pode contribuir para poros entupidos em pele com tendência acneica. Se notar mais pontos negros ou borbulhas após usar no rosto, não é a opção certa para si.

  • O óleo mineral na Nivea é prejudicial?
    O óleo mineral de grau cosmético é altamente purificado e, em dermatologia, é frequentemente usado em produtos para pele sensível. O problema é menos “toxicidade” e mais textura e oclusão: pode ser pesado ou sufocante para alguns tipos de pele.

  • Posso usar o creme Nivea azul como creme de olhos?
    Sou cautelosa com isso. A zona ocular é fina e muitas vezes sensível, e a fragrância juntamente com a textura pesada pode levar a irritação ou a mílias (pequenos pontos brancos) em algumas pessoas. Um produto de olhos mais leve e sem fragrância costuma ser mais seguro.

  • A lata azul é boa para anti-envelhecimento?
    Protege a barreira e pode reduzir a desidratação, o que indiretamente suaviza o aspeto de linhas finas. Mas não contém ativos anti-envelhecimento comprovados como retinóides ou certos péptidos. Pense nela como um creme de conforto, não como um tratamento anti-idade completo.

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