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Se estás mentalmente lúcido mas emocionalmente inquieto, a psicologia explica esta divisão interna.

Pessoa a brincar com cordão vermelho, caderno e caneta na mesa, chá fumegante ao lado e cartas de baralho espalhadas.

Estás à tua secretária, caixa de entrada sob controlo, lista de tarefas impecavelmente organizada. O teu cérebro sente-se afiado, estranhamente eficiente. Respondes a e-mails, resolves pequenos problemas, acenas durante reuniões. À superfície, estás “bem”. E, no entanto, por baixo desta calma polida, há algo a zumbir. Uma inquietação silenciosa. Um nó na garganta que nunca chega bem a ser choro.

Fechas o portátil e, em vez de te sentires orgulhoso/a ou aliviado/a, sentes-te… estranho/a. Não partido/a, não a desmoronar. Apenas subtilmente desalinhado/a, como uma estação de rádio quase na frequência certa, mas ainda cheia de estática.

A tua mente está clara. As tuas emoções são uma tempestade que não consegues bem localizar.

E essa divisão não é aleatória.

Quando a tua cabeça está no rumo certo, mas o teu coração fica para trás

Há um conforto estranho em estar mentalmente afiado/a. Consegues pensar para sair de situações embaraçosas, planear a semana, até fazer uma piada no chat do grupo. Por fora, tudo parece organizado. Por dentro, porém, o painel emocional está a piscar a vermelho. Sabes que há algo errado, mas não consegues dar-lhe um nome.

Todos já passámos por isso: aquele momento em que alguém pergunta “Como estás?” e o teu cérebro responde “Objectivamente? Bem”, enquanto uma parte silenciosa de ti sussurra “Não muito”. É nesse espaço entre as duas vozes que a psicologia coloca a divisão interna.

Imagina a Léa, 32 anos, gestora de projectos, de alto desempenho em qualquer padrão. Alimenta-se bem, faz exercício, dorme o suficiente. No trabalho, os colegas chamam-lhe “a âncora”. Raramente entra em pânico, tem sempre um plano B. O calendário está codificado por cores, as notas são impecáveis.

E, no entanto, todas as noites a caminho de casa, sente uma espécie de peso a instalar-se. Não tristeza, exactamente. Mais como uma saudade vaga de um lugar de que não se consegue lembrar. Desliza no telemóvel, vê as notícias, preenche o silêncio. Quando o/a parceiro/a lhe pergunta se se passa algo, o cérebro procura uma razão lógica e não encontra nenhuma. “Não, estou só cansada”, responde. E uma pequena parte dela não acredita no que acabou de dizer.

Os psicólogos chamam a este desfasamento entre clareza cognitiva e agitação emocional uma forma de “incongruência”. O teu eu pensante e o teu eu sentinte processam a vida a velocidades diferentes. A mente categoriza, racionaliza, fecha dossiers. O sistema emocional move-se mais devagar, como um corpo que ainda vibra depois de o carro já ter parado.

Por vezes, esta divisão aparece após períodos intensos: rupturas, burnout, doença, grandes mudanças que “aguentaste bem”. Outras vezes, constrói-se em silêncio ao longo de anos a ser a pessoa responsável, a pessoa racional, a pessoa que não “exagera”. O cérebro aprende a ir à frente, enquanto as emoções ficam para trás, não convidadas mas ainda vivas. É nesse espaço que o mal-estar cresce.

Como “voltar a ligar os cabos” entre pensamentos e sentimentos, com suavidade

Uma forma simples de começares a fechar essa distância é passares da análise para a descrição. Não “Porque é que me estou a sentir assim?”, mas “O que é que está exactamente a acontecer dentro de mim, agora?” Essa pequena mudança altera tudo. Senta-te, pega num caderno ou abre a app de notas e escreve uma frase que comece com: “No meu corpo, noto…” Depois continua.

Talvez notes a mandíbula tensa, um zumbido no peito, uma sensação oca no estômago. Mantém-te ao nível da sensação, sem interpretações por agora. A tua mente vai querer entrar e explicar. Deixa-a esperar. Estás a dar o microfone ao teu sistema emocional, pela primeira vez, na linguagem dele.

A maior armadilha quando te sentes mentalmente claro/a mas emocionalmente inquieto/a é fazeres gaslighting a ti próprio/a. “Há quem esteja pior.” “Não tenho motivos para me sentir assim.” “Estou só a ser dramático/a.” Esse tipo de comentário interno não faz as emoções desaparecerem. Só as empurra para o esconderijo. E elas voltam mais tarde como ansiedade, insónia, irritabilidade súbita, ou aquele vazio vago que não consegues bem situar.

Uma abordagem empática parece-se mais com: “A minha vida parece estar bem no papel e, mesmo assim, alguma coisa dói. As duas coisas podem ser verdade.” Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, sempre. A maioria de nós espera até o nó no peito ser grande demais para ignorar. Ser mais gentil contigo começa por aceitares que as tuas emoções não precisam de um processo jurídico para serem válidas.

Às vezes, a mente acaba a história muito antes de o coração ter tempo de ler a primeira página.

  • Nomeia a divisão
    Chama-lhe o que ela é: “Os meus pensamentos dizem uma coisa, as minhas emoções dizem outra.” Só dar um nome a isto já reduz a vergonha.
  • Abranda o ritmo do teu dia
    Dá espaço ao teu eu emocional para recuperar terreno. Pode ser uma caminhada de 10 minutos sem telemóvel, ou duas músicas no escuro com os olhos fechados.
  • Usa uma pergunta de ancoragem
    Pergunta a ti próprio/a: “Se os meus sentimentos pudessem falar numa frase completa agora, o que diriam?” Escreve a primeira resposta que aparecer.
  • Partilha a “versão desarrumada” com uma pessoa segura
    Não a história polida, mas a dispersa. Ser ouvido/a interrompe o isolamento que alimenta a divisão interna.
  • Considera ajuda profissional se a divisão parecer constante e pesada
    Terapia não significa que estás quebrado/a. Significa que estás cansado/a de viver com um eco interior permanente.

Viver com uma divisão interna sem deixá-la comandar a tua vida

O objectivo não é tornares-te alguém que se sente sempre perfeitamente alinhado/a. Isso é uma fantasia. A vida real é mais confusa. Haverá dias em que a tua mente está no trabalho enquanto as tuas emoções ainda estão presas à discussão da semana passada ou à perda do ano passado. A verdadeira mudança acontece quando deixas de tratar esse desfasamento como um fracasso pessoal e começas a vê-lo como informação valiosa.

Um estado emocional inquieto dentro de uma mente clara e lógica é, muitas vezes, sinal de que as tuas necessidades mais profundas não estão bem no quadro: descanso, sentido, ligação, reconhecimento, até luto que nunca teve espaço suficiente. Essa inquietação não é um inimigo; é uma luz de aviso no painel.

Podes reparar, por exemplo, que sentes esta divisão sobretudo aos domingos ao fim do dia, ou logo a seguir a eventos sociais. Ou que se intensifica quando te elogiam por seres “forte” ou “tão composto/a”. Isso são pistas. Apontam para partes de ti que ficam fora de cena: a parte cansada, a parte desiludida, a parte que não quer ser adulta o tempo todo.

Se conseguires ficar curioso/a em vez de julgador/a, a divisão interna torna-se um ponto de partida e não um veredicto. Podes perguntar: o que é que estou a aceitar logicamente com o qual não estou emocionalmente bem? Que decisão é que o meu cérebro arquivou, mas o meu corpo ainda está a contestar? A vida não fica magicamente mais fácil, mas fica mais honesta. E a honestidade, mesmo quando dói, tende a acalmar o sistema nervoso mais do que fingir.

Com o tempo, pequenos gestos repetidos reeducam o teu sistema. Fazer uma pausa antes de dizer “Estou bem.” Permitir uma onda de tristeza sem a explicares logo. Ajustar uma coisa pequena na rotina quando aquela inquietação vaga aparece, em vez de forçar automaticamente.

Talvez nunca apagues por completo a distância entre a cabeça e o coração. Mas podes aprender a caminhar por esse corredor interior com as luzes acesas, consciente de ambos os lados. Essa consciência não promete uma vida perfeitamente serena. Oferece algo mais silencioso e talvez mais precioso: a sensação de que, mesmo quando estás inquieto/a, estás pelo menos completamente do teu lado.

Ponto-chave Detalhe Valor para o/a leitor/a
- Reconhecer a distância entre pensamentos e emoções como “incongruência” Dá linguagem a um desconforto vago e reduz a auto-culpabilização
- Descrever as sensações corporais antes de as analisar Ajuda a aceder a emoções escondidas sem ficar preso/a ao excesso de pensamento
- Usar pequenos gestos diários para deixar as emoções “alcançarem” a mente Oferece ferramentas realistas para te sentires mais alinhado/a sem virar a vida do avesso

FAQ:

  • Pergunta 1 Porque é que me sinto emocionalmente “estranho/a” quando tudo na minha vida parece bem?
  • Resposta 1 A tua mente avalia “factos” como trabalho, relações e estabilidade, enquanto o teu sistema emocional reage a necessidades não satisfeitas, feridas antigas e stress contínuo. Quando essas duas leituras da tua vida não coincidem, sentes essa dissonância estranha.
  • Pergunta 2 Isto é o mesmo que ansiedade ou depressão?
  • Resposta 2 Nem sempre. Pode fazer parte da ansiedade ou da depressão, mas também pode existir por si só como uma divisão interna. Se o mal-estar for intenso, constante, ou afectar sono, apetite ou energia, consultar um/a profissional é um passo sensato.
  • Pergunta 3 Pensar de forma mais lógica pode corrigir a inquietação?
  • Resposta 3 A lógica pode ajudar nas decisões, mas a inquietação emocional não desaparece só por ser “irracional”. As emoções tendem a acalmar quando são sentidas e reconhecidas, não quando se discute com elas.
  • Pergunta 4 Qual é um exercício rápido que posso fazer quando sinto esta divisão?
  • Resposta 4 Faz uma pausa, respira devagar durante 60 segundos e depois completa duas frases: “Agora, os meus pensamentos estão a dizer…” e “Agora, as minhas emoções estão a dizer…” Isto cria uma pequena ponte entre as duas.
  • Pergunta 5 Quanto tempo demora até me sentir mais alinhado/a?
  • Resposta 5 Não há um prazo fixo. Algumas pessoas notam mudança após algumas semanas de check-ins regulares ou terapia; outras precisam de mais tempo. A chave é a consistência com pequenas práticas, em vez de perseguir uma transformação súbita e total.

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