A mulher na fila do supermercado parecia bem. Casaco arranjado, auriculares, a deslizar no telemóvel como toda a gente. Depois a caixa comentou qualquer coisa sobre limites do cartão e, do nada, os olhos encheram-se-lhe de lágrimas. Riu para disfarçar, murmurou um pedido de desculpa, limpou a cara com a manga. Dois minutos depois estava lá fora, a andar depressa, a respirar curto, com aquela máscara do “está tudo bem” colada de novo.
Por fora, era só mais um adulto cansado numa tarde de terça-feira.
Por dentro, carregava mais do que qualquer pessoa conseguia ver.
A maioria das pessoas à volta dela não fazia ideia.
Provavelmente ela também não.
Porque é que pessoas emocionalmente esticadas raramente veem o quadro completo
Uma das coisas mais estranhas da sobrecarga emocional é o quão silenciosa pode parecer. Sem grande colapso, sem gritos, sem uma saída dramática de uma reunião. Apenas um sorriso um pouco mais tenso, um rastilho mais curto, um corpo que parece estar a andar através de cola.
Quando se vive assim durante semanas ou meses, começa a parecer normal. A tua linha de base muda. Chamas-lhe “muito trabalho”, “uma fase complicada”, “só cansaço”. Deixas de reparar que os teus ombros nunca baixam de verdade.
A sobrecarga esconde-se dentro da rotina.
Pensa no dia normal de alguém que se sente esticado até ao limite, mas ainda “a funcionar”. Acorda com um telemóvel cheio de mensagens e alertas. Prepara as crianças, responde a um email do trabalho enquanto faz as lancheiras, lembra-se de uma conta que se esqueceu de pagar, ensaia mentalmente uma conversa difícil no caminho.
No trabalho, a pressão é constante mas invisível. O tom de um colega magoa. Um prazo é antecipado. As notícias apitam com mais uma crise. A pessoa continua a dizer: “Sim, sem problema”, enquanto o peito aperta. Depois vem o jantar, a roupa, o voicemail de um pai doente, a mensagem de um amigo a perguntar: “Tens um minuto?”
O dia acaba a fazer scroll na cama, com os olhos a arder, a cabeça ainda a correr. Chama a isso “desligar”.
Os psicólogos descrevem isto muitas vezes como viver em “modo de sobrevivência”. Quando o teu sistema nervoso fica em alerta máximo durante demasiado tempo, deixa de assinalar cada fator de stress como algo novo. Junta tudo numa névoa contínua e desfocada. Não reparas em quantos separadores estão abertos no teu cérebro.
A tua mente começa, em silêncio, a cortar as tuas próprias necessidades. Com fome, mas sem tempo. Cansado, mas só mais um email. Magoado, mas não é assim tão grave. Normalizas o peso contando histórias a ti próprio: “Há quem esteja pior”, “Eu devia conseguir lidar com isto”, “Isto é só ser adulto”.
O resultado é cruel. Quanto mais carregas, menos sentes que tens autorização para dizer que estás a carregar seja o que for.
Como finalmente ver o que estás a segurar
Um gesto simples, quase aborrecido, pode mudar tudo: dar nome ao que estás a carregar, em voz alta. Não na tua cabeça, não como um vago “estou stressado”, mas linha a linha, como se estivesses a desfazer uma mala.
Pega num pedaço de papel ou numa app de notas e escreve: “O que é que eu tenho mesmo em cima neste momento?” Depois lista tudo sem filtrar. Tarefas, emoções, preocupações, pessoas, expectativas. “Discussão em curso com a minha irmã.” “Medo de estar a falhar no trabalho.” “Sem tempo sozinho há três semanas.”
Continua até sentires uma pequena faísca de “Uau”. Esse é o momento em que a carga invisível começa a tornar-se visível.
Muitas pessoas evitam este exercício porque têm medo de que piore as coisas. Estão convencidas de que, se olharem de perto, vão desfazer-se. Por isso continuam a meio fôlego, a agarrar-se à semana com os nós dos dedos brancos, a esperar que o próximo mês seja mais calmo.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. A vida anda depressa, e parar para te encontrares no papel sabe a estranho ao início. Podes julgar a tua lista. Podes minimizá-la. Podes até sentir culpa por escrever “sozinho” quando o calendário está cheio.
Essa resistência faz parte da sobrecarga. Protege o sistema fingindo que não se passa nada.
Às vezes, a frase mais corajosa que podes dizer é: “Eu não estou bem e não sei por onde começar.”
Diz isso de formas pequenas e seguras
Conta a uma pessoa de confiança uma coisa concreta: “Estou mais cansado do que tenho deixado transparecer.” Não a tua história toda. Só um fio.Usa “e”, não “mas”
“Eu adoro a minha família e estou sobrecarregado.” As duas coisas podem ser verdade. Isto suaviza a auto-culpa que te mantém calado.Verifica o teu corpo, não o teu calendário
A tua agenda pode dizer que estás “livre”. O maxilar, as costas e a respiração podem contar outra história. Acredita primeiro no corpo.Pede emprestadas palavras se não tiveres nenhumas
Diz: “Sinto-me esticado”, “Está tudo pesado”, ou “Ultimamente não me sinto eu.” Palavras imperfeitas também contam.Deixa que alguma coisa fique aquém do teu melhor
Responde com um email mais curto. Compra um jantar congelado. Cancela o café não essencial. Isto não é falhar. Isto é ar.
Viver com menos peso escondido
Há um momento silencioso, muitas vezes num dia qualquer, em que percebes que não podes continuar a sprintar através da tua própria vida. A máscara começa a incomodar. A frase “estou bem” sabe a areia na boca. Reparas que te esqueceste de como é sentir verdadeira leveza.
A partir daí, a curiosidade ajuda mais do que o julgamento. Em vez de perguntares “O que é que há de errado comigo?”, tenta “O que é que eu estou a carregar que nunca nomeei?” Olha para a tua semana como olharias para a de um amigo: com bondade, com contexto, com aquela sensação de “Não admira que estejas exausto.”
Todos já lá estivemos - aquele momento em que percebes que o modo de sobrevivência, de alguma forma, se tornou a tua definição por defeito.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Ver a carga invisível | Listar tarefas, emoções e preocupações revela pressão escondida | Ajuda a explicar porque estás tão drenado, sem auto-culpa |
| O modo de sobrevivência é traiçoeiro | Estar esticado torna-se “normal”, e os sinais de stress são ignorados | Dá linguagem ao burnout subtil antes de explodir |
| Pequenas honestidades mudam tudo | Verdades curtas e concretas partilhadas com outros criam espaço para respirar | Torna mais fácil pedir ajuda e ajustar expectativas |
FAQ:
- Pergunta 1 Como é que sei se estou emocionalmente esticado e não apenas “um bocadinho cansado”?
- Pergunta 2 E se eu listar tudo o que estou a carregar e isso me parecer esmagador?
- Pergunta 3 Como é que falo sobre isto sem sentir que me estou a queixar?
- Pergunta 4 Estar emocionalmente esticado pode transformar-se em burnout?
- Pergunta 5 Qual é uma pequena coisa que posso fazer hoje para me sentir mais leve?
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