A aula de aqua-gym de terça-feira de manhã tinha acabado de terminar quando ela passou pela piscina. Cabelo prateado preso num carrapito solto, batom ligeiramente torto, saco de ginásio coberto de autocolantes de viagens. Parou para elogiar a tatuagem de uma jovem, riu-se dos próprios joelhos doridos e depois apressou-se, dizendo que estava atrasada para o ensaio do coro. Tinha 77 anos. Ninguém no balneário desviou o olhar e pensou “coitadinha”. Sussurraram: “Espero ser assim quando for mais velha.”
Já conheceste pessoas como ela. As que não fingem ter 30, mas, de alguma forma, parecem incrivelmente vivas aos 70, 75, 80. O segredo delas não é uma coisa só. É um conjunto de pequenos hábitos teimosos que se recusam a largar.
Alguns podem surpreender-te.
1. Continuam a fazer planos que vão além da próxima semana
Muita gente chega aos 70 e muda discretamente para o modo de curto prazo. Consultas médicas, aniversários dos netos, a próxima viagem - se ainda houver energia. O horizonte encolhe sem que ninguém se aperceba. As pessoas que fazem os outros dizer “Espero ser assim” fazem algo diferente. Mantêm um futuro.
Ainda marcam viagens para o próximo ano. Inscrevem-se em cursos que duram 10 meses. Plantam árvores que talvez nunca vejam totalmente crescidas. O calendário pendurado na cozinha tem rabiscos e círculos em meses que muita gente já nem se dá ao trabalho de folhear. Essa visão longa muda tudo.
Vê o caso do Luís, 72, que decidiu aprender italiano “a sério desta vez” e inscreveu-se num curso nocturno de dois anos. A filha tentou demovê-lo. “Pai, dois anos é muito na tua idade.” Ele encolheu os ombros e disse: “Dois anos vão passar quer eu vá às aulas quer não.”
E por isso vai. Duas vezes por semana, autocarro e tudo. Tropeça nos verbos, esquece vocabulário, faz piadas sobre o sotaque. No ano passado, os colegas - a maioria na casa dos 30 - ofereceram-lhe uma pequena bandeira italiana no aniversário. Ele chorou a meio da sala de aula. Não por causa da bandeira. Porque percebeu que ainda pertencia a uma tribo orientada para o futuro.
Planear com antecedência mantém o cérebro esticado e a identidade ancorada em “quem me estou a tornar”, e não apenas em “quem eu era”. Quando deixas de te projectar no futuro, os outros, inconscientemente, deixam de o fazer por ti. Começam a falar de ti no passado, mesmo que estejas ali mesmo.
Projectos de prazo mais longo também dão aos teus dias uma estrutura que vai além da sobrevivência. Um concerto daqui a seis meses, um projecto de jardinagem, um desafio criativo, um compromisso de voluntariado. Todos enviam a mesma mensagem silenciosa às pessoas à tua volta: ainda não acabei. E essa mensagem é magnética.
2. Continuam a aprender coisas totalmente novas (e a ser maus nelas)
Os septuagenários que as pessoas admiram ainda estão dispostos a ser iniciantes. Não sábios especialistas em tudo. Iniciantes a sério, desajeitados. Inscrevem-se numa aula de olaria e o primeiro vaso parece uma caneca derretida. Compram um teclado barato e aprendem uma escala com a mão esquerda como uma criança. Não estão a tentar provar que “ainda são jovens”. Estão apenas a recusar deixar a curiosidade enferrujar.
Este recomeçar constante mantém-nos mentalmente elásticos. Impede-os de falarem apenas sobre “o tempo deles” e mantém-nos interessados no tempo em que realmente estão a viver.
Há uma mulher na minha biblioteca local, 74, a aprender programação. Brinca dizendo que ainda escreve a lista das compras em papel, mas lá está ela, às terças de manhã, a mover blocos coloridos num ecrã como uma adolescente. O neto ajudou-a a instalar uma plataforma simples de desenvolvimento de jogos. O acordo foi: ela aprendia e ele testava os jogos.
A primeira tentativa bloqueou o computador. A segunda encravou. À terceira, fez um joguinho pequeno e parvo em que um gato persegue uma fatia de queijo. O neto jogou durante 20 minutos seguidos, a rir. Essa gargalhada partilhada veio da disponibilidade dela para ser má em público.
As pessoas sentem-se atraídas por adultos mais velhos que continuam a ser estudantes da vida porque isso sinaliza que ainda se estão a actualizar, e não a correr num sistema operativo mental antigo. Aprender algo novo não precisa de ser vistoso ou impressionante; só precisa de estar vivo.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Há cansaço, semanas más, dores nas costas. A questão não é a consistência digna de uma app de produtividade. A questão é que, de vez em quando, entras voluntariamente numa situação em que não sabes o que estás a fazer. Essa humildade, misturada com coragem, faz com que os 70 pareçam menos um fim e mais um meio estranho e interessante.
3. Continuam a ter um estilo próprio (mesmo que seja só nas meias)
Dão nas vistas do outro lado da sala: o homem na casa dos setenta com ténis vermelho vivo e uma t-shirt de jazz antiga. A mulher com brincos enormes e caracóis cinzentos que se recusa a pintar. As pessoas que envelhecem de uma forma que os outros admiram não desaparecem no bege. Mantêm algum toque visível, teimoso.
Não precisa de gritar por atenção. Só precisa de dizer: “Ainda estou aqui. Isto sou eu.” O estilo passa a ser menos sobre moda e mais sobre um pequeno acto diário de auto-respeito.
Conheço uma professora reformada de 79 anos cujo “tema” são os lenços. Seda, lã, os baratos de feira, os de família. Usa-os no supermercado, em consultas médicas, a regar as plantas. A neta diz: “Se a avó aparecer sem lenço, entro em pânico.”
Esses lenços tornaram-se um fio entre gerações. No 75.º aniversário, os filhos fizeram um álbum de fotografias com “os lenços da avó ao longo dos anos”. Vê-se o tempo a passar, sim, mas também uma mulher que nunca aceitou a ideia de que envelhecer significava neutralizar-se visualmente.
Quando manténs um estilo reconhecível, dás aos outros algo por que esperar. Um toque de cor nas fotografias de família. Um detalhe que as crianças vão imitar quando crescerem. E também te lembras de que o teu corpo, mesmo com cicatrizes e dores, continua a ser uma tela com a qual tens direito de brincar.
O estilo aos 70 tem menos a ver com esconder os anos e mais com escolher como te apresentas neles. Essa decisão silenciosa irradia mais do que qualquer creme anti-rugas.
4. Continuam a dizer “sim” a convites (mesmo quando preferiam ficar em casa)
As pessoas que todos, no segredo, querem parecer aos 70 raramente são as que têm a dieta mais saudável ou as análises perfeitas. São as que continuam a aparecer. Um copo de aniversário de que saem mais cedo. Um churrasco do vizinho. Um filme tarde em que provavelmente vão dormir uma sesta. Continuam a dizer “sim” só um pouco mais vezes do que “não”.
Isto não significa ignorar limites reais. Significa tratar o isolamento como algo que se vai insinuando se não estiveres atento - e recusar deixá-lo.
Todos já passámos por isso: já estás com roupa confortável, o sofá está quente, e alguém liga: “Vamos sair, queres vir?” Aos 72, esses momentos podem definir anos inteiros. Um homem que conheci num centro comunitário contou-me que tem uma regra: se estiver fisicamente capaz e não envolver um autocarro nocturno, o “sim” é a resposta por defeito.
Um desses pequenos “sins” levou-o a um coro comunitário. Nunca tinha cantado. Três anos depois, é o que o ajuda a atravessar o inverno. Duas vezes por semana, um motivo para passar uma camisa a ferro, aquecer a voz, queixar-se do maestro. Os netos adultos foram ao último concerto e sussurraram aquela frase: “Espero ser como ele quando for mais velho.”
Dizer “sim” não é estar infinitamente disponível para toda a gente. É defender uma vida social que ainda tem surpresas. O erro que muitos cometem aos 70 é acreditar que a sua presença já não importa muito. Então recusam convites “para não incomodar”.
A verdade simples é: a tua presença muitas vezes levanta a sala mais do que pensas. O teu riso, as tuas histórias, a tua calma. Quando continuas a sair pela porta, as pessoas vêem-te como alguém ainda em jogo, e não a assistir das bancadas. Essa energia é contagiosa.
5. Continuam a cuidar do corpo como se fosse equipamento alugado que querem devolver inteiro
Ninguém espera que uma pessoa de 70 anos corra maratonas. As pessoas que fazem os outros dizerem “Espero ser assim” fazem algo mais pé no chão. Tratam o corpo como precioso e imperfeito, e continuam a mexê-lo na mesma. Uma caminhada diária, alongamentos suaves de manhã, alguns exercícios de equilíbrio enquanto a chaleira ferve.
Não perseguem fitness extremo. Perseguem independência. Subir escadas sem medo. Transportar as próprias compras. Levantar-se do chão depois de brincar com um bebé, mesmo que seja preciso fazer um pouco mais de força.
Há um homem de 81 anos num pequeno ginásio na minha terra. Não levanta cargas pesadas nem publica selfies. Vai três vezes por semana, faz prensa de pernas devagar, sobe e desce com cuidado uma plataforma baixa, pedala na bicicleta estática durante dez minutos. Brinca com o treinador sobre a sua “máquina velha”.
Um dia, um membro mais novo perguntou-lhe porque é que se dava a esse trabalho. Ele respondeu: “Não estou a treinar para ficar bem. Estou a treinar para conseguir pegar na minha bisneta quando ela corre para mim.” Essa resposta correu o ginásio inteiro. De repente, os pesos leves dele pareceram mais pesados do que os de toda a gente.
Cuidar do corpo aos 70 tem menos a ver com evitar todas as dores e mais a ver com enviar uma mensagem a ti próprio: ainda valho o esforço. As pessoas notam. As crianças notam quando és o avô ou a avó que ainda se senta no chão. Os amigos notam quando és tu que sugeres uma caminhada curta em vez de mais uma hora sentado.
“Move-te todos os dias como se estivesses a praticar para o tipo de velhice que realmente gostarias de viver.”
- Movimento diário suave - nem que sejam 10 minutos
- Treino de equilíbrio - ficar num pé só perto de uma cadeira
- Força para a vida real - pernas, costas, preensão
- Descanso tão a sério como o exercício
- Check-ups regulares, sem heroísmos, sem negação
6. Continuam curiosos em relação a pessoas mais novas
Os septuagenários que, discretamente, se tornam lendas nas famílias não falam apenas para os mais novos. Falam com eles. Perguntam que jogo estão a jogar, que música os obceca, o que detestam na escola ou no trabalho neste momento. Ouvem sem transformar cada resposta num “No meu tempo…”
Essa curiosidade mantém uma ponte aberta. Diz às gerações mais novas: “O teu mundo importa para mim, mesmo que eu não o compreenda totalmente.”
Vi uma avó de 76 anos sentar-se na beira do sofá a ver o neto adolescente a fazer scroll em vídeos. Ele revirou os olhos ao início. Ela não fingiu conhecer as apps. Só disse: “Mostra-me o que te fez rir mais esta semana.” Ele mostrou. Depois outro. E outro.
No fim, tinham meia dúzia de piadas internas baseadas em memes que ela não entendia por completo, mas aceitava. Meses depois, foi a ela que ele trouxe primeiro novidades sobre a vida, porque ela tinha provado que estava disposta a entrar no universo dele em vez de o puxar para fora.
A curiosidade em relação aos mais novos protege-te do amargor. Impede-te de te tornares um comentador do “que está mal com os jovens de hoje”. Não tens de adorar todas as tendências. Só tens de te manter suficientemente aberto para fazer mais uma pergunta.
Ser esse avô, vizinho ou amigo mais velho que se senta e ouve de verdade é uma forma silenciosa de rebelião contra a solidão. E é exactamente o tipo de comportamento de que as pessoas se lembram quando dizem: “Espero mesmo ser assim quando for mais velho.”
7. Continuam a permitir-se sonhar sonhos pequenos e estranhos
Há uma coisa que quase ninguém diz em voz alta sobre envelhecer: nem todos os sonhos desaparecem - muitos apenas ficam mais discretos. E talvez seja isso que os torna mais verdadeiros. Não precisas de querer escrever um bestseller ou atravessar o mundo de mochila às costas. Podes querer aprender a fazer pão decente, decorar uma varanda minúscula como se fosse um jardim secreto, ou memorizar os nomes das constelações para as reconhecer numa noite limpa.
Sonhos pequenos não são ambição a menos; são intimidade a mais. São uma forma de dizer “ainda tenho preferências”, “ainda me apetece descobrir”, “ainda tenho uma versão de mim que não conheço”. Às vezes são estranhos - coleccionar pedras da praia, construir casinhas para pássaros, aprender a dançar um estilo que ninguém à tua volta dança. Mas é precisamente essa estranheza que devolve leveza: ninguém está a avaliar, ninguém está a esperar resultados.
Se te permitires um sonho pequeno, talvez encontres uma porta nova. E, do outro lado, a vida continua a mexer.
| Key point | Detail | Value for the reader |
|---|---|---|
| Manter um futuro | Planear com meses ou anos de antecedência com viagens, cursos ou projectos | Protege a identidade de encolher para “pessoa velha” e mantém a vida com propósito |
| Manter-se iniciante | Começar regularmente actividades novas e ligeiramente desconfortáveis | Mantém flexibilidade mental e coragem emocional |
| Aparecer | Dizer “sim” mais vezes a convites sociais | Evita o isolamento silencioso e fortalece ligações significativas |
FAQ:
- Não é tarde demais para mudar hábitos aos 70? A neurociência mostra que o cérebro mantém plasticidade ao longo de toda a vida; pequenas mudanças constantes aos 70 ainda podem remodelar o teu dia-a-dia e a forma como os outros te percepcionam.
- E se a minha saúde limitar a maior parte das actividades? Foca-te no que ainda é possível, não no que se perdeu: um telefonema, movimento suave, aulas online, ou simplesmente estar emocionalmente presente podem fazer de ti “essa pessoa” que os outros admiram.
- Sinto-me ridículo(a) a começar algo novo na minha idade. É normal? Absolutamente; o desconforto é um sinal de que estás a alongar a tua identidade - e é exactamente isso que te mantém vibrante e interessante para ti e para os outros.
- E se a minha família não for muito presente ou viver longe? Grupos comunitários, clubes, vizinhos, comunidades de fé ou espaços online podem tornar-se o teu círculo; a admiração não tem de vir apenas de familiares.
- Como começo se me sinto preso(a) e cansado(a) a maior parte dos dias? Começa com uma micro-acção: uma caminhada de 5 minutos, um telefonema, uma inscrição numa aula; o impulso tende a seguir o primeiro passo mais pequeno e gentil possível.
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