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Obcecar-se com ferver alecrim para purificar a casa é ridículo e mostra como as pessoas se tornaram crédulas.

Mulher a plantar alecrim em vaso na cozinha, com luz natural.

O tacho já fervia há quinze minutos quando o cheiro finalmente tomou conta de todo o apartamento. Não era o aroma reconfortante de um assado de domingo ou de um caldo a apurar, mas uma nuvem herbal, cortante, de alecrim - tão forte que me fazia arder os olhos. A minha amiga pairava sobre o fogão como se estivesse a conduzir um ritual, telemóvel pousado no balcão, vídeo do TikTok em pausa no fotograma que prometia: “Ferve esta erva e a tua casa ficará purificada de más energias.”

Ela não estava a brincar. Já tinha aberto todas as janelas “para deixar sair a negatividade” e murmurava qualquer coisa que soava suspeitamente a um feitiço. O gato observava do sofá, profundamente pouco impressionado.

Eu olhava para a água a borbulhar, o alecrim a escurecer, e um pensamento não me saía da cabeça.

Quando é que ficámos todos tão crédulos?

Quando o alecrim se transforma numa varinha mágica

Passeia por qualquer supermercado e vês o alecrim sentado calmamente na secção das ervas aromáticas, com ar inocente. Vai para as batatas, esfrega-se no frango, entra numa marinada. Sensato, perfumado, normal. Mas algures entre o corredor das especiarias e as redes sociais, esta planta humilde foi promovida a aspirador espiritual.

As pessoas agora ficam de pé sobre tachos a ferver como sacerdotes diante de um caldeirão, convencidas de que o vapor e o cheiro vão expulsar todas as más vibrações que nem a pintura do senhorio conseguiu resolver. A cena fica poética nos Stories do Instagram. Na vida real, é só condensação e um fogão ligeiramente pegajoso.

Faz scroll durante dois minutos no TikTok e vais bater no nicho dos “truques holísticos para a casa”. Manifestação com velas, rituais de canela à porta e, agora, “limpezas” com água de alecrim. Um vídeo viral soma três milhões de visualizações num fim de semana. Uma rapariga sorri para a câmara, sussurra sobre antepassados e energia, atira um punhado de ervas para um tacho e, de repente, metade dos comentários está a planear “repor a vida inteira” com coisas do corredor cinco.

Falei com uma inquilina em Londres que agora ferve alecrim todos os domingos à noite. Jura que isso a ajuda a “começar a semana fresca”. Quando lhe perguntei o que é que muda de facto, ela hesitou e disse: “Bem… pelo menos sinto que estou a fazer alguma coisa.” Essa frase diz mais do que qualquer afirmação mística.

O que se está a vender aqui não é alecrim. É controlo. A vida parece caótica, a habitação é cara, o trabalho é instável e o ciclo de notícias é um ataque de ansiedade permanente. Um tacho de ervas a ferver parece gerível, tangível, apaziguador. A ciência fica enevoada e é substituída por “vibes” e “energia” mascaradas de sabedoria.

É assim que a superstição é reembalada como autocuidado. Pegas numa ação normal e inofensiva, juntas-lhe linguagem espiritual vaga e, de repente, as pessoas convencem-se de que estão a reprogramar a existência inteira com vapor de cozinha. Não é só ridículo. Revela o quanto andamos desesperadamente à procura de soluções fáceis para desconfortos complexos.

A linha ténue entre ritual e manipulação

Não há nada de errado com pequenos rituais. Acende uma vela, arruma a sala, abre as janelas, diz uma intenção tranquila para a tua semana. Estes gestos pequenos ajudam-nos muitas vezes a abrandar e a prestar atenção. O problema começa quando trocamos o conforto simples por uma crença absoluta.

Se queres que a tua casa se sinta melhor, começa por algo com pés na terra. Limpa as superfícies que tens ignorado. Deita fora a planta meio morta no canto. Areja as divisões a sério, não apenas uma frincha educada de cinco minutos no inverno. Depois, se ainda te apetecer, atira algum alecrim para um tacho pelo cheiro. Só não finjas que estás a fazer cirurgia ao universo.

A maior armadilha é terceirizares o teu bom senso para estranhos no feed. Um criador com voz suave, luzes de fada ao fundo e uma cozinha perfeita é muito persuasivo. Fala de “toxinas” e “frequências negativas” sem nunca explicar o que essas palavras significam. Estás cansado, a fazer scroll na cama, e parece mais fácil obedecer do que questionar.

Sejamos honestos: ninguém lê realmente os estudos que eles mencionam na legenda. Olhamos para a estética, sentimos um puxãozinho de esperança e carregamos em “guardar para mais tarde”. E depois acabamos de pé em frente ao fogão à meia-noite, a perguntar porque é que a nossa vida não ficou magicamente transformada por uma erva que custa 1,99.

Há ainda uma pressão mais silenciosa e subtil: o medo de seres o único que não acredita. A tua amiga partilha o ritual do alecrim; outra pessoa publica sobre “limpeza energética” depois de um desgosto amoroso. Não queres soar cínico ou “fechado”, então alinhas. Pouco a pouco, o ceticismo começa a parecer um risco social.

Um psicólogo com quem falei foi direto:

“Os rituais podem acalmar a ansiedade, mas quando as pessoas começam a acreditar que o ritual em si tem poder sobrenatural, tornam-se mais fáceis de vender, mais fáceis de assustar e mais fáceis de controlar.”

O padrão é sempre o mesmo:

  • Dizem-te que a tua casa está “energeticamente suja”.
  • Oferecem-te uma solução simples com linguagem mística.
  • Empurram-te para produtos extra, cursos ou leituras de que ontem não precisavas.

O que começou por ferver uma erva transforma-se discretamente numa porta de entrada para toda uma indústria construída em cima do teu mal-estar.

Então o que é que ajuda mesmo uma casa a sentir-se “limpa” e sensata?

Se a tua casa parece pesada, começa pelo passo menos místico e mais aborrecido: olha à tua volta. Aquele canto cheio de correio por abrir? Aquela cadeira enterrada em roupa? Essas são fontes reais de ruído mental. Escolhe uma área minúscula e faz reset. Só uma. Não a casa toda, não uma remodelação de vida - apenas aquele sítio.

Depois usa os sentidos de um modo que não finja reescrever o destino. Abre as janelas mais do que normalmente te atreves. Põe música de que gostavas na adolescência. Lava os copos que ficaram no lava-loiça a semana inteira. Uma casa muda não porque uma planta ferveu, mas porque o teu comportamento mudou, nem que seja um pouco.

Se gostas do cheiro a alecrim, trata-o como aquilo que é: um aroma, não um feitiço. Junta um ramo a legumes no forno. Infunde-o em azeite. Ferve-o se adoras mesmo esse ambiente de “spa num apartamento barato”. A chave é seres honesto sobre causa e efeito.

O erro em que muita gente cai é esperar que ervas, cristais ou fumo consertem coisas que pertencem a uma conversa, a um consultório médico ou a um caderno. Sentes-te sozinho em casa? Nenhum vapor resolve isso. Stressado com dinheiro, trabalho ou uma relação? Toda a “limpeza” do mundo não substitui uma conversa difícil ou um novo orçamento. Podes gostar de rituais e, ainda assim, dizer em voz alta que são simbólicos, não sobrenaturais.

A certa altura, tens de decidir que tipo de adulto queres ser. Aquele que coleciona hacks e amuletos, ou aquele que os usa conscientemente, sem abdicar do julgamento.

“Subestimamos o quão poderoso é admitir: não sei se isto faz alguma coisa, mas cheira bem e acalma-me, e isso chega.”

Aqui vai uma checklist simples e com os pés na terra para manteres a cabeça limpa:

  • Pergunta “quem lucra?”
    Se alguém te está a vender um kit, um curso ou uma leitura ligada ao teu medo, faz uma pausa.
  • Separa conforto de cura
    Um ritual pode acalmar o teu humor. Não pode consertar a tua vida.
  • Mantém a linguagem honesta
    Diz “isto ajuda-me a relaxar”, não “isto apaga a má energia das minhas paredes”.

Estas pequenas mudanças mentais são menos sexy do que um vídeo viral, mas protegem discretamente a tua sanidade.

Viver entre ciência e superstição sem perder a cabeça

O cérebro humano adora histórias. Quer causa e efeito, padrões, pequenas explicações de bastidores para porque é que as coisas parecem fora do lugar. É por isso que o conteúdo “alecrim num tacho” se espalha tão depressa: oferece uma resposta arrumadinha e cinematográfica a um desconforto sem forma. Não tens de enfrentar a tua situação de habitação, os teus hábitos, as tuas relações. Só ferver, respirar, acreditar.

Todos já estivemos aí: aquele momento em que a vida parece ligeiramente fora de controlo e qualquer coisa que prometa um reset de repente parece sagrada. O truque não é gozar com a necessidade, mas questionar a embalagem. Podes desfrutar do ritual e manter uma voz interior tranquila que diz: “Isto é para mim, não para o universo.”

Há um tipo de ceticismo mais gentil que não revira os olhos, não envergonha, mas também não se curva a cada “dica energética” que passa num ecrã. Soa a: “Isto ajuda-me mesmo… ou só me dá a ilusão de que estou a fazer alguma coisa?” Às vezes a resposta continua a ser sim, e está tudo bem. Outras vezes, notas o vazio por trás da tendência.

Quanto mais os nossos feeds se enchem de limpezas místicas, águas curativas e utensílios domésticos mágicos, mais valioso se torna manter-se ligeiramente pouco impressionado. Não frio, não cínico. Apenas discretamente indisposto a entregar o pensamento crítico a um estranho com boa iluminação.

Da próxima vez que sentires cheiro a alecrim a vapor da cozinha do vizinho, pode ser só jantar. Ou pode ser outro ser humano à procura de uma forma de se sentir um pouco mais seguro num mundo que, na maioria dos dias, não faz sentido.

Talvez a verdadeira “purificação” de que precisamos não esteja no ar. Está na nossa capacidade de fazer perguntas simples, de rir de nós próprios quando exageramos, de desfrutar de pequenos rituais sem os coroar como milagres. Uma casa sente-se melhor quando a habitamos por inteiro, não quando terceirizamos a sua alma para ervas a ferver e áudios em tendência.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Ritual vs. realidade Ferver alecrim muda o humor e o cheiro, não o destino Ajuda a evitar confundir conforto simbólico com soluções reais
Necessidade emocional As “limpezas” da moda nascem da ansiedade e do desejo de controlo Permite aos leitores compreender a própria atração por estas práticas
Alternativas com os pés na terra Destralhar, arejar, reflexão honesta, ceticismo gentil Oferece formas práticas de se sentir melhor em casa sem pensamento mágico

FAQ:

  • Ferver alecrim traz algum benefício real em casa?
    Pode deixar a casa a cheirar a fresco e ajudar-te a relaxar, tal como qualquer aroma de que gostes, mas não “remove más energias” num sentido sobrenatural.
  • É perigoso acreditar nestes rituais de limpeza?
    Por si só, não. Torna-se um problema quando começas a usar rituais em vez de lidar com questões reais como saúde, dinheiro ou relações.
  • Rituais destes ainda podem ser úteis se eu souber que não são magia?
    Sim. Se os vires como simbólicos, podem marcar transições, acalmar-te ou ajudar-te a abrandar os pensamentos sem fingir fazer milagres.
  • Como é que sei se um “truque espiritual para a casa” é só um esquema?
    Procura linguagem baseada no medo, afirmações vagas e a venda constante de produtos ou sessões pagas ligadas aos teus supostos “problemas energéticos”.
  • O que devo fazer em vez de me obcecar com tendências de purificação?
    Foca-te no básico: espaços limpos, circulação de ar, luz, conversas que tens adiado e hábitos que apoiem de facto a tua saúde mental e física.

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