O cão viu-me primeiro.
Pequeno, cor de caramelo, a puxar o humano pelo passeio como se a vida dependesse de farejar um candeeiro muito específico. Fiz o que faço sempre: aquele meio-sorriso meio-careta parvo, ombros descontraídos, e um aceno instintivo como se estivesse a cumprimentar um velho amigo do outro lado de um café.
O cão ficou imóvel, cabeça inclinada, orelhas levantadas. A dona não. Atirou-me aquele sorriso apertado que as pessoas da cidade reservam para desconhecidos nos transportes públicos. Por um segundo perguntei-me: porque raio estou eu a acenar ao cão de outra pessoa como uma educadora de infância a fazer roda?
Depois, a voz de uma amiga psicóloga saltou-me para a cabeça.
“Os teus comportamentos com cães dizem mais sobre a tua personalidade do que pensas.”
Essa frase não me larga desde então.
O que o teu hábito de acenar a cães na rua diz discretamente sobre ti
Quando começas a reparar, já não consegues deixar de ver.
Em qualquer rua movimentada, há três tipos de pessoas: as que ignoram totalmente os cães, as que sorriem de forma constrangida para o dono, e as que prendem o olhar no cão e derretem de imediato como manteiga em tosta quente.
Os psicólogos divertem-se imenso com esse último grupo.
Porque aquele acenozinho, aquele “olááá, amigo!” em voz aguda para o labrador de um estranho, não é só querido. Pode dar pistas sobre a tua relação com limites, com atenção e até com a forma como lidas com rejeição no dia a dia.
Alguns terapeutas dizem que é um reflexo de gentileza.
Outros perguntam-se, em silêncio, se é algo um pouco mais inquietante.
Peguemos na Anna, 34 anos, que se descreve como “patologicamente pró-cão”.
Bate no peito como um tambor quando vê um golden retriever do outro lado da estrada, acena a todos os corgis que passam e guarda biscoitos no casaco “para o caso de ser preciso”. Um dia, o namorado filmou-a numa rua cheia: ela acenou a seis cães em menos de dois minutos.
Quando mostrou o vídeo à terapeuta como piada, a conversa mudou de rumo.
Começaram a falar sobre porque é que ela acha os animais mais fáceis de abordar do que as pessoas, porque se sente mais segura a ser notada por cães do que por desconhecidos e com que frequência usa estes pequenos momentos com cães para evitar o constrangimento do contacto visual humano.
Afinal, o seu reflexo de “aaaw, cachorro!” tinha raízes em ansiedade, necessidade de agradar e um desconforto profundo com o silêncio.
Os psicólogos apontam que acenar espontaneamente a cães pode estar ligado a traços em ambos os extremos do espectro.
De um lado: calor humano, abertura, extroversão, até empatia elevada. Do outro: limites difusos, procura de atenção e uma recusa silenciosa em respeitar que nem todos os seres vivos existem para servir de snack emocional.
É aqui que muitos leitores começam a contorcer-se.
Porque, se fores honesto, talvez te reconheças na pessoa que usa cães como atalhos emocionais, contornando completamente o dono.
Sejamos sinceros: ninguém pensa, naquele segundo, “estou agora a revelar o meu estilo de vinculação ao cumprimentar este schnauzer”.
Mas, segundo vários clínicos, é exatamente isso que pode estar a acontecer, à vista de todos, todos os dias.
Como cumprimentar cães sem ultrapassar linhas invisíveis
Há um método simples e respeitoso que os especialistas em comportamento canino repetem vezes sem conta, e que a maioria de nós ignora.
Passo um: olha para o humano, não para o cão. Um olhar rápido, aberto. Talvez um sorriso pequeno, interrogativo. Esse é o teu “pedido de consentimento”.
Passo dois: espera meio segundo. Se a pessoa desviar o olhar, apertar a trela ou continuar a andar, essa é a tua resposta.
Se abrandar, sorrir ou disser algo como “pode dizer olá”, só então mudas suavemente o foco para o cão.
Nada de guinchos agudos do outro lado da rua.
Nada de dedos a abanar-se na cara do cão enquanto o dono fica tenso.
Muitas pessoas que acenam a cães desconhecidos não estão a tentar ser mal-educadas.
Estão a desejar uma gota de alegria simples num dia confuso. Todos já estivemos aí, naquele momento em que uma cauda a abanar parece uma máscara de oxigénio depois de uma reunião longa e sufocante.
O erro comum é esquecer que os cães não são máquinas de venda de emoções.
Alguns estão ansiosos, outros em treino, outros a recuperar de trauma. Aquele aceno alegre que te parece inofensivo pode ser estimulante demais, stressante ou até desencadeador para o animal.
Os donos veem isto constantemente: pessoas a agacharem-se sem pedir, a bater palmas, a chamar “Anda cá, rapaz!” enquanto o cão está ativamente a tentar evitar contacto.
É aí que o teu traço “simpático” começa a parecer mais uma sensação de direito.
“Sempre que um estranho guincha para o meu cão a três metros de distância, acha que está a mostrar amor”, diz Clara, treinadora de cães em Londres. “O que eu vejo, na verdade, é alguém a anunciar que a sua necessidade de se sentir bem vem antes da necessidade do meu cão se sentir seguro.”
Investigadores e terapeutas costumam repetir três perguntas simples que podem mudar por completo a tua abordagem a cães que não conheces:
- Estou a ver este cão como um indivíduo, ou como um botão genérico de felicidade?
- Estou a perguntar primeiro ao humano, ou a tratá-lo como alguém que só segura a trela lá atrás?
- Estou preparado para aceitar um “não” sem sentir que estou a ser rejeitado pessoalmente?
Esses pequenos testes mentais não matam a alegria.
Apenas impedem que a tua gentileza descambe para algo discretamente egoísta.
O reflexo desconfortável por detrás daquele acenozinho querido
Quando reparas no teu próprio padrão com cães, podes começar a notar a história mais profunda por baixo.
A pessoa que nunca reconhece animais pode não ser fria; pode ter sido mordida em criança. A que só fala com o dono e mal olha para o cão pode ser rígida com regras sociais, muito investida em fazer as coisas “como deve ser”.
E depois há o acenador de cães, o querido do passeio.
A pessoa que se ilumina com cada cauda a abanar, mas fica tensa com desconhecidos. A que consegue tagarelar para um beagle durante três minutos seguidos e depois murmurar um “tchau” apressado para o humano na outra ponta da trela.
É nessa diferença que os psicólogos se inclinam.
Perguntam se estamos a usar os animais como um palco seguro onde podemos ensaiar afeto sem arriscar rejeição adulta.
Para alguns, isso é inofensivo e até curativo.
Para outros, revela uma espécie de narcisismo suave: a crença de que as boas intenções chegam, que sentir amor equivale a ser respeitador. É aí que a parte inquietante se infiltra - e onde alguns leitores não vão gostar de se reconhecer.
Porque, se perceberes que és a pessoa que acena a todos os cães mas ignora o desconforto do dono, não te podes esconder atrás de “eu só adoro animais”.
Tens de admitir que a tua necessidade de te sentires “uma boa pessoa que gosta de cães” às vezes atropela os limites de outra pessoa.
E para os leitores que nunca interagem com cães, também há um espelho.
O que é que essa recusa diz sobre confiança, espontaneidade ou sobre o quão firmemente controlas a tua própria vulnerabilidade em espaços públicos?
Este pequeno micro-gesto, quase ridículo, na rua acaba por ser uma ferramenta de diagnóstico surpreendentemente afiada.
Não um teste formal, claro. Mais como um teste de Rorschach diário com pelo: um reflexo ambulante de como (não) te ligas aos outros.
Da próxima vez que vires um cão a trotar ao teu lado, cauda a balançar, há uma escolha.
Acenas de longe, perguntas ao dono, ou sorris para ti e segues caminho?
Nenhum desses comportamentos é puro bem ou puro mal.
Mas cada um diz algo sobre a forma como geres desejo, consentimento, atenção e rejeição no caos selvagem da vida urbana.
Algumas pessoas vão ler isto e encolher os ombros.
Outras vão lembrar-se do último spaniel a quem guincharam na plataforma do metro - e sentir uma pequena picada de culpa.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Acenar a cães é um sinal social | Cumprimentar cães desconhecidos pode revelar conforto com limites, atenção e rejeição | Ajuda os leitores a reconhecer padrões escondidos no comportamento do dia a dia |
| O consentimento importa, mesmo com animais | Olhar primeiro para o dono e ler a linguagem corporal protege cão e humano | Oferece um método simples para ser simpático sem ultrapassar linhas invisíveis |
| O teu estilo diz algo sobre ti | Ignorar cães, falar só com donos, ou focar só os cães reflete traços diferentes | Convida à reflexão sobre a personalidade sem moralismos |
FAQ:
- É errado acenar a cães que não conheço? Não automaticamente. O essencial é para onde vai a tua atenção e se respeitas os sinais do dono e do cão. Um sorriso rápido e primeiro contacto visual com o humano costuma ser um ponto de partida mais seguro.
- Quais são os sinais de que um cão não quer a minha atenção? Procura um corpo rígido, cauda entre as pernas, orelhas para trás, lamber os lábios, bocejar, ou o cão a esconder-se atrás do dono. Afastar-se ou evitar contacto visual são sinais clássicos de “não, obrigado”.
- O meu gosto por cumprimentar cães pode estar ligado à ansiedade? Para algumas pessoas, sim. Por vezes, terapeutas veem um foco intenso em cães como uma forma de evitar interações humanas desconfortáveis ou de procurar afeto seguro e de baixo risco.
- Como posso cumprimentar cães de forma mais respeitosa? Pergunta primeiro ao dono, aproxima-te devagar pela lateral, deixa o cão vir até ti e mantém a voz calma. Se o humano ou o cão parecerem tensos, limita-te a sorrir e segue em frente.
- E se eu nunca sentir vontade de interagir com cães? Isso não significa automaticamente que haja algo “errado”. Pode refletir história pessoal, contexto cultural ou simplesmente o teu nível de conforto. O interessante é notar a tua reação, não julgá-la.
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